(Getty Images)
Colunista
Publicado em 2 de junho de 2026 às 15h00.
Em 2025, o mundo investiu cerca de US$ 580 bilhões na construção de data centers — mais do que destinou a toda a oferta global de petróleo. Let that sink in. A fronteira da inteligência artificial deixou de ser disputada apenas em linhas de código e passou a ser decidida de maneira muito mais prosaica com terra, cobre, concreto, e megawatts. Quem dominar a infraestrutura que opera os modelos de IA terá influência desproporcional sobre tudo o que vem depois.
As potências entenderam o recado e agiram com a falta de cerimônia de quem sabe que a janela é curta. Os Estados Unidos lançaram o America’s AI Action Plan, que trata licenciamento, energia, e data centers como questão de Estado. Os países do Golfo compram a entrada na corrida com seus fundos soberanos. Até a Europa — que apostara todas as fichas em regular antes de construir — começou a recuar: a Comissão Europeia propôs afrouxar exigências do seu próprio AI Act.
Roberto Campos costumava parafrasear o chanceler Otto von Bismarck, que classificava os povos em três categorias: os inteligentes, que aprendem com a experiência alheia; os medíocres, que aprendem com a própria experiência; e os idiotas, que nunca aprendem. Quando o mundo decidir onde construir a sua inteligência artificial, o Brasil estará no mapa — ou apenas na legenda? Essa é uma pergunta sobre a qual o próximo presidente deveria refletir.
No jogo global da IA, poucos países se sentaram à mesa com cartas tão boas quanto o Brasil. Reunimos três das quatro condições ideias para liderar: i) uma das matrizes elétricas mais limpas do planeta — quase 90% renovável —, o ambiente propício para sustentar a sede energética de um data center; ii) um mercado de mais de 200 milhões de consumidores conectados e ávidos por tecnologia — o povo que adotou o Pix mais depressa do que quase qualquer país adotou qualquer inovação financeira; e iii) capital humano de sobra – do ITA ao IME, da USP à Unicamp, gente que o Vale do Silício disputa a peso de ouro.
Falta apenas a quarta condição: iv) ambiente regulatório. E é aqui que tropeçamos, sempre no mesmo degrau. Um episódio recente é emblemático dessa carência.
Em setembro de 2025, o governo criou o Redata, regime especial que desonerava a importação de equipamentos para data centers. Reservou pouco mais de R$ 5 bilhões no Orçamento de 2026 e prometeu atrair R$ 2 trilhões em uma década. A concepção parecia acertada: incentivo horizontal, sem subsídio direto, sem campeão nacional escolhido a dedo.
O desfecho, porém, era previsível. O regime foi instituído por medida provisória, que caducou em fevereiro de 2026 porque o Senado não a votou a tempo — morreu não de veto, mas de desídia. Contudo, o detalhe mais revelador é que, mesmo enquanto esteve vivo, o Redata não atraiu nenhum investimento. O setor permaneceu, nas palavras de suas próprias entidades, “em compasso de espera”.
Mais uma vez fracassamos – desta vez até na tarefa de dar dinheiro de presente. Chamamos de medida provisória o instrumento com que pretendíamos seduzir capital permanente. Tentamos atrair investimentos de horizonte de vinte anos com uma promessa que expira em sessenta dias — e depois ainda nos espantamos de o noivo não aparecer no altar. Um benefício que pode evaporar a qualquer sessão do Congresso não é incentivo, é um risco. Investidores não precificam generosidade; precificam estabilidade.
Diante desse quadro, o próximo governo enfrentará duas tentações, ambas equivocadas — convém nomeá-las com clareza.
A primeira é a tentação dirigista: eleger um campeão nacional, e financiar com dinheiro do BNDES uma “OpenAI brasileira” estatal. O defeito aqui não é de ideologia, é de epistemologia. Ninguém em Brasília — por mais brilhante que acredite ser — detém as informações necessárias para saber qual empresa ou tecnologia prevalecerá em 2032. A história industrial brasileira é um cemitério bem cuidado de apostas governamentais, e não há razão para abrir mais uma cova.
A segunda é a tentação da precaução: importar o calhamaço europeu, regular antes de construir, e erguer barreiras preventivas contra riscos teóricos. É exatamente o caminho do qual a Europa hoje recua, depois de afugentar investimento sem colher qualquer benefício proporcional. Regular uma tecnologia nascente é legislar sobre o que não se entende — e, nesse entretempo, presentear com os frutos da inovação jurisdições que tiveram a paciência de esperar.
O que une as duas tentações é a suposição de que o Estado deve ser produtor ou guardião. Contudo, existe alternativa mais modesta e eficaz: a função do Estado não é gastar nem proibir, mas reduzir o custo da incerteza — garantir regras estáveis e sair da frente do empreendedor, deixando que a concorrência faça o trabalho que nenhum planejador é capaz de fazer.
Assim, contrariando a tradição nacional do diagnóstico sem desfecho, ofereço uma proposta sobre infraestrutura de IA para o próximo presidente do Brasil: as Zonas Especiais de Dados (ZED). A ideia importa a lógica das Special Compute Zones americanas, adaptando-a às condições de contorno brasileiras. A ZED é, no fundo, um contrato de Ulisses — o Estado amarra as próprias mãos ao mastro para não ceder, depois, ao canto da canetada.
Quatro pilares a sustentam: i) estabilidade jurídica de longo prazo: a desoneração de importação de equipamentos deve nascer de lei ordinária, com vigência de vinte anos e blindada contra o humor de cada novo ministro; ii) licenciamento ambiental por rito especial: com prazos máximos fixados em lei, e presunção de elegibilidade para áreas específicas — afinal, o meio ambiente não se protege com lentidão, e sim com critérios; iii) acesso garantido à rede: as ZEDs devem nascer onde sobra energia — o potencial eólico e solar do norte de Minas Gerais e do Nordeste seriam candidatos naturais; e iv) neutralidade competitiva: qualquer empresa que cumpra os critérios — nacional ou estrangeira, gigante ou startup — poderia se beneficiar das ZEDs, sem escolhas discricionárias do Estado.
Argumentos contrários são previsíveis: i) data centers consomem muita água e energia: essa é justamente razão adicional para construí-los no país de matriz mais limpa do mundo, e não na Virgínia movida a carvão; ii) as ZEDs seriam renúncia fiscal para multinacionais ricas: hoje, estamos exportando nossa base tributária de graça porque 60% dos nossos dados são processados fora do país — as ZEDs importam de volta receita futura, emprego qualificado, e conhecimento; e iii) a soberania nacional dos dados será ameaçada: soberania se constrói com servidores em solo brasileiro, sob lei e jurisdição brasileiras — não com uma estatal de IA bancada pelo contribuinte.
O Brasil pode ser o melhor lugar do hemisfério ocidental para se construir infraestrutura de inteligência artificial. Para tanto, o próximo presidente não precisa de proezas: não precisa construir a OpenAI brasileira, nem inventar uma agência reguladora copiada de Bruxelas, nem comprometer o Tesouro com mais um programa de subsídio. Precisa de algo mais simples — e, num país que com tanta frequência preferiu o espetáculo ao resultado, mais difícil justamente por ser simples: previsibilidade, velocidade e disciplina institucional. Virtudes modestas; mas é com virtudes modestas que as nações sérias constroem o seu futuro.