Setor energético: impactos das tarifas dos EUA no Brasil e oportunidades de crescimento. (Andrew-Caballero Reynolds/AFP)
Colunista - Instituto Millenium
Publicado em 17 de março de 2025 às 06h00.
A segunda administração Trump e a terceira administração da Silva encontram seu primeiro desafio: lidar com o aumento de tarifas sobre o aço exportado pelo Brasil. O novo presidente norte-americano parece usar a imposição de tarifas de importação muito mais como uma estratégia de negociação e de agrado à sua base eleitoral do que como um instrumento de política industrial.
A tarifa de importação gera dois tipos de perdas de bem-estar ao país que a impõe: (a) a primeira, gerada pelo aumento do preço do produto que, agora, não tem mais a concorrência externa, prejudica o consumidor e; (b) a segunda, gerada pelo aumento da produção doméstica ineficiente, desperdiçando recursos produtivos que poderiam ser realocados para usos melhores. Empregos gerados, neste contexto, podem ter vida curta.
Não é difícil ver que uma tarifa de importação gera ganhadores (que são os produtores domésticos que se beneficiam da diminuição da concorrência) e perdedores (que são os consumidores dos produtos, agora pagando mais caro por eles). São estes efeitos em sentidos opostos que ajudam a entender a diversidade de opiniões com relação à imposição de uma tarifa. Como há muito mais consumidores do que, digamos, produtores de aço, é fácil ver que a tarifa sobre produtos importados penaliza os próprios cidadãos do país.
Como o prof. Bryan Caplan já explicou didaticamente em um pequeno vídeo, o comércio internacional não é um jogo em que uns tiram vantagem de outros. Contudo, nem tudo na vida é explicado apenas pela Economia. A concorrência política, frequentemente, estimula o viés anti-estrangeiros que habita o imaginário das pessoas, notadamente, na América Latina. Enquanto a Ciência Econômica nos diz que tarifas mais atrapalham do que ajudam, alguns políticos vendem aos eleitores uma visão positiva do suposto poder das tarifas, ganhando votos e recursos de setores que se beneficiam da proteção.
Irônico é notar que as queixas brasileiras ao aumento de tarifas da nova administração Trump parecem ignorar o fato de que nosso governo aplica uma tarifa média bem maior sobre os produtos importados do que nosso vizinho do norte. A figura abaixo (que também pode ser obtida aqui) traz o cálculo de uma tarifa de importação média para cada país do mundo pelo Banco Mundial aplicado aos EUA e ao Brasil.
Pode-se ver que nosso país é um país muito mais fechado do que os EUA: durante todo o período em análise, a tarifa média que o governo brasileiro impõe sobre os produtos importados está acima da norte-americana. Passando o mouse pelo mapa (usando o link fornecido no parágrafo anterior), o leitor verá, por exemplo, que em 2022, a tarifa média era 2.7% nos EUA e 12.4% no Brasil. Em outras palavras, mesmo que o Brasil diminuísse para a metade sua tarifa média, o país ainda seria 2.3 vezes mais protecionista do que os EUA. Mesmo o pequeno pico observado em 2019, devido ao próprio presidente Trump, não foi capaz de alcançar a elevada tarifa média brasileira.
Alguém poderia argumentar que nossa elevada tarifa média tem como objetivo forçar algum parceiro comercial a negociar conosco, como Trump está fazendo agora. O problema é que este argumento não se sustenta. Que estratégia seria esta, que já dura mais de trinta anos? Não, esta não é a explicação para nosso elevado nível médio de tarifas. Qual seria a explicação para os governos brasileiros serem mais “trumpistas” que o próprio Trump? Não pode ser a busca de produtividade, pois a produtividade total dos fatores, no Brasil, hoje, é a mesma dos anos 50, como mostrei neste espaço, anteriormente.
O leitor tem toda a razão em se queixar das tarifas de Trump sobre nosso aço, mas tem, eu diria, mais razão ainda em se queixar de que vive em uma economia cara. Parte da explicação se deve às altas tarifas que o Brasil impõe às exportações dos outros países. Uma pergunta necessária, portanto, é: quais os motivos que levam o governo brasileiro a submeter seus cidadãos a esta situação por tanto tempo? Como dizem por aí: fica aí a reflexão.