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Trump remove Maduro: a volta da geopolítica do poder

A captura de Maduro por forças dos EUA escancara a falência do multilateralismo e o retorno do equilíbrio de poder

Instituto Millenium
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Publicado em 6 de janeiro de 2026 às 19h08.

Por Yuri Quadros, diretor do Instituto Aliança e conselheiro da Rede Liberdade.

 

Em setembro de 2025, Trump subiu ao púlpito da Assembleia Geral da ONU e deixou cristalino o que pensa do arranjo multilateral: um grande teatro caro, onde chefes de Estado fingem governar o mundo enquanto pouco ou nada é realmente resolvido. Três meses depois, seu governo lançou o National Security Strategy, um documento direto que deixou claro as prioridades: menos globalismo e instituições multilaterais, mais defesa do interesse nacional e olhar voltado para o hemisfério ocidental e combate aos regimes antiocidentais.

E então chegou 2026. Como fogos de artifício de Ano Novo, uma operação militar americana atingiu alvos em Caracas e capturou Nicolás Maduro, presidente ilegítimo da Venezuela. Entre os símbolos destruídos estava o Cuartel de la Montaña, antigo museu militar que abriga o mausoléu de Hugo Chávez e homenageia sua tentativa de golpe em 4 de fevereiro de 1992 (4F). Um recado que vai além do tático: é político, simbólico, definitivo.

A ação consolida uma postura explicitamente realista: o sistema global é uma arena de competição entre Estados, onde o poder nacional, não as instituições, define quem prevalece. Trump não inventou essa visão, apenas parou de fingir o contrário. Seu governo trata a ONU como o que ela é: um fórum útil quando conveniente, irrelevante quando não serve aos interesses americanos e ocidentais.

Tudo isso marca algo cristalino para a geopolítica dos próximos anos: o "direito internacional" voltou a ser aquilo que sempre foi no fundo — uma promessa que depende de poder real e de alguma convergência moral, não uma força soberana acima dos Estados. O que acaba aqui não é a existência de normas entre nações; o que acaba é a fantasia de que essas normas vivem por conta própria, como se a ONU fosse um Leviatã capaz de impor ordem ao mundo.

Nas horas seguintes, veio o coro previsível: “foi ilegal”, “feriu a Carta da ONU”, “não poderia”, “abre precedente”. Pessoas de esquerda e de direita repetiram, com palavras diferentes, o mesmo reflexo: a crença de que existe uma espécie de lei internacional comparável à lei doméstica, algo capaz de enquadrar Estados como se fossem cidadãos diante de um juiz.

Só que essa indignação revela um esquecimento básico: entre Estados soberanos, não existe polícia universal. O sistema internacional é, por natureza, um espaço sem monopólio legítimo da força — uma anarquia. A estabilidade sempre dependeu de capacidade real de coerção quando necessário e de algum grau de convergência moral entre os principais atores.

Houve um período, sobretudo no pós-guerra, em que a ordem liberal parecia caminhar para algo maior: instituições multilaterais, regras comuns, mecanismos de arbitragem. Mas essa arquitetura só funcionava enquanto os EUA bancavam o sistema porque lhes convinha. Trump levou essa lógica adiante: se as instituições multilaterais não servem aos interesses estratégicos americanos, que sejam ignoradas. A Venezuela foi tratada não apenas como questão de justiça internacional, mas como ameaça no quintal americano que precisava ser neutralizada.

Quando uma superpotência decide que as regras não servem mais, o verniz racha e volta-se à realidade nua dos Estados em competição. No fim, a impunidade educa o agressor.

O caso venezuelano expõe isso em estado puro. A ditadura chavista se consolidou por décadas. Produziu êxodo em massa, miséria generalizada, repressão sistemática. Atravessou apelos internacionais e rituais diplomáticos intermináveis sem que o "sistema internacional" tivesse músculo para arrancar o regime do poder. Porque a ONU, no fim das contas, não é um soberano: é uma mesa de negociação. Útil quando há acordo ou medo real. Impotente quando não há.

Trump abraçou sem constrangimento o núcleo dessa visão: Estados perseguem poder e segurança numa arena anárquica, e instituições só têm peso quando grandes potências lhes emprestam força. A obsessão multilateralista com 'mandatos' e 'consenso' é vista como ilusão perigosa — enquanto o Ocidente se autocensura por formalidades, adversários agem sem pudor. O erro do período anterior foi acreditar que regras internacionais poderiam substituir o poder real. Não podem. E quanto mais cedo o Ocidente reassumir postura de potência, melhor para sua sobrevivência.

Daí vem a pergunta desconfortável: o que vale mais, a etiqueta da ONU ou o direito de um povo a não ser governado por um tirano? Se a lei internacional não protege o básico — vida, liberdade, dignidade —, ela não pode ser tratada como ídolo sagrado.

Isso não significa transformar os Estados Unidos em polícia planetária. Mas Trump reafirma a primazia do interesse nacional como bússola legítima da política externa. Enquanto o multilateralismo liberal pedia que Washington consultasse dezenas de capitais antes de agir, a nova postura pergunta: isso protege americanos? Fortalece aliados ocidentais? Enfraquece adversários? Se sim, age-se. Se não, ignora-se.

Essa postura choca quem cresceu no mundo pós-Guerra Fria, onde os EUA se apresentavam como guardião de ordem universal. O mundo voltou ao velho equilíbrio de poder. Quem quiser preservar a civilização ocidental precisa reaprender a falar a língua da soberania, do interesse nacional e da responsabilidade concreta. O Ocidente só sustenta uma ordem decente quando acredita nela o suficiente para defendê-la — com economia, diplomacia, alianças e, no limite, força. O globalismo prometeu administrar o mundo por meio de normas abstratas, de uma grande lei internacional. A realidade está nos lembrando que lei sem poder não passam de papel timbrado.

Trump deixa claro: nessa ordem, quem lidera é quem tem poder para liderar. E quem tem é o Ocidente, com os EUA no centro. Potências precisam agir como potências, não como ONGs com exército. A ONU e o multilateralismo falharam por negar essas realidades, criando igualdade artificial entre democracias e ditaduras. O resultado foi paralisia. A resposta: se as instituições não servem, passamos por cima delas.

O que aconteceu na Venezuela é o sinal definitivo de que entramos numa era em que a geopolítica do poder voltou à mesa. E ninguém mais vai poder se esconder atrás de siglas para não enfrentá-la.