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Por que a rejeição importa mais do que a intenção de voto nas eleições polarizadas

Em contextos como o brasileiro, a variável decisiva não é apenas quem os eleitores preferem, mas sobretudo quem eles rejeitam

 (TSE/Divulgação)

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Publicado em 20 de dezembro de 2025 às 08h00.

Em eleições polarizadas, a atenção costuma se concentrar na intenção de voto. Quem está na frente, quem cresceu, quem perdeu fôlego. Mas esse foco, embora intuitivo, tem se mostrado cada vez menos suficiente para entender o resultado final das disputas. Em contextos como o brasileiro, a variável decisiva não é apenas quem os eleitores preferem, mas sobretudo quem eles rejeitam.

A rejeição não é um subproduto emocional da política. Ela funciona como um veto. Enquanto a intenção de voto mede preferência momentânea, a rejeição mede intolerância política, o limite além do qual um candidato deixa de ser aceitável para uma parcela relevante do eleitorado. Em eleições que tendem ao segundo turno, como no Brasil, essa diferença muda tudo. Não se trata apenas de quem cresce, mas de quem consegue atravessar a reta final sem esbarrar em um limite de rejeição que os dados já deixam claro.

Rejeição como teto eleitoral

Do ponto de vista analítico, a rejeição opera como uma variável de restrição, não de mobilização. Candidatos podem crescer em intenção de voto ao longo da campanha, mas enfrentam dificuldades muito maiores para reduzir rejeições elevadas. Em ambientes polarizados, a rejeição tende a ser mais estável do que a preferência. Por isso, candidaturas com intenção competitiva, mas rejeição alta, parecem fortes nas manchetes, mas não necessariamente sustentáveis no desfecho da eleição.

A eleição deixa de ser um problema de maximizar votos e passa a ser um problema de coordenação dentro de limites estreitos de aceitabilidade. É aí que muitas análises erram o diagnóstico.

Polarização, identidade e rejeição

A ciência política oferece boas ferramentas para interpretar esse fenômeno. Parte da literatura internacional descreve o avanço da polarização afetiva, a transformação da política em um conflito identitário organizado em termos de “nós” versus “eles”. Nesse ambiente, a antipatia em relação ao campo adversário se torna tão ou mais importante do que a identificação positiva com o próprio lado.

Nos Estados Unidos, esse padrão é frequentemente descrito pelo conceito de negative partisanship. A ideia é simples: muitos eleitores se comportam politicamente menos por entusiasmo com seu partido e mais por rejeição ativa ao adversário. O voto passa a ser defensivo, e não afirmativo.

No Brasil, há uma tradição consolidada de estudos sobre antipartidarismo e rejeição partidária, que ajudam a explicar a centralidade do lulismo e do bolsonarismo como polos identitários desde 2018. Nesse contexto, a rejeição deixa de ser episódica e passa a ser estrutural.

A cristalização da rejeição no Brasil

Os dados mais recentes indicam que a rejeição aos principais polos da política brasileira está cristalizada. Ao longo de 2025, tanto o presidente Lula quanto o ex-presidente Jair Bolsonaro mantiveram índices de rejeição elevados e relativamente estáveis, em torno de 50% ou mais. Não se trata de oscilação conjuntural, mas de um patamar persistente.

Essa estabilidade ganha ainda mais peso quando observada em perspectiva histórica. Durante a eleição de 2022, pesquisas de diferentes institutos já mostravam níveis elevados de rejeição para ambos os candidatos, reforçando a ideia de que o fenômeno antecede o ciclo atual e se mantém ao longo do tempo.

Essa cristalização permite distinguir dois tipos de rejeição, com implicações políticas distintas.

A rejeição estrutural está associada a identidades políticas consolidadas. Ela não depende de um evento específico, mas do que o candidato simboliza em um conflito mais amplo. Um exemplo claro é o caso de Flávio Bolsonaro. Escolhido por Jair Bolsonaro como seu candidato, ele herda parte do capital político do pai, mas herda também sua rejeição. Os dados indicam que Flávio apresenta patamar de rejeição semelhante ao do ex-presidente, antes mesmo de consolidar uma trajetória própria como candidato nacional. Aqui, a rejeição funciona como marca identitária transferível.

Já a rejeição episódica é acionada por eventos específicos, crises, escândalos, declarações ou decisões que reconfiguram temporariamente a percepção pública. Ela tende a crescer rapidamente, mas pode se dissipar ou ser mitigada com o tempo. A diferença central é que, enquanto a rejeição episódica responde a circunstâncias e narrativas, a rejeição estrutural é mais rígida, pois está ancorada em identidades políticas.

Quando a rejeição episódica decide eleições

A centralidade da rejeição estrutural não elimina a importância da rejeição episódica. Pelo contrário. Em eleições altamente cristalizadas, episódios de curto prazo podem se tornar decisivos justamente porque atuam sobre um segmento específico do eleitorado: os eleitores independentes, moderados ou “nem nem”, que rejeitam ambos os polos, mas ainda assim precisam tomar uma decisão.

Esses eleitores tendem a carregar rejeição estrutural tanto ao lulismo quanto ao bolsonarismo. O que muda seu comportamento não é a adesão a um projeto, mas a dificuldade relativa de votar em um lado ou no outro. Nesses casos, a rejeição episódica funciona como um fator de desempate. Um episódio que aumente a rejeição momentânea de um dos polos pode tornar esse voto emocionalmente mais custoso e empurrar parte desse eleitorado para a abstenção, para o voto nulo ou para o adversário percebido como menos problemático naquele momento.

A eleição de 2022 ilustra bem esse mecanismo. Nas semanas finais da campanha, episódios envolvendo aliados próximos de Jair Bolsonaro geraram forte repercussão negativa, como a resistência armada do ex-deputado Roberto Jefferson à prisão e o episódio em que a deputada Carla Zambelli foi filmada perseguindo um homem armada nas ruas de São Paulo. Esses fatos não alteraram a rejeição estrutural do bolsonarismo, que já era elevada, mas podem ter aumentado a rejeição episódica naquele momento específico, sobretudo entre eleitores moderados e independentes, tornando o voto em Bolsonaro mais difícil emocionalmente nos dias finais da campanha.

Não se trata de afirmar causalidade direta ou quantificar efeitos precisos. Trata-se de reconhecer um mecanismo plausível e recorrente em eleições polarizadas: quando o espaço de conversão é estreito, episódios de alta visibilidade próximos ao dia da votação podem ter impacto desproporcional.

A assimetria da incumbência: mais ferramentas, mais exposição

A distinção entre rejeição estrutural e episódica ajuda também a entender a posição ambígua do incumbente em disputas polarizadas. Por um lado, quem está no governo dispõe de instrumentos que a oposição não tem. Políticas públicas, transferências de renda, expansão de crédito, programas sociais e controle da agenda institucional podem mitigar rejeições, sobretudo entre segmentos mais sensíveis a resultados materiais.

Em 2022, por exemplo, observou-se uma redução da rejeição de Jair Bolsonaro em alguns grupos específicos ao longo do ano eleitoral, movimento frequentemente associado à ampliação do Auxílio Brasil durante o período da campanha. Esse tipo de ação dificilmente elimina rejeições estruturais, mas pode suavizá-las na margem.

Por outro lado, a incumbência também aumenta a exposição à rejeição episódica. Governos são estruturas complexas, com múltiplos atores, decisões e riscos. Crises, erros administrativos, escândalos ou ruídos de comunicação tendem a recair diretamente sobre o incumbente, sobretudo nos momentos finais do ciclo eleitoral.

O governo Lula oferece exemplos recentes dessa vulnerabilidade. Episódios como a crise envolvendo o Pix, amplamente explorada pela oposição, tensões relacionadas ao INSS ou desgastes associados à agenda de segurança pública produziram impactos pontuais na popularidade presidencial e interromperam tendências positivas em determinados momentos. Nenhum desses episódios redefine a rejeição estrutural ao lulismo, mas todos ilustram como a rejeição episódica pode ganhar centralidade à medida que o calendário eleitoral se aproxima.

O paradoxo da eleição de 2026

O quadro resultante é paradoxal apenas à primeira vista. Apesar do desgaste do governo e da divisão na avaliação presidencial, Lula segue bastante competitivo e preferido nas simulações contra alternativas da direita. Ao mesmo tempo, carrega uma rejeição elevada e estabilizada, que limita sua capacidade de expansão.

Isso sugere que a eleição de 2026 será menos sobre conquistar novos eleitores e mais sobre operar dentro de limites rígidos de tolerância política. Em contextos assim, a rejeição deixa de ser um indicador secundário e passa a organizar o jogo.