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Você está elegendo deepfakes e não sabia

Você está elegendo deepfakes e não sabia

 (Getty Images)

(Getty Images)

Publicado em 31 de março de 2026 às 15h17.

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mobilizou advogados, reguladores e políticos para enfrentar uma ameaça às eleições de 2026: o deepfake — tecnologia que permite fabricar vídeos, fotos e áudios falsos com realismo suficiente para enganar até o eleitor atento. Fica proibida a publicação de conteúdos produzidos por inteligência artificial 72 horas antes das eleições e 24 horas depois de seu encerramento. As multas chegam a R$50 milhões. Resoluções sobre resoluções, audiências públicas, e um vocabulário técnico que teria encantado Orwell.

É um esforço admirável em defesa da autenticidade. Regulando o pixel, salva-se a democracia. Pena que o objeto de proteção — o candidato de carne e osso — continue sendo, ele próprio, o principal deepfake na timeline eleitoral brasileira.

No Brasil, até o passado é incerto. Muitos candidatos que o eleitor vê no palanque raramente são os parlamentares que ele encontrará no plenário. Um vocifera austeridade e corte de gastos, mas sempre entrega um voto para mais despesas. Outro jura pelos valores do eleitorado que o elege, mas descobre súbita vocação pelo estatismo no primeiro aceno a um cargo no segundo escalão. Um terceiro se apresenta como oposição e aparece, pontualmente, ao lado do governo em toda votação que importa.

Por exemplo, segundo o Radar do Congresso — ferramenta que monitorou 1.247 votações nominais na Câmara ao longo do governo Lula (2023–2025) — siglas como PP e União Brasil, que em 2022 se apresentaram ao eleitor como de direita, registram índices de governismo de 74% e 67%, respectivamente. A cada dez votos, acompanharam o governo em sete. Para fins de comparação, na outra ponta, o NOVO registrou 19% — um dos únicos partidos com oposição consistente ao longo da legislatura.

Essa discrepância entre discurso e voto não é fruto do acaso; ela possui uma arquitetura. Para entendê-la, é preciso conhecer a engenharia que a produz — não a algorítmica, mas a eleitoral.

O quociente eleitoral é uma alavanca que ninguém explica ao eleitor. No Brasil, deputados federais são eleitos pelo sistema proporcional de lista aberta. O eleitor escolhe um nome, mas o voto não é do candidato — o voto é do partido. O número de cadeiras que cada legenda conquista é determinado pelo quociente eleitoral.

Números ajudam a tornar o mecanismo palpável. Nas eleições de 2022, o quociente eleitoral para deputado federal em São Paulo foi de 332.671 votos — o preço de uma cadeira no maior colégio eleitoral do país. Dessa forma, um partido que somasse, por exemplo, 665.342 votos em São Paulo em 2022 teria direito a duas cadeiras, que seriam ocupadas pelos dois candidatos mais votados da legenda.

Até aqui, a lógica é limpa. O problema começa com os chamados puxadores de votos — candidatos com votações extraordinárias que inflam o quociente partidário do partido e arrastam para o plenário outros candidatos que, sozinhos, jamais chegariam lá. Nas eleições de 2022, apenas 26 dos 513 deputados eleitos receberam votos suficientes para atingir o quociente eleitoral com seus próprios votos. Os outros 487 — 95% da Câmara — chegaram a Brasília pela força do partido, não pela força do seu nome. O motivo? Quando os votos de um partido não preenchem todas as cadeiras conquistadas, entram em cena as chamadas sobras: um segundo cálculo que distribui as vagas remanescentes entre os partidos com maior média de votos.

É nesse momento que o eleitor perde completamente o fio da meada — e que um candidato que ele nunca quis encontra a porta de entrada para o plenário. É o fenômeno do carona legislativo — um free rider constitucional.

Em São Paulo, em 2022, esse efeito ficou exposto de forma quase didática. Candidatos de direita com votações na casa dos milhões (como Carla Zambelli, Eduardo Bolsonaro, Ricardo Salles) inflaram o quociente de suas legendas a ponto de puxar praticamente cinco cadeiras adicionais. Parte relevante dessas cadeiras foi parar em candidatos que, em 2022, se apresentaram ao eleitor como defensores de uma agenda de direita — mas que, em 2026, registram um histórico de votações muito mais alinhado com pautas de esquerda.

Ou seja, o eleitor de direita que foi às urnas convicto de estar fortalecendo uma bancada estava, sem saber, financiando os votos no sentido contrário. Esse desfecho não resulta de manipulações algorítmicas, mas da eficiência de um sistema desenhado para entregar ao eleitor uma simulação de representatividade política.

Se o problema reside no design de incentivos, a profilaxia deve ser igualmente estrutural. A resposta não virá de calhamaços burocráticos de 70 páginas ou de fetiches legalistas de quem crê somente na magia do papel, mas de novas tecnologias — como a própria inteligência artificial — como desinfetante institucional. E talvez o uso mais imediato — e mais subestimado — da IA seja mais simples do que parece: educar o eleitor sobre a sua própria matemática.

Por exemplo, a Estônia digitaliza processos legislativos e disponibiliza ao eleitor painéis em tempo real com o histórico de votação de cada parlamentar. Taiwan usa plataformas de deliberação coletiva baseadas em IA para mapear consensos entre cidadãos antes que projetos de lei cheguem ao plenário. A Finlândia oferece ferramentas que comparam automaticamente as propostas dos candidatos com as preferências declaradas do eleitor. Tudo isso torna muito mais difícil para nossos políticos fingirem ser o que não são.

Votar num candidato que receberá muitos votos e já se elegerá sozinho não fortalece a bancada que o eleitor quer — apenas infla o partido e elege candidatos que o eleitor jamais escolheria. Para eleger bons candidatos, o eleitor pode perguntar a qualquer IA disponível gratuitamente na internet quais partidos votam de forma mais alinhada aos seus princípios — e onde o seu voto faria diferença real para eleger alguém de sua preferência que, pela matemática eleitoral, jamais chegaria ao plenário.