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O verdadeiro legado da Independência americana

Os princípios que deram origem aos Estados Unidos continuam oferecendo importantes lições sobre liberdade, responsabilidade e desenvolvimento

Tensões com Irã levam EUA a recomendar evacuação de cidadãos no Iraque (Sven Hoppe/Getty Images)

Tensões com Irã levam EUA a recomendar evacuação de cidadãos no Iraque (Sven Hoppe/Getty Images)

Wesley Reis
Wesley Reis

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Publicado em 20 de julho de 2026 às 17h41.

Última atualização em 20 de julho de 2026 às 17h42.

O ano de 1776 foi, sem dúvida, um dos mais extraordinários da história da civilização ocidental. Em poucos meses, ocorreram dois acontecimentos que lançariam as bases intelectuais, econômicas e políticas do mundo moderno e abririam caminho para um período de prosperidade sem precedentes na história da humanidade.

Em março, foi publicado A Riqueza das Nações, obra do filósofo iluminista escocês Adam Smith (1723–1790), considerada o marco fundador da economia moderna. Ao demonstrar como a divisão do trabalho, a livre iniciativa, a concorrência e a liberdade econômica poderiam elevar a produtividade e gerar prosperidade, Smith ofereceu o arcabouço teórico que romperia com séculos de mercantilismo e influenciaria profundamente o desenvolvimento econômico das nações.

Poucos meses depois, naquele mesmo ano, era proclamada a independência dos Estados Unidos da América. A adoção da Declaração de Independência, em 4 de julho de 1776, posteriormente assinada pelos delegados do Congresso Continental, marcou não apenas a ruptura das Treze Colônias com a Coroa Britânica, mas também o surgimento da primeira nação moderna fundada explicitamente sobre princípios como os direitos naturais, a soberania popular, o governo limitado e a liberdade individual.

Poucos documentos exerceram influência comparável ao longo da história. Assim como a Magna Carta, de 1215, representou um dos maiores marcos do constitucionalismo ao estabelecer, pela primeira vez, que nem mesmo o rei estava acima da lei, a Declaração de Independência inaugurou uma nova concepção de legitimidade política. Inspirada nas ideias de John Locke (1632–1704), proclamou que todos os homens nascem dotados de direitos inalienáveis, entre eles a vida, a liberdade e a busca da felicidade, e que os governos existem para proteger esses direitos, derivando sua autoridade do consentimento dos governados.

Ao celebrarmos os 250 anos da Independência americana, não se trata apenas de exaltar uma outra nação ou alimentar qualquer espécie de "síndrome de vira-lata". Trata-se de reconhecer um dos acontecimentos mais transformadores da história política, fruto da atuação de uma geração extraordinária de homens, como George Washington, Thomas Jefferson, James Madison, Benjamin Franklin e Alexander Hamilton, profundamente influenciados pelo Iluminismo e pela tradição liberal inglesa. Seu legado ultrapassou, em muito, as fronteiras dos Estados Unidos e passou a integrar o patrimônio político de toda a civilização ocidental.

A crise que culminou na Revolução Americana teve origem no crescente conflito entre as Treze Colônias e o Parlamento britânico, especialmente após a Guerra dos Sete Anos (1756–1763). A tentativa da Coroa de ampliar a arrecadação por meio de novos tributos, sem que os colonos tivessem representação no Parlamento, deu origem ao célebre lema "No taxation without representation". O que começou como uma reivindicação por direitos constitucionais evoluiu para um movimento revolucionário que acabaria produzindo um dos mais importantes documentos políticos da história.

Apesar de concisa, a Declaração de Independência tornou-se uma monumental defesa da liberdade, da igualdade perante a lei, do governo limitado e do direito dos povos de substituir governos que se tornem tirânicos. Mais do que justificar a separação da Grã-Bretanha, ela estabeleceu princípios universais que continuariam a inspirar gerações muito além de seu tempo.

A Revolução Americana exerceu profunda influência sobre diversos movimentos políticos posteriores. Inspirou a Revolução Francesa, as independências das colônias espanholas na América e também deixou marcas no processo brasileiro. A Inconfidência Mineira (1789), embora derrotada antes mesmo de se concretizar, absorveu muitas das ideias iluministas e republicanas que circulavam após a independência dos Estados Unidos.

Entretanto, a simples inspiração não garante resultados semelhantes. A prosperidade americana não decorreu apenas da ruptura com a Inglaterra, mas da construção de instituições sólidas, da limitação do poder político, da proteção ao direito de propriedade, da segurança jurídica e de uma Constituição que, poucos anos depois, consolidaria um sistema de freios e contrapesos capaz de conter os abusos do Estado. A história demonstra que não basta proclamar a liberdade; é necessário criar instituições que a preservem ao longo do tempo.

Nesse contexto, tornou-se célebre a resposta de Benjamin Franklin que, ao deixar a Convenção Constitucional da Filadélfia, em 1787, após o encerramento dos trabalhos que resultaram na Constituição, foi abordado por uma senhora que lhe perguntou se os delegados haviam criado uma república ou uma monarquia. Franklin respondeu de bate-pronto: "Uma república, se vocês conseguirem mantê-la".

É nesse ponto que, para além da formação e da estrutura de uma sociedade moldada pela tradição anglo-saxã, as diferenças entre a experiência norte-americana e a brasileira tornam-se mais evidentes. Tampouco cabe, diante de nossas inúmeras mazelas, lamentar a ausência de gênios fundadores como aqueles que conduziram a independência dos Estados Unidos, como se a prosperidade de uma nação dependesse exclusivamente do surgimento de figuras extraordinárias. A história demonstra justamente o contrário: sociedades prósperas não são construídas apenas por grandes homens, mas pela capacidade de preservar e aperfeiçoar as instituições que eles ajudam a criar.

As bases que sustentam uma nação livre e desenvolvida, isto é, o respeito ao Estado de Direito, a segurança jurídica, a proteção à propriedade privada, a responsabilidade fiscal, a limitação do poder estatal, a estabilidade institucional e a valorização da iniciativa individual, estiveram, em maior ou menor medida, presentes em diferentes momentos de nossa história. O problema é que, reiteradamente, optamos por relativizá-las, abandoná-las ou substituí-las por soluções imediatistas e projetos de poder.
Ora, não focamos no fortalecimento das instituições, mas na personalização da política. Não cultivamos uma cultura de responsabilidade individual, mas frequentemente transferimos ao Estado a solução para todos os problemas sociais e econômicos. Não buscamos limitar o poder, mas ampliá-lo a cada nova crise. Em vez de consolidar regras permanentes, preferimos alterar as regras para acomodar interesses circunstanciais. O resultado é um ambiente de instabilidade que compromete investimentos, reduz a confiança e dificulta o planejamento de longo prazo.

Enquanto os norte-americanos compreenderam, desde cedo, que a liberdade dependeria de instituições capazes de sobreviver aos próprios governantes, nós ainda insistimos em depositar nossas esperanças em líderes redentores, como se a mudança de nomes fosse suficiente para corrigir problemas estruturais. Alternamos ciclos de entusiasmo e frustração sem enfrentar as causas profundas de nossa baixa produtividade, da insegurança jurídica, da hipertrofia estatal e da fragilidade de nosso ambiente de negócios.

Os Founding Fathers legaram aos Estados Unidos muito mais do que a independência política. Legaram uma arquitetura institucional desenhada precisamente para conter os excessos do poder e proteger a liberdade dos cidadãos. A famosa advertência de Benjamin Franklin, ao deixar a Convenção Constitucional de 1787, permanece extraordinariamente atual. Ela nos lembra que a preservação da liberdade não é obra do acaso, nem resultado da boa vontade dos governantes, mas consequência da vigilância permanente da sociedade e do compromisso coletivo com instituições sólidas.

Talvez essa seja a principal lição que os 250 anos da Independência americana oferecem ao Brasil. Precisamos abandonar a ilusão dos atalhos e compreender que prosperidade, liberdade e desenvolvimento são frutos de instituições estáveis, de escolhas responsáveis e de cidadãos que exigem de seus representantes caráter, competência e respeito às regras do jogo. Nenhuma nação se torna grande apenas por desejar sê-lo; ela se torna grande quando decide, geração após geração, preservar os princípios que tornam a liberdade possível.