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Para que serve a Petrobras?

O papel da estatal na economia será um dos temas da campanha eleitoral – e veio à tona com a greve dos caminhoneiros

Petrobras: A estatal se tornou uma das empresas mais endividadas do mundo, amargando prejuízos ano após ano. (Paulo Whitaker/Reuters)
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Publicado em 25 de maio de 2018 às 17h39.

Última atualização em 25 de maio de 2018 às 19h53.

O eleitor à procura de um candidato para chamar de seu ganha muito ao acompanhar as notícias do dia-a-dia. O modo com que os postulantes à presidência se posicionam em relação aos fatos diz muito sobre o que pensam, no que acreditam e como agiriam se ganhassem as eleições.

A greve dos caminhoneiros que paralisou o país é um bom exemplo. O pano de fundo do movimento é uma questão que, cedo ou tarde, irá aparecer com força no debate eleitoral: para que serve a Petrobras ? No governo Dilma, a estatal era usada com frequência para subsidiar o preço dos combustíveis, com o objetivo de evitar o aumento da inflação. O resultado disso é conhecido. A Petrobras se tornou uma das empresas mais endividadas do mundo, amargando prejuízos ano após ano. Consequência, claro, não apenas de tal política, mas de vários outros fatores – como a corrupção envolvendo partidos da aliança do governo que se instalou em suas diretorias. É inegável, no entanto, que há uma contradição. Não dá para uma empresa ao mesmo tempo perseguir o lucro e servir de instrumento para controle de preços.

No governo Michel Temer, sob a administração do executivo Pedro Parente, a Petrobras mudou sua política de preços. Passou a agir como uma empresa normal, que reajusta o valor do produto que vende de acordo com as oscilações do mercado. Com isso, a Petrobras saiu do prejuízo para o lucro, e suas ações voltaram a subir na bolsa. Entre esses dois pólos, temos um bom debate para os candidatos à presidência. As vantagens para o Brasil de uma Petrobras saudável são inúmeras, para além do ganho dos acionistas – milhões de brasileiros. Uma Petrobras saudável gera empregos e inova na criação de tecnologias. Historicamente, a empresa desenvolveu diversos procedimentos para facilitar a retirada de petróleo em águas profundas, reconhecidos internacionalmente e empregadas no mundo inteiro, da Nigéria à Noruega.

Daí surge a discussão. Preferimos uma Petrobras saudável e inovadora? Ou gasolina mais barata nos postos sempre que há um solavanco nos preços do petróleo?

Nenhum candidato se posicionou de forma veemente em defesa de um ou de outro ponto de vista. Mas é possível ler, em suas declarações, para que lado pendem. Ciro Gomes, em seu twitter, escreveu: “A alta dos combustíveis é uma aberração que praticamente nega a razão de ser da própria existência da Petrobras. A política de preços está equivocada e desrespeita sua estrutura de custos. Toda a eficiência da Petrobras deve ser transferida para o interesse público brasileiro e é isso que nós vamos fazer”. É de perguntar o que Ciro quer dizer com “interesse público brasileiro”. Considerar a política de preços um “equívoco” e a alta de preços uma “aberração” sugere que Ciro acredita no papel da Petrobras como auxiliar na regulação do mercado. Ou seja, seu pensamento se assemelha, neste quesito, ao de Dilma Rousseff, e condiz com a postura nacionalista que defende na campanha eleitoral (leia quadro abaixo). O candidato terá tempo para explicitar, ao longo dos próximos meses, o que pensa exatamente.

Já Marina Silva, em sabatina promovida pelo site Uol, pelo canal SBT e pelo jornal Folha de S.Paulo, enfatizou os danos da ação do governo para os acionistas da Petrobras. Ao comentar o subsídio concedido para o óleo diesel, Marina comentou: “Fazendo no olho do furacão, com a pressão política, a mensagem que passou externamente é que a Petrobras não está se comportando de acordo com as regras do mercado. E aí vai uma desvalorização das ações da Petrobras na ordem de 11%”. A ênfase de Marina é mais condizente com a postura social-democrata que abraçou nas últimas campanhas eleitorais – e que deve persistir nesta, a julgar pelos economistas que coordenam sua equipe, Eduardo Giannetti e André Lara Resende. No mundo moderno, a postura social-democrata se identifica com a combinação entre liberdade de mercado e programas sociais pró-ativos – em linha com o que defenderam Bill Clinton e Tony Blair no passado e, no presente, governantes como o canadense Justin Trudeau e o francês Emmanuel Macron. Tanto Marina como Ciro têm história na esquerda – Marina mais que Ciro, dado que o ex-governador do Ceará já esteve em siglas de vários matizes do espectro político. Fica claro, no entanto, por esta e outras declarações recentes, que Marina e Ciro defendem concepções de “esquerda” bastante diferentes.

Entre os candidatos que lideram as pesquisas, Jair Bolsonaro e Geraldo Alckmin não se posicionaram claramente sobre o papel da Petrobras ao comentar a greve dos caminhoneiros. O time econômico de Bolsonaro, de feição liberal e chefiado por Paulo Guedes, defende a privatização do maior número possível de estatais, sem excluir a Petrobras. O de Alckmin, social-democrata e liderado por Pérsio Arida, exclui Petrobras e Banco do Brasil de seu programa de privatizações. Ao expressar apoio ao presidente da Petrobras, Pedro Parente, contrariando colegas de partido, Alckmin sugere que está a favor da atual política de preços da Petrobras.

Diga-me o que pensas sobre os fatos do dia-a-dia e eu te direi quem és. No furacão da campanha, os candidatos serão obrigados a se posicionar. Melhor para o eleitor.

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O eleitor à procura de um candidato para chamar de seu ganha muito ao acompanhar as notícias do dia-a-dia. O modo com que os postulantes à presidência se posicionam em relação aos fatos diz muito sobre o que pensam, no que acreditam e como agiriam se ganhassem as eleições.

A greve dos caminhoneiros que paralisou o país é um bom exemplo. O pano de fundo do movimento é uma questão que, cedo ou tarde, irá aparecer com força no debate eleitoral: para que serve a Petrobras ? No governo Dilma, a estatal era usada com frequência para subsidiar o preço dos combustíveis, com o objetivo de evitar o aumento da inflação. O resultado disso é conhecido. A Petrobras se tornou uma das empresas mais endividadas do mundo, amargando prejuízos ano após ano. Consequência, claro, não apenas de tal política, mas de vários outros fatores – como a corrupção envolvendo partidos da aliança do governo que se instalou em suas diretorias. É inegável, no entanto, que há uma contradição. Não dá para uma empresa ao mesmo tempo perseguir o lucro e servir de instrumento para controle de preços.

No governo Michel Temer, sob a administração do executivo Pedro Parente, a Petrobras mudou sua política de preços. Passou a agir como uma empresa normal, que reajusta o valor do produto que vende de acordo com as oscilações do mercado. Com isso, a Petrobras saiu do prejuízo para o lucro, e suas ações voltaram a subir na bolsa. Entre esses dois pólos, temos um bom debate para os candidatos à presidência. As vantagens para o Brasil de uma Petrobras saudável são inúmeras, para além do ganho dos acionistas – milhões de brasileiros. Uma Petrobras saudável gera empregos e inova na criação de tecnologias. Historicamente, a empresa desenvolveu diversos procedimentos para facilitar a retirada de petróleo em águas profundas, reconhecidos internacionalmente e empregadas no mundo inteiro, da Nigéria à Noruega.

Daí surge a discussão. Preferimos uma Petrobras saudável e inovadora? Ou gasolina mais barata nos postos sempre que há um solavanco nos preços do petróleo?

Nenhum candidato se posicionou de forma veemente em defesa de um ou de outro ponto de vista. Mas é possível ler, em suas declarações, para que lado pendem. Ciro Gomes, em seu twitter, escreveu: “A alta dos combustíveis é uma aberração que praticamente nega a razão de ser da própria existência da Petrobras. A política de preços está equivocada e desrespeita sua estrutura de custos. Toda a eficiência da Petrobras deve ser transferida para o interesse público brasileiro e é isso que nós vamos fazer”. É de perguntar o que Ciro quer dizer com “interesse público brasileiro”. Considerar a política de preços um “equívoco” e a alta de preços uma “aberração” sugere que Ciro acredita no papel da Petrobras como auxiliar na regulação do mercado. Ou seja, seu pensamento se assemelha, neste quesito, ao de Dilma Rousseff, e condiz com a postura nacionalista que defende na campanha eleitoral (leia quadro abaixo). O candidato terá tempo para explicitar, ao longo dos próximos meses, o que pensa exatamente.

Já Marina Silva, em sabatina promovida pelo site Uol, pelo canal SBT e pelo jornal Folha de S.Paulo, enfatizou os danos da ação do governo para os acionistas da Petrobras. Ao comentar o subsídio concedido para o óleo diesel, Marina comentou: “Fazendo no olho do furacão, com a pressão política, a mensagem que passou externamente é que a Petrobras não está se comportando de acordo com as regras do mercado. E aí vai uma desvalorização das ações da Petrobras na ordem de 11%”. A ênfase de Marina é mais condizente com a postura social-democrata que abraçou nas últimas campanhas eleitorais – e que deve persistir nesta, a julgar pelos economistas que coordenam sua equipe, Eduardo Giannetti e André Lara Resende. No mundo moderno, a postura social-democrata se identifica com a combinação entre liberdade de mercado e programas sociais pró-ativos – em linha com o que defenderam Bill Clinton e Tony Blair no passado e, no presente, governantes como o canadense Justin Trudeau e o francês Emmanuel Macron. Tanto Marina como Ciro têm história na esquerda – Marina mais que Ciro, dado que o ex-governador do Ceará já esteve em siglas de vários matizes do espectro político. Fica claro, no entanto, por esta e outras declarações recentes, que Marina e Ciro defendem concepções de “esquerda” bastante diferentes.

Entre os candidatos que lideram as pesquisas, Jair Bolsonaro e Geraldo Alckmin não se posicionaram claramente sobre o papel da Petrobras ao comentar a greve dos caminhoneiros. O time econômico de Bolsonaro, de feição liberal e chefiado por Paulo Guedes, defende a privatização do maior número possível de estatais, sem excluir a Petrobras. O de Alckmin, social-democrata e liderado por Pérsio Arida, exclui Petrobras e Banco do Brasil de seu programa de privatizações. Ao expressar apoio ao presidente da Petrobras, Pedro Parente, contrariando colegas de partido, Alckmin sugere que está a favor da atual política de preços da Petrobras.

Diga-me o que pensas sobre os fatos do dia-a-dia e eu te direi quem és. No furacão da campanha, os candidatos serão obrigados a se posicionar. Melhor para o eleitor.

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