As eleições e a economia

Os resultados ainda parciais das eleições para prefeito realizadas no último domingo precisam ser entendidos no quadro de transição política que o Brasil vive hoje. O colapso do PT, depois de quase 14 anos de uma hegemonia nunca vista nos anos recentes de nossa história, é a fotografia mais nítida que podemos extrair da vontade […]
 (Rodrigo Paiva/Reuters)
(Rodrigo Paiva/Reuters)
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Luiz Carlos Mendonça de Barros

Publicado em 03/10/2016 às 19:41.

Última atualização em 22/06/2017 às 18:23.

Os resultados ainda parciais das eleições para prefeito realizadas no último domingo precisam ser entendidos no quadro de transição política que o Brasil vive hoje. O colapso do PT, depois de quase 14 anos de uma hegemonia nunca vista nos anos recentes de nossa história, é a fotografia mais nítida que podemos extrair da vontade do eleitor. Mas se esta nitidez é inquestionável, então sua importância na construção de cenários alternativos para os próximos anos é, para mim, desprezível. Ou seja, o papel do PT como protagonista da construção de um novo equilíbrio político no Brasil será muito reduzido e aconselho o leitor de EXAME Hoje esquecer dele nos próximos anos.

Uma segunda fotografia que podemos tirar dos resultados é o crescimento do PSDB, tanto em termos nacionais como em colégios eleitorais de alto simbolismo como foi o caso de São Paulo, das cidades do ABC e Porto Alegre. Este seu movimento mostra que, apesar do domínio petista nos últimos anos, o partido dos tucanos se manteve vivo no imaginário do eleitor e se reencontrou agora com uma parcela importante de seus antigos apoiadores. Claramente um movimento de gangorra entre dois polos que dominaram a cena política eleitoral dos últimos 20 anos no Brasil. Para as eleições de 2018, os resultados das urnas de domingo abrem uma avenida para a volta do PSDB ao poder se suas lideranças — novas e velhas — tiverem juízo e competência.

Uma terceira informação — que precisamos tratar com mais cuidado pois sua fotografia ainda não apresenta a nitidez necessária para conclusões definitivas — foram os resultados de Salvador e outras cidades importantes no Brasil em que, a chamada direita conservadora deu uma surra nas esquerdas, sejam elas revolucionárias ou não. Eles apontam para uma mudança no posicionamento ideológico de uma grande parte dos eleitores, depois que a crise econômica quebrou o cristal que os ligou ao PT nos anos mágicos do ciclo de commodities. Se isto for — como acredito — um movimento verdadeiro, as tintas desta fotografia vão se tornar cada vez mais nítidas no caminho das eleições de 2018. E uma nova hegemonia no Congresso poderá ser formada.

Finalmente chamo o leitor a uma reflexão serena sobre o PMDB e sua posição nesta eventual nova maioria política que emergirá do pleito de domingo. Apesar de derrotas importantes como no Rio de Janeiro e São Paulo, o resultado nacional do partido foi expressivo. Com mais de 1.000 prefeitos eleitos em todo o nosso território, o PMDB ainda é o maior partido político no Brasil e peça fundamental na estabilidade de qualquer governo em Brasília. Como todos sabemos, esta inflexão à direita que parece estar ocorrendo não representa uma dificuldade maior de adaptação para o partido. Pelo contrário, a grande maioria de seus membros e lideranças estarão mais à vontade com valores da centro-direita do que na aliança com o PT. Ou seja, a cooptação do PMDB pelo novo centro político que está sendo formado se dará de forma natural e feliz. Como aconteceu no período FHC.

Ao longo de 2017, na medida em que a economia comece a sinalizar uma recuperação cíclica mais vigorosa e a inflação volte a um leito de normalidade tenho a convicção de que esta marcha para a centro direita vai se consolidar entre nós. Os valores petistas dos últimos anos serão esquecidos e uma nova liderança — com novos e velhos políticos — vai aparecer e comandar por um novo ciclo nossos destinos. Bem em tempo para que possamos enfrentar os desafios estruturais que ameaçam nosso futuro e um novo período de crescimento sustentado seja criado.