(unsplash/Unsplash)
CEO e founder NewCo, boutique de Networking internacional
Publicado em 25 de agosto de 2026 às 19h49.
Há um livro pequeno, quase uma fábula, chamado O Cavaleiro da Armadura Enferrujada, de Robert Fisher, que conta a história de um cavaleiro tão apaixonado pela própria armadura que passa a usá-la para tudo: para lutar, para jantar, para dormir, para abraçar a esposa e o filho. Ele gosta tanto da imagem que aquele metal brilhante projeta — nobre, forte, admirado — que esquece como se tira. Até o dia em que não consegue mais. A armadura enferruja, gruda na pele, e o cavaleiro descobre, tarde demais, que a proteção virou prisão. Já pararam para pensar em quantas armaduras nós mesmos vestimos, sem perceber quando paramos de conseguir tirá-las?
Todo papel que ocupamos com destaque vem com a sua couraça. A do fundador que não pode admitir cansaço porque toda a empresa observa. A do executivo sempre disponível, sempre no controle, sempre com a resposta certa na ponta da língua. A do herdeiro que precisa provar, todos os dias, que merece o sobrenome. Vestimos essas peças porque, em algum momento, elas nos protegeram de verdade — deram confiança, abriram portas, evitaram julgamento. O problema é que nenhuma armadura foi feita para ser usada para sempre, e quanto mais visível o papel que ocupamos, mais caro fica sustentar o metal — e mais público costuma ser o dia em que ele trava.
Foi o que aconteceu com Whitney Wolfe Herd, fundadora do aplicativo de relacionamentos Bumble. Em 2023, no auge da pressão como CEO de uma das poucas grandes empresas de tecnologia fundadas por uma mulher, ela deixou o comando. Voltou dois anos depois e descreveu aquele intervalo sem meias palavras: "Tive uma espécie de morte do ego quando saí do cargo de CEO", contou. Sem convites para palestrar, sem capa de revista, "fiquei sozinha comigo mesma pela primeira vez em muitos anos". O que ela aprendeu nesse silêncio foi menos sobre estratégia de negócios e mais sobre si: "Meu ego foi arrancado. Não ligo mais se as pessoas gostam de mim." Reconheceu, inclusive, o próprio reflexo na exaustão de quem assumiu seu lugar — "senti que estava me olhando num espelho, um ano atrás". Ela só conseguiu voltar a liderar depois de aceitar ficar, por um tempo, sem a armadura que a apresentava ao mundo como "a fundadora imbatível".
No Brasil, a trajetória de Abilio Diniz conta uma versão parecida, só que mais antiga. Sequestrado em 1989, ele passou décadas seguintes falando sobre como aquele episódio o obrigou a reorganizar o que havia deixado em segundo plano durante anos à frente de um dos maiores grupos varejistas do país: saúde, tempo, presença. Não era uma armadura de quem esconde fragilidade emocional, mas de quem confunde ritmo incessante com virtude — até que a vida cobra a conta e obriga a rever isso na frente de todo mundo.
O que essas duas histórias têm em comum não é o desfecho, é o mecanismo. A armadura de uma figura pública não protege só a pessoa por dentro dela — protege também a narrativa que investidores, equipes e a imprensa constroem em torno dela. Isso torna a decisão de tirá-la mais difícil e, ao mesmo tempo, mais generosa: quando alguém no topo admite que a couraça pesou demais, dá permissão para que muita gente ao redor pare de fingir que a delas não pesa.
A ferrugem, de todo modo, não aparece do dia para a noite. Ela se acumula devagar, em cada reunião em que a gente repete o roteiro de sempre, em cada meta cumprida às custas do sono, em cada "está tudo sob controle" dito no piloto automático. O convite da fábula é tratar os primeiros sinais de rigidez ou isolamento como o momento de agir, e não como uma fraqueza para esconder atrás de mais uma camada de metal.
Fica, então, o convite para este mês: olhe para a armadura que você veste hoje — no trabalho, em casa, diante de quem te observa — e pergunte-se há quanto tempo não a tira. Ela ainda te protege, ou já começou a te prender?