Taiwan é uma peça importante no xadrez diplomático envolvendo EUA e China (I-Hwa Cheng /AFP)
Colunista
Publicado em 15 de junho de 2026 às 18h53.
Em 1909, um jornalista inglês chamado Norman Angell publicou um livro chamado A Grande Ilusão. Nele, é dito que a integração econômica entre as grandes potências da Europa havia se aprofundado tanto, com tantos investimentos cruzados, tanto comércio, tanto capital circulando entre Berlim, Londres e Paris, que uma guerra entre essas nações tinham se tornado economicamente irracional. Quem se arriscaria a destruir uma máquina que enriquecia todo mundo? O livro foi traduzido para vinte e cinco idiomas. Cinco anos depois, a Europa transformava-se na maior carnificina que o mundo já tinha visto até então.
Trago essa cena porque me parece que estamos repetindo a mesma promessa com outras palavras. Hoje ela é chamada de escudo de silício. A ideia é que Taiwan, ao concentrar mais de 90% da produção dos chips mais avançados do mundo, tornou-se uma peça tão central da economia global que nenhuma potência racional ousaria pôr essa engrenagem em risco. A Bloomberg Economics calcula que um bloqueio à ilha custaria cerca de 5 trilhões de dólares só no primeiro ano. O número é tão grande que serve, sozinho, como argumento. Se invadir Taiwan significa quebrar o mundo, ninguém vai invadir Taiwan.
O problema está na premissa
Essa lógica parece perigosamente confortável, e é assim por uma razão simples. Ela parte do pressuposto de que Pequim lê seus próprios interesses pela mesma régua que um analista de Wall Street ou um diretor de uma empresa multinacional usaria.
A história das últimas décadas insiste em nos mostrar o contrário. A Rússia entrou na Ucrânia sabendo que isso significaria a maior bateria de sanções já aplicada a uma grande economia. Foi em frente. A China impôs sobre o próprio território uma política de Covid zero que mutilou seu crescimento por dois anos, descontentou multinacionais e atrofiou cadeias inteiras. Foi em frente. A questão de Taiwan, para o regime chinês, não tem natureza comercial. Faz parte daquilo que Xi Jinping chama de rejuvenescimento nacional, e que a literatura oficial trata como tarefa inacabada da revolução comunista. Quando algo é classificado em termos de identidade nacional e missão histórica, o cálculo dos cinco trilhões deixa de ser determinante e passa a ser apenas um custo, alto, talvez tolerável.
Quando a percepção é o produto
Há, além disso, um detalhe técnico que costuma ficar de fora do debate. O escudo de silício é, antes de tudo, uma percepção que temos. Ele só protege Taiwan na medida em que os Estados Unidos, o Japão e a Europa acreditem que a defesa da ilha equivale à defesa de seus próprios interesses imediatos. E é justamente essa percepção que está sendo erodida aos poucos, em parte por iniciativa americana. A TSMC já anunciou 175 bilhões de dólares em investimentos no Arizona, construções paralelas no Japão e na Alemanha, e pretende fabricar 30% de seus chips mais avançados fora da ilha quando todas as novas plantas estiverem operando. Cada nova fábrica fora de Taipei é uma colher de chá de areia tirada do escudo.
Pode-se argumentar, com razão, que replicar o ecossistema taiwanês é praticamente impossível. A ilha tem quatro décadas de aprendizado acumulado, 2500 fornecedores locais, um parque industrial em Hsinchu que concentra mais de 300 bilhões de dólares em receita e mão de obra treinada em larga escala. Phoenix não vai ser Hsinchu tão cedo. Ainda assim, a percepção de irreplicabilidade importa menos do que a percepção de que algum estoque estratégico foi protegido. O analista americano que precisar decidir, em meio a uma crise, se intervém ou não, vai contar fábricas no Arizona antes de medir a qualidade do ecossistema taiwanês.
Uma lição de risco de cauda
E aqui chego ao ponto que mais me interessa, na condição de quem passa o dia pensando em alocação de capital. Taiwan é um caso extremo, e o problema que ela escancara é geral. As cadeias globais foram desenhadas para um mundo que já não existe, um mundo em que a vantagem comparativa e a logística just-in-time podiam reinar em paz porque os grandes Estados não estavam interessados em rompê-las. Esse mundo terminou em algum momento entre a anexação da Crimeia em 2014 e a pandemia. Continuamos, porém, precificando ativos como se ele estivesse vivo.
Concentração produz eficiência. Concentração também produz risco de cauda. Não há exceção para nações. A empresa que terceirizou tudo para um único fornecedor estrangeiro descobre, em algum ponto, que economizou 2% de custo e perdeu controle sobre o próprio destino. A nação que organizou sua segurança em torno de uma única cadeia produtiva descobre coisa parecida. Os investidores atentos sabem disso, ainda que poucos digam isso em voz alta. As cláusulas de risco geopolítico nos prospectos voltaram. As empresas começam a fazer dual sourcing, a reativar capacidade ociosa no Hemisfério Ocidental, a discutir cláusulas de força maior que ninguém usava desde os anos 70.
O que os taiwaneses já entenderam
Quanto a Taiwan, a verdade que Angell aprendeu da pior forma possível continua valendo. A interdependência econômica é um freio importante, talvez o mais importante de todos em tempos normais. Mas ela não substitui exércitos, alianças, deterência crível e clareza estratégica. Quando algum desses elementos enfraquece, a interdependência sozinha não segura nada. Os taiwaneses parecem saber disso melhor que muitos analistas estrangeiros. As jovens que pagam por treinamento básico de combate nos fins de semana em Taipei não estão lá porque acreditam no escudo de silício. Estão lá porque desconfiam dele.
Se a ilha vai continuar inteira nos próximos dez anos, isso vai depender de coisas mais antigas e duras do que chips. Vai depender de quanto Taiwan estiver disposta a gastar com sua defesa, de quão crível parecerá a resposta americana, do tipo de coalizão que Tóquio, Camberra e Londres conseguirão construir antes que a crise chegue. O silício ajuda, sem dúvidas. O silício, sozinho, não basta.