(Nuthawut Somsuk/iStock/Getty Images)
Instituto Millenium
Publicado em 4 de março de 2026 às 13h58.
Por André Naves*
Há uma tentativa recorrente, por parte de certas elites políticas e intelectuais, de desqualificar o sentimento popular sobre a corrupção. Dizem que o povo "exagera", que a percepção é "distorcida pela mídia" ou que não reflete a realidade técnica dos fatos.
Como Defensor Público Federal, que atua nas trincheiras onde a ausência do Estado é mais sentida, e como estudioso das dinâmicas econômicas e sociais, afirmo categoricamente: o povo não está alucinando. A percepção popular é a mais refinada forma de sabedoria prática.
Quando a sociedade brasileira aponta, em índices internacionais e nas conversas de esquina, que a corrupção é sistêmica, ela não está apenas opinando. Está descrevendo sua realidade e sobrevivência.
Os dados, sem a devida análise, são frios e podem levar a enganos. No mais recente Índice de Percepção da Corrupção (IPC), divulgado pela Transparência Internacional, o Brasil amarga uma de suas piores posições históricas, oscilando na casa dos 36 pontos (em uma escala onde 100 é a integridade total).
Caímos posições, nos distanciamos das médias da OCDE e nos aproximamos de nações com graves rupturas institucionais. Mas o que esse número realmente diz? Ele não mede propinas descobertas; ele mede a confiança. Na economia, confiança é moeda. Quando o cidadão percebe que o "jogo é de cartas marcadas", que o mérito vale menos que o "contato", e que a lei é uma serpente que só morde os descalços, ele está fazendo uma leitura racional de seu ambiente social.
A percepção de alta corrupção é o reflexo de um Custo Brasil moral: o imposto invisível que pagamos em cada transação, em cada desconfiança, em cada muro que construímos. O ponto nevrálgico, contudo, não é apenas o desvio do dinheiro público — que retira o remédio do posto e a merenda da escola —, mas o desvio do caráter nacional.
Existe uma simbiose nefasta entre a corrupção pública e a privada. A liderança política e institucional tem uma função pedagógica. O líder é o diapasão moral da nação.
Quando o "andar de cima" naturaliza privilégios, normaliza o "toma lá, dá cá" e trata a coisa pública como extensão do patrimônio privado, ele envia um sinal poderoso para a base da pirâmide: "aqui, a honestidade é a virtude dos tolos".
A corrupção privada — o suborno ao guarda, a nota fiscal fria, o "gato" na TV a cabo — não nasce no vazio. Ela é, muitas vezes, uma resposta defensiva de uma sociedade que se sente roubada por quem deveria protegê-la. É a lógica perversa de que "se eles roubam milhões, por que não posso levar alguns míseros tostões?".
Essa é a tragédia ética: a corrupção das lideranças não apenas drena recursos, também corrompe a alma do povo. Ela valida o cinismo. Ela transforma a honestidade em exceção, quando deveria ser a regra basilar da convivência. Essa corrosão da confiança não é abstrata; ela cobra um preço alto na economia real.
Estudos do Fundo Monetário Internacional (FMI) demonstram a correlação direta: países com alta percepção de corrupção atraem significativamente menos investimento produtivo. Aliás, como alerta o cientista político Francis Fukuyama em sua obra "Trust" (Confiança), sociedades de "baixa confiança" pagam uma "taxa" oculta em tudo o que produzem.
No Brasil, isso se materializa no Custo Brasil — estimado pela CNI em cerca de R$ 1,7 trilhão por ano — grande parte do qual deriva de uma burocracia defensiva.
O empreendedor, motor da prosperidade, gasta mais energia provando sua honestidade do que produzindo riqueza. Esse ambiente de negócios hostil trava o crescimento econômico e, num ciclo perverso, reduz a arrecadação e os recursos necessários para concretizar as próprias políticas públicas essenciais ao progresso nacional.
A desconfiança gera estagnação.
Entretanto, se o diagnóstico é duro, a esperança reside na reação. NA NOSSA AÇÃO!
A percepção aguda de corrupção mostra que a sociedade brasileira não está anestesiada; ela está indignada. E essa indignação tem se transformado em ação através da sociedade civil organizada, provando que a "sabedoria prática" do povo também sabe construir soluções.
Iniciativas como os Observatórios Sociais do Brasil, presentes em centenas de cidades, onde cidadãos comuns fiscalizam licitações centavo por centavo, são a prova de que a vigilância cidadã funciona. Movimentos como o Unidos Contra a Corrupção e a atuação técnica de órgãos como a Transparência Brasil demonstram que há uma demanda reprimida por integridade.
Não podemos cair na falácia de que "o brasileiro é corrupto por natureza". O brasileiro é um sobrevivente de um sistema que muitas vezes premia o incorreto. Quando as regras são claras e a liderança é ética, o povo responde com virtude.
Concluo com um apelo à responsabilidade radical. Aos que ocupam cargos de poder — no Judiciário, no Legislativo, no Executivo e nas grandes corporações —: não basta ser honesto; é preciso parecer honesto e combater ativamente a percepção de impunidade.
A liderança pública tem o dever de ser a "cidade sobre o monte", o exemplo visível que ilumina, não a sombra que obscurece. Eliminar a percepção de corrupção não se faz com propaganda, mas com coerência.
A percepção do povo está correta. O sistema está doente. Mas a cura não virá de salvadores da pátria; virá da restauração da nossa capacidade de sentir vergonha do que é errado e orgulho do que é justo. A corrupção nos rouba o futuro, mas a integridade — vivida na prática, do alto escalão ao chão da fábrica — é a única força capaz de nos devolvê-lo.
A beleza, afinal, é enxergar a verdade. E a verdade é que o Brasil quer, pode e deve ser maior que seus vícios.
*André Naves é Defensor Público Federal. Especialista em Direitos Humanos e Sociais, Inclusão Social – FDUSP. Mestre em Economia Política - PUC/SP. Cientista Político - Hillsdale College. Doutor em Economia - Princeton University. Comendador Cultural. Escritor e Professor.