Colheita da soja em Mato Grosso: estado é um dos principais produtores de soja do Brasil (Alexis Prappas/Exame)
Instituto Millenium
Publicado em 23 de junho de 2026 às 13h50.
Última atualização em 23 de junho de 2026 às 13h51.
*Mariana Ança, coordenadora do Instituto Atlantos.
A nova rodada de ameaças tarifárias dos Estados Unidos contra produtos brasileiros recoloca o agronegócio no centro de uma discussão que vai além do comércio exterior. A pergunta imediata é quais produtos serão atingidos. A pergunta mais importante, porém, é outra: o que acontece quando uma decisão política substitui a previsibilidade do mercado e passa a interferir em preços, contratos e planejamento produtivo?
Tarifas são frequentemente apresentadas como instrumentos de defesa nacional, mas, na prática, são uma forma clássica de intervenção estatal. Ao encarecer artificialmente um produto estrangeiro, o governo escolhe quem será protegido e transfere custos para consumidores, empresas, exportadores e cadeias produtivas que dependem de previsibilidade. O protecionismo pode vestir uma linguagem patriótica, mas sua lógica é a mesma do dirigismo: usar o poder do Estado para alterar preços, condicionar fluxos comerciais e favorecer grupos específicos.
Controles de preço, subsídios permanentes, barreiras comerciais e retaliações automáticas têm um ponto em comum: deslocam decisões econômicas para o campo político e reduzem a capacidade dos agentes de planejar com base em preços e contratos. O problema não é apenas quem está governando, mas é a ideia de que governos podem redesenhar fluxos comerciais complexos sem gerar custos dispersos, distorções e insegurança.
Uma leitura consolidada das informações mais recentes sobre a disputa comercial indica que o caso brasileiro combina três movimentos: a proposta de uma tarifa punitiva de 25% sobre parte das importações brasileiras, a existência de exceções relevantes para produtos estratégicos ao próprio mercado norte-americano e a possibilidade de acúmulo com outras medidas ou investigações tarifárias. Em outras palavras, o risco não deve ser lido como uma barreira uniforme contra todo o agro brasileiro, mas como um choque seletivo, instável e politicamente administrado.
A tarifa de 25% proposta no âmbito da Seção 301 é grave, mas parte expressiva dos produtos de interesse agropecuário aparecem protegidos por exceções, como café, carne bovina, frutas, nozes, especiarias, fertilizantes, petróleo, minérios e itens ligados ao setor aeronáutico. A análise setorial mais recente estima que cerca de 43,7% das exportações brasileiras totais aos Estados Unidos, equivalentes a aproximadamente US$ 16,46 bilhões, ficariam potencialmente expostas à tarifa proposta. No agronegócio especificamente, 36,8% das exportações (cerca de US$ 4,19 bilhões) estariam dentro da proposta. Ao mesmo tempo, cerca de US$ 21,22 bilhões dos US$ 37,68 bilhões exportados pelo Brasil ao mercado norte-americano em 2025 aparecem em itens isentos, e as exceções podem preservar algo entre 30% e 40% da pauta agro brasileira destinada aos Estados Unidos.
O dado mais relevante, portanto, não é apenas a alíquota. É a incerteza. Uma tarifa de 25% pode ser discutida em julho, uma investigação paralela pode gerar uma sobretaxa de 12,5% e o conjunto potencial de medidas chega a 37,5%. O problema deixa de ser somente o custo tributário de uma operação específica e se transforma no custo de decidir em um ambiente em que contratos, preços, fretes, câmbio, prazos e margens dependem de uma lista que pode mudar por decisão política.
Esse quadro exige cuidado na interpretação, pois não se trata de afirmar que todo o agronegócio brasileiro está sob risco direto. O Brasil é competitivo, diversificado e menos dependente de um único destino do que muitos discursos alarmistas sugerem. O próprio setor registrou US$ 11,41 bilhões em exportações agropecuárias aos Estados Unidos em 2025 e avançou na abertura de 30 novos mercados, o que mostra capacidade de adaptação. No entanto, também seria equivocado concluir que as exceções eliminam o problema. Cadeias menos protegidas, como etanol, alguns itens florestais, sucos e segmentos industriais conectados ao agro, podem sofrer mais diretamente. Mesmo produtos isentos hoje continuam sujeitos ao efeito indireto de incerteza, renegociação e aumento do prêmio de risco.
A lição econômica é que mesmo quando há exceções, a instabilidade permanece. Uma empresa exportadora não planeja apenas com base na alíquota publicada hoje; ela precisa antecipar contratos, logística, câmbio, preço futuro, custo financeiro e risco regulatório. Quando a regra muda por decisão política, toda a cadeia recalcula margens. Quando a regra muda novamente, o recálculo vira rotina. Essa é a consequência invisível do protecionismo: ele não apenas encarece produtos; ele encarece decisões.
A vulnerabilidade, porém, não é uniforme no território brasileiro. O Rio Grande do Sul enfrenta exposição desproporcionalmente maior: enquanto 36,8% do agronegócio brasileiro está potencialmente afetado pelas tarifas, no estado gaúcho esse percentual sobe para 74,9%. O impacto tarifário direto sobre o agronegócio gaúcho seria de US$ 144 milhões, considerando apenas a sobretaxa de 25%. Essa disparidade ocorre porque a pauta gaúcha concentra-se em setores não incluídos nas listas de exclusão da proposta americana: fumo (US$ 181 milhões, representando 21% do agronegócio gaúcho potencialmente tarifado), madeira e produtos florestais (US$ 128 milhões) e calçados (US$ 62 milhões). Para o produtor gaúcho, portanto, a incerteza tarifária não é um risco disperso; é uma ameaça concentrada em poucos produtos estratégicos.
É nesse ponto que o tema deixa de ser apenas comércio exterior e chega ao crédito rural. O produtor decide antes de saber exatamente quanto receberá, qual será o preço futuro, qual mercado estará aberto e qual será seu custo financeiro. Quando tarifas reduzem previsibilidade, a receita esperada fica mais incerta, e bancos, cooperativas, tradings e fornecedores passam a avaliar risco com mais cautela. Em um setor intensivo em capital e planejamento, incerteza comercial vira risco financeiro.
A concentração de impactos em poucos produtos amplifica esse risco. No agronegócio brasileiro, os cinco maiores produtos afetados somam aproximadamente US$ 1,33 bilhão, representando 31,7% do valor total dentro da proposta tarifária. No Rio Grande do Sul, essa concentração é ainda mais severa: o fumo Virgínia representa 21,1% do valor potencialmente tarifado, e o setor de fumo e derivados chega a 31,4%. Essa estrutura de risco concentrado significa que negociações sobre a lista de exclusões podem ter impacto desproporcional nas duas geografias. Produtos como carne bovina fresca, suco de laranja concentrado, café em grão e fertilizantes já constam nas exclusões da proposta USTR, o que mitiga parte do impacto sobre setores tradicionais brasileiros. Porém, a ausência do fumo nas listas de exclusão representa um risco estrutural para o agronegócio gaúcho.
O impacto potencial agregado de uma sobretaxa de 25% sobre produtos dentro da proposta representaria aproximadamente US$ 4,1 bilhões em pressão tarifária sobre as exportações brasileiras e US$ 334 milhões sobre as gaúchas. Esses valores não se materializam como perda direta automática; podem se desdobrar como redução de margens, repasse de preço ao consumidor, queda de volume de vendas ou perda de participação de mercado. A incerteza sobre qual dessas vias será adotada por cada exportador amplifica ainda mais o custo de decisão.
O tarifaço contra o agro revela uma lição simples: o intervencionismo econômico pode mudar de discurso, mas seus efeitos são parecidos. Quando governos manipulam o comércio internacional, distorcem preços, reduzem previsibilidade e aumentam o custo de decisão de quem produz. Para o agronegócio brasileiro, a melhor resposta não é entrar em uma nova guerra tarifária. É defender mais diversificação, menos custo Brasil, crédito mais saudável e instituições que respeitem propriedade, contratos e informação verificável.