(Tomaz Silva/Agência Brasil)
Instituto Millenium
Publicado em 24 de junho de 2026 às 23h49.
*João Batista Araujo e Oliveira
Em praticamente todos os municípios brasileiros existem alunos de escolas públicas que, no 5º ano, estão entre os 10% melhores do país em matemática. No 9º ano, mais da metade desaparece dessa elite de desempenho. Ao final do ensino médio, quase não restam. O Brasil não sofre por falta de talentos. Sofre porque não consegue desenvolvê-los.
As empresas sentem essa escassez todos os dias. Encontrar engenheiros, cientistas de dados, programadores, pesquisadores e gestores de alto nível tornou-se cada vez mais difícil. Enquanto isso, milhares de crianças e jovens com enorme potencial intelectual passam despercebidos pelo sistema educacional. O profissional excepcional que falta hoje ao mercado pode ser justamente o aluno excepcional que perdemos dez ou quinze anos atrás.
Essa contradição tem um custo econômico enorme. Na economia do século XXI, riqueza depende cada vez menos de recursos naturais e cada vez mais da capacidade de gerar conhecimento, inovação e tecnologia. Os países que lideram os setores mais dinâmicos da economia mundial não são necessariamente os que possuem mais minério, petróleo ou terras férteis. São os que conseguem identificar, desenvolver e aproveitar melhor seus talentos.
Durante décadas, acreditou-se que o caminho para o desenvolvimento econômico consistia simplesmente em aumentar a escolaridade da população. A expansão do acesso à educação foi importante e necessária. Mas a economia ensinou que anos de estudo, por si só, não garantem crescimento econômico. O segundo passo foi entender que a qualidade da educação importa. O Brasil sabe disso, mas não consegue melhorar a educação.
Mas o mundo não espera, e o desafio aumentou. A nova economia exige algo adicional: uma massa crítica de indivíduos capazes de criar conhecimento novo. Pesquisas internacionais mostram que uma parcela desproporcional da inovação, do progresso tecnológico e da criação de riqueza provém de uma pequena fração de indivíduos com capacidades cognitivas excepcionais. São eles que desenvolvem novos medicamentos, criam empresas inovadoras, lideram equipes de pesquisa, registram patentes, transformam descobertas científicas em produtos e ampliam a produtividade de toda a economia. Uma única inovação relevante pode gerar benefícios para milhões de pessoas. Por isso, o desenvolvimento de talentos excepcionais não é uma pauta restrita à educação. É uma agenda de crescimento econômico.
O problema é que o talento está distribuído pela população de forma muito mais ampla do que as oportunidades. Uma criança brilhante pode nascer em qualquer bairro, município ou faixa de renda. O que varia enormemente é a probabilidade de esse potencial ser descoberto desde cedo e cultivado de maneira adequada. Estudos realizados em diversos países mostram que jovens altamente talentosos oriundos de famílias pobres têm muito menos chances de se tornar pesquisadores, inventores ou empreendedores inovadores do que jovens igualmente talentosos nascidos em famílias mais favorecidas. O resultado é um desperdício silencioso de um ativo mais valioso do que petróleo, minério ou terras raras: a inteligência humana. No Brasil é mais grave, pois a maioria desses indivíduos está na escola pública, mas permanece esquecida pelo sistema.
Não se trata apenas de uma injustiça individual. Trata-se de uma perda coletiva. Cada talento desperdiçado representa menos inovação, menos produtividade e menos crescimento econômico. Abordada no meu livro “Inteligência: ativo estratégico que o Brasil não pode desperdiçar”, essa é uma questão central para qualquer pessoa que acredite em meritocracia.
A meritocracia pressupõe que as pessoas tenham a oportunidade de demonstrar suas capacidades. Quando o sistema falha em identificar crianças com alto potencial simplesmente porque nasceram no ambiente errado, não estamos diante de mérito. Estamos diante de uma barreira de origem. Não existe mérito quando milhões de crianças com elevado potencial sequer chegam à linha de largada.
Hoje, grande parte das redes escolares brasileiras depende exclusivamente da indicação subjetiva dos professores para reconhecer alunos de altas habilidades. Embora os educadores desempenhem papel fundamental, esse modelo atualmente deixa invisíveis cerca de 800 mil alunos com alto potencial que se perdem na rede pública.
Experiências internacionais mostram que avaliações universais e objetivas conseguem encontrar estudantes que, de outra forma, jamais seriam identificados. Em um distrito escolar da Flórida, a substituição da indicação subjetiva por uma avaliação universal elevou em 174% a identificação de alunos talentosos de baixa renda. O resultado é revelador. Medir melhor não exclui. Inclui. Ao substituir o "olhômetro" por critérios transparentes, torna-se possível descobrir jovens com enorme potencial intelectual que hoje permanecem invisíveis. Identificar é apenas o primeiro passo. Alunos com elevado potencial precisam de desafios compatíveis com sua capacidade. Caso contrário, o tédio, a desmotivação e o desperdício de potencial tornam-se inevitáveis. Os sistemas educacionais mais bem-sucedidos do mundo oferecem percursos diferentes para estudantes com necessidades diferentes. Programas de aceleração, currículos mais exigentes e oportunidades para estudar ao lado de colegas com capacidades semelhantes são instrumentos amplamente utilizados em países que levam o desenvolvimento de talentos a sério.
Nenhuma empresa séria manteria seus profissionais mais talentosos durante anos em funções incompatíveis com seu potencial. No entanto, é exatamente isso que fazemos com milhares de estudantes brasileiros de alta capacidade intelectual. O Brasil costuma discutir educação sob a ótica da inclusão. E essa preocupação é legítima. Mas a verdadeira inclusão não consiste em ignorar diferenças. Consiste em permitir que cada indivíduo desenvolva plenamente suas capacidades.
Quando um jovem brilhante da periferia se torna engenheiro, cientista, empreendedor ou inventor, não estamos apenas transformando uma vida. Estamos ampliando a capacidade produtiva do país. Ganha o indivíduo, que amplia suas perspectivas de vida. Ganha a economia, que incorpora mais inovação e produtividade. E ganha a sociedade.
O Brasil possui dezenas de milhares de alunos excepcionalmente bem dotados em cada geração. A maioria jamais será identificada. Está na hora de começar a discutir o assunto como uma prioridade da economia, e não apenas como uma questão pedagógica. Ou vamos perder mais esse bonde da história.
*João Batista Araújo e Oliveira é psicólogo, educador e autor de “Inteligência: ativo estratégico que o Brasil não pode desperdiçar”.