Vietnã: a possibilidade de que a disparidade de desempenho econômico entre Vietnã e Brasil se mantenha no futuro é concreta (Nhac NGUYEN / AFP)
Instituto Millenium
Publicado em 28 de janeiro de 2026 às 15h13.
Última atualização em 28 de janeiro de 2026 às 15h15.
Por Francisco de Assis Moura de Melo
Há dez anos atrás, visitei o Vietnã. No retorno ao Brasil, fiz uma reflexão sobre as políticas econômicas brasileiras no período de 1994 até 2015, ano este em que o Brasil perdeu o Investiment Grade, no dia 09/09, bem como o sentido de esquerda e direita na duelística da política brasileira.
Escrevi o texto A “sorte” da Cortina de Ferro e o “azar” do Brasil (os termos entre aspas têm significado específicos), editado em 18/05/2016, cuja conclusão básica é que o Brasil foi um perdedor na corrida do crescimento econômico no período analisado. Reproduzo uma parte do parágrafo final do texto:
... ví um povo que busca a sobrevivência pelo trabalho árduo, que paga pelos estudos dos filhos, talvez até por razões pedagógicas mais persuasivas do que o dito “não há um almoço grátis”. E pelo desestímulo à busca de privilégios governamentais, afinal, o Vietnã que vi demonstrou entender que é no setor privado que se produz riqueza. Repito a frase do Guia de Turismo Huan, que viveu em Cuba seis anos, que afirmou, de forma impassível: “Cuba está vinte anos atrás do Vietnã”.
Passados dez anos, a Economia Política mundial virou de ponta-cabeça, a Geopolítica tem contornos impensáveis há poucos anos, com os Estados Unidos da América renegando os ideais do ocidente e se descompromissando com a OTAN. O Brasil, que sempre exercitou a ambiguidade de pertencer ao Ocidente e afagar as ditaduras de leste a oeste, está no desconforto de fazer opções difíceis.
No plano econômico, a caracterização da política econômica como ser de direita e ou ser de esquerda perdeu significado. A ação do estado no domínio da economia passou a ser classificada como Sensible ou Populist, a partir dos fundamentos e dos resultados prováveis. Se fundamentada em dados e análises técnicas e experiência que atestam a sua eficácia para o desenvolvimento econômico sustentado, é denominada de Sensible. Os exemplos são a reforma da Previdência (2020) e a Reforma do Imposto Indireto (2024). Se, ao contrário, são movidas por interesses políticos imediatos e sem efeitos permanentes, sem análise de custos e benefícios e das consequências para as contas públicas, são denominadas de Populist. Este é o caso do aumento do Bolsa Família no Brasil, em 2022 e do One Big Beautful Bill Act, nos Estados Unidos da América em 2025.
Por seu turno, a clivagem Liberais insensíveis que defendem os milionários e ignoram os pobres e Socialistas autoritários que querem mais Estado e dele se aproveitar é própria da rinha política alheada da necessária análise crítica.
Na vida real não há política econômica que pretenda atingir metas de progresso econômico e bem estar social se conflita com as regras consolidadas de funcionamento da economia e se ignora as circunstâncias objetivas da realidade.
Admitidas essas condições, vejamos o desempenho do PIB (indicador geral de progresso) no Vietnã e no Brasil nos últimos 10 anos. E, de forma simplificada, o que explica as diferenças de performance econômica entre os dois países.
Em suma, em 10 anos, assim como em lapsos de tempos muito maiores, de 20 e até 30 anos, o Vietnã teve performance econômica marcantemente superior à do Brasil, a qual pode ser confirmada por diversos outros indicadores, relacionados à saúde e à educação.
Há, na raiz da explicação da grande diferença de performances, um fator básico: a diferença de entendimento quanto aos fundamentos determinantes do crescimento da economia. Essa diferença conduziu e conduz a políticas e resultados econômicas dispares. No cerne, o Vietnã priorizou o investimento em geral e sobretudo o investimento em capital humano como o motor do progresso, de forma eficiente, conforme se comprova com a performance de seus alunos no PISA.
Observe-se que o entendimento dos formuladores de política econômica do Vietnã foi e é o entendimento da teoria econômica ortodoxa: o investimento é a base indispensável para a aumentos do PIB Potencial. Podendo-se dizer, por força de expressão, até mesmo que investimento em capital físico e humano, é sinônimo de crescimento econômico.
Enquanto o Brasil priorizou o gasto, no entendimento heterodoxo de que “gasto é vida”, e que o consumo determina a renda, o que pode ocorrer efemeramente, em certas conjunturas, mas não duradouramente.
A aplicação da heterodoxia resultou em inflação seguida de recessão. O ciclo é este: euforia com indicadores efêmeros, inquietude (devido à situação fiscal) e depressão econômica. A situação atual não é diferente de 2014/2016, caso sejam excluídos os fatores alheios à política doméstica, no caso, a valorização do Real da ordem em 15%, a queda dos preços de várias commodities agrícolas e do preço do petróleo em mais de 20%. Sem isso, os nexos causais são falsos e misleading.
Quanto à Política Monetária, as taxas de juros elevadas afetam negativamente o crescimento da oferta global de bens e serviços e o potencial produtivo do Brasil. Do lado fiscal, o cumprimento da meta, sob o “Arcabouço Fiscal”, é um desvio da essência do problema que é o nível da dívida (a qual caminha para 80% do PIB). E, sobretudo, omite o serviço da dívida financiado com mais endividamento, situação que eleva o Serviço da Dívida à variável mais importante, à qual o nível do Déficit Primário deveria ser condicionado e não ser meta da gestão econômica como é atualmente. Apenas cumprir a meta fiscal, 0.4% do Pib, pouco ou nada significa.
Em resumo, O Brasil precisa de reforma da Política Fiscal e da Política Monetária, simultaneamente, bem como da Reforma do Estado, ineficiente e estroina.
Por fim, a possibilidade de que a disparidade de desempenho econômico entre Vietnã e Brasil se mantenha no futuro é concreta, conforme se deduz do trecho da The Economist, edição de 10/01/2026:
Mr. Lam’s bigesst reform have yet to take full efect. They include Resolutian 68, an attempt to boost the private sector through tax perks and lighter bureaucracy.
E isso no contexto atual do Vietnã: Dívida Pública, 36% do PIB (em queda desde 2016); Inflação: 3,5%; e Taxa de Juros: 4,5%. Entre outros.
Em suma, no balanço das consequências das duas experiências, a política econômica do Vietnã foi e é, na classificação acadêmica contemporânea, Sensible; e a política do Brasil foi e é, às mais das vezes, Populist. Independentemente das ideologias políticas díspares, de um e de outro país.