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Yes in My Backyard: por que cidades precisam de mais liberdade para crescer

A substituição de casas por edifícios mais representa um processo natural de adaptação da cidade às novas demandas sociais e econômicas

Faria Lima: vários indicadores que impactaram negativamente em 2024 continuaram suas tendências, como as taxas de juro, que atingiram 15% ao ano (Germano Lüders/Exame)

Faria Lima: vários indicadores que impactaram negativamente em 2024 continuaram suas tendências, como as taxas de juro, que atingiram 15% ao ano (Germano Lüders/Exame)

Da Redação
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Redação Exame

Publicado em 4 de fevereiro de 2026 às 14h44.

Por Paulo Giacomelli, Presidente do Instituto Liberdade

Moro há cerca de um ano em uma rua do bairro Petrópolis, em Porto Alegre. Em frente ao prédio onde vivo, está sendo construído um edifício residencial de alto padrão. É apenas mais um entre vários empreendimentos recentes da região, erguidos em terrenos onde antes existiam casas unifamiliares. Por curiosidade, e também por formação profissional, recorri ao Google Maps para observar o que havia ali anos atrás. Encontrei duas casas, uma dos anos 1970 e outra provavelmente dos anos 1980. Ambas em bom estado de conservação, já alugadas para usos comerciais leves, como clínicas e escritórios.

Essas edificações já não cumpriam mais sua função residencial original. Eram, na prática, construções adaptadas a um bairro que havia mudado. O Petrópolis de hoje não é o mesmo de 50 anos atrás. Tornou-se uma centralidade urbana dinâmica, próxima a eixos de mobilidade, serviços, universidades e atividades econômicas. A substituição dessas casas por um edifício mais denso não representa um retrocesso urbano, mas um processo natural de adaptação da cidade às novas demandas sociais e econômicas.

Ainda assim, muitos enxergam esse tipo de transformação como um problema. A narrativa de que derrubar casas para construir prédios significa perda urbana é comum no Brasil e costuma embasar movimentos de resistência local ao desenvolvimento imobiliário. Aqui surge um dos grandes equívocos do debate urbano nacional, que é a incapacidade de compreender a cidade como um organismo vivo, em constante transformação, e não como uma fotografia congelada no tempo.

As cidades brasileiras possuem uma conformação urbanística particularmente complexa. Não cresceram da forma que conhecemos por ausência de planejamento, mas muitas vezes pelo excesso de regras mal articuladas, somadas a ciclos econômicos instáveis e mudanças bruscas de política urbanísticas. São Paulo é o exemplo clássico. Uma cidade que nasceu de chácaras, loteadas individualmente, e que depois precisou ser conectada por vias, infraestrutura e serviços em escala metropolitana. Porto Alegre, guardadas as proporções, viveu fenômeno semelhante.

Esse histórico produziu cidades engessadas, com zoneamentos rígidos, coeficientes limitados e processos de aprovação longos e imprevisíveis. O resultado é conhecido. Há escassez artificial de moradia bem localizada, espraiamento urbano, aumento do custo de infraestrutura e piora da mobilidade. Paradoxalmente, tudo isso ocorre em nome de um controle que supostamente protegeria a qualidade urbana.

Nos Estados Unidos, esse debate ganhou novos contornos com o surgimento do movimento Yes in My Backyard, conhecido pela sigla YIMBY. Em oposição ao tradicional Not in My Backyard, que se opõe sistematicamente a novos empreendimentos, o YIMBY defende mais liberdade para construir, maior densidade em áreas bem servidas de infraestrutura e menos barreiras regulatórias à oferta de moradia. Não se trata da ausência de regras, mas da defesa de regras mais simples, previsíveis e compatíveis com a realidade urbana.

O Estado de Oregon é um dos exemplos mais emblemáticos dessa mudança de abordagem. Em 2019, aprovou uma legislação que eliminou o zoneamento exclusivamente unifamiliar em diversas cidades, permitindo a construção de duplexes, triplexes e pequenas edificações multifamiliares em áreas antes rigidamente restritas. A lógica foi ampliar a oferta, diversificar tipologias e reduzir o custo da moradia sem expandir a cidade horizontalmente. Trata-se de uma política pública que reconhece que restringir artificialmente a construção não reduz demanda, apenas encarece preços.

Esse tipo de iniciativa contrasta fortemente com a realidade brasileira, onde movimentos contrários ao adensamento ainda exercem forte influência política, especialmente em bairros consolidados. Em São Paulo e Porto Alegre, é comum ver projetos sendo barrados ou mutilados não por problemas técnicos reais, mas por pressões locais que rejeitam qualquer forma de transformação urbana. O efeito agregado dessas resistências é perverso, pois a cidade se torna mais cara para a maioria das pessoas.

Defender uma agenda alinhada ao YIMBY no Brasil significa reconhecer que a liberdade de construir, dentro de parâmetros urbanos racionais, é um instrumento de inclusão e não de exclusão. Significa entender que edifícios mais densos em regiões centrais aliviam a pressão sobre a periferia, reduzem deslocamentos e tornam o uso da infraestrutura pública mais eficiente. Significa, sobretudo, abandonar a ilusão de que o Estado é capaz de planejar, de forma centralizada e detalhista, a dinâmica futura das cidades.

Cidades melhores não surgem do bloqueio ao desenvolvimento, mas da combinação entre liberdade econômica, regras claras e capacidade de adaptação. Incorporar a lógica do Yes in My Backyard ao debate urbano brasileiro é um passo necessário para enfrentar, com realismo, a crise habitacional e os desafios das grandes cidades. Menos medo do crescimento e mais confiança na cidade como processo talvez seja exatamente o que nos falta.