Uma cripto borboleta chinesa pode causar um racionamento no Brasil?

O Brasil pode passar por um efeito borboleta, só que na direção inversa: a batida de asas é a recente proibição de atividades de “mineração” na China
O Brasil, por sua vez, poderia absorver grandes cargas com mais facilidade, porém tem encargos de energia elétrica e taxas de importação de computadores que reduzem a margem dos mineiros (dulezidar/Getty Images)
O Brasil, por sua vez, poderia absorver grandes cargas com mais facilidade, porém tem encargos de energia elétrica e taxas de importação de computadores que reduzem a margem dos mineiros (dulezidar/Getty Images)
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Mario VeigaPublicado em 02/10/2021 às 09:00.

A origem da conhecida expressão “efeito borboleta” é um exemplo usado pelo meteorologista Edward Lorenz para explicar um paradoxo aparente: apesar de as equações que representam o processo atmosférico serem conhecidas em detalhe, e ser possível resolvê-las por métodos computacionais eficientes, é impossível prever o tempo além de algumas semanas. Esta impossibilidade é matemática, isto é, continuaria valendo mesmo se os computadores fossem milhões de vezes mais poderosos, ou até mesmo quânticos. A razão, descoberta por Lorenz, é que os resultados das previsões de chuva além de algumas semanas variam absurdamente se houver diferenças minúsculas nos valores de temperatura, pressão e vento de hoje, que são o ponto de partida para os cálculos. Lorenz chamou este fenômeno de caos, e o exemplo foi de que a batida de asas de uma borboleta no Brasil pode afetar a trajetória de um tornado no Texas.

Curiosamente, o Brasil pode passar por outro efeito borboleta, só que na direção inversa: a batida de asas neste caso é a recente proibição de atividades de “mineração” de bitcoin e outras cripto moedas na China. Como os leitores “tech” da Exame sabem, os mineiros competem para resolver problemas computacionais complexos, e o mais rápido é recompensado com cripto moedas. A renda anual da mineração é cerca de 13 bilhões de dólares, e cerca de 4 milhões de computadores são usados dia e noite nesta atividade. O consumo de energia destes computadores é gigantesco, comparável ao consumo total da Argentina, e a China responde por metade deste consumo global. A recente crise de energia da China, causada pela combinação de falta de carvão e uma seca severa, esgotou a paciência dos governantes chineses, que proibiram todas as atividades de cripto moedas no país.

A consequência foi um êxodo de mineradores chineses buscando países com energia abundante, barata e, de preferência, limpa, pois as cripto moedas também têm sido criticadas pelo impacto ambiental. A América Latina é obviamente um forte candidato para esta atividade, e nós temos assessorado diversos grupos sobre as vantagens e desvantagens de cada país. Por exemplo, o Chile tem energia solar muito competitiva e um ótimo ambiente de negócios. Por outro lado, a instalação de milhares de MWs de consumo de mineração pode causar um impacto significativo no sistema de geração e transmissão do país.

O Brasil, por sua vez, poderia absorver grandes cargas com mais facilidade, porém tem encargos de energia elétrica e taxas de importação de computadores que reduzem a margem dos mineiros. Um candidato surpresa nestas análises é o Paraguai. Embora a demanda do país seja relativamente pequena, o Paraguai tem acesso a duas fontes gigantesca de geração, que são metade da energia das usinas hidrelétricas binacionais de Itaipu (Brasil) e Yacyretá (Argentina).

No caso de Itaipu, a quota do Paraguai está no momento comprometida com o Brasil, mas o contrato termina em 2023. O governo paraguaio está utilizando esta disponibilidade de energia limpa e barata (a usina está totalmente amortizada) para promover a instalação de indústrias no país, e muitas das vantagens se aplicariam a grupos de mineração de cripto. Este aumento potencial do consumo do Paraguai, por sua vez, cria um desafio para o planejamento do suprimento de energia do Brasil, pois passamos a ter incerteza sobre a disponibilidade de uma fonte de geração que hoje atende 10% do consumo do país.

Este artigo inaugura a parceria entre a PSR, uma empresa de energia e tecnologia com atuação em setenta países, e a Exame. A cada quinzena apresentaremos outros exemplos da interação cada vez mais complexa entre tecnologia, energia, economia e geopolítica.