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O que dizem os novos números do Ideb

Uma mesma alta pode refletir mais aprendizagem, maior aprovação ou mudanças no perfil de quem fez a prova

 (Maskot/Divulgação)

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Instituto Millenium
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Publicado em 16 de setembro de 2026 às 18h26.

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*Gabriel Mendes

 

O resultado do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) referente a 2025 foi divulgado recentemente. Nas redes sociais, o governo federal, assim como muitos estados e municípios, celebraram a melhora dos números, enquanto diversos perfis questionaram a qualidade do indicador, até mesmo com insinuações de fraude. Por isso, é importante entender o que os números divulgados realmente representam, e se é possível usar algum artifício para melhorar a nota de uma escola e de uma rede.

O primeiro ponto é que o Ideb não mede apenas aprendizagem. Ele combina a aprendizagem, a partir do desempenho dos estudantes em língua portuguesa e matemática no Saeb, e o fluxo escolar, representado pelas taxas de aprovação informadas no Censo Escolar. A lógica é razoável. Uma escola que ensina bem, mas reprova muitos alunos, não pode ser considerada eficiente. Da mesma forma, não é correto aprovar todos sem que haja aprendizado de fato. E o desenho do indicador tenta equilibrar esses dois fatores.

O problema é que, na discussão pública, o fluxo costuma desaparecer. Quando uma rede melhora o Ideb, a reação imediata é concluir que os alunos aprenderam mais. Isso pode ser verdade, mas não necessariamente explica toda a variação. Uma elevação da taxa de aprovação também aumenta o índice. Apesar do dado das taxas de aprovação ser público, ele é pouco divulgado, e muitas redes acabam aprovando alunos sem aprender para inflar o indicador do fluxo.

Há ainda uma outra vulnerabilidade, menos conhecida. Para que o resultado de uma escola seja divulgado no Saeb, é exigida participação mínima de 80% dos estudantes da etapa avaliada. Em tese, portanto, uma escola pode ter até 20% de ausência e ainda produzir um resultado oficial. Se as faltas forem aleatórias, o efeito tende a ser pequeno. Mas, se a escola ou a rede recomenda que os piores alunos não façam a prova, a média dos presentes poderá ficar artificialmente mais alta. Isso pode gerar um incentivo perverso de pressionar pela presença dos melhores e ser menos diligente com os estudantes que apresentam maiores dificuldades.

Isso não significa que exista uma fraude generalizada no Ideb. Significa apenas que todo indicador usado para definir prestígio, metas, bônus ou distribuição de recursos cria incentivos para que as organizações aprendam a otimizar o número. É um fenômeno conhecido. Quando a métrica vira objetivo, pode deixar de representar perfeitamente aquilo que pretendia medir. A resposta adequada não é abandonar a avaliação, mas interpretar seus componentes e observar taxas de participação, aprovação e proficiência em conjunto.

Os próprios dados de 2025 mostram por que essa cautela é necessária. Na rede pública, houve avanço nas médias do Saeb. No 5º ano, Língua Portuguesa passou de 207,6 pontos em 2023 para 215,1 em 2025; matemática foi de 218,3 para 227,4. Portanto, ao menos no agregado nacional, houve melhora de aprendizagem mensurada pela prova. Ainda assim, médias nacionais não eliminam distorções locais, nem permitem concluir que toda alta de Ideb decorreu do mesmo fenômeno.

Também seria um erro cair no extremo oposto e presumir que qualquer avanço relevante decorre de manipulação. Políticas educacionais bem desenhadas conseguem alterar resultados. Currículo claro, material didático de qualidade, avaliação diagnóstica frequente, intervenção rápida contra a defasagem e formação de professores focada na prática, podem melhorar aprendizagem e reduzir reprovação ao mesmo tempo. Há diversos exemplos de cidades que conseguiram resultados excelentes mudando políticas de alfabetização e aplicando pedagogia baseada em evidências, como Sobral (CE) e Coruripe (AL), que devem servir de modelo para outros municípios, muito mais que qualquer artifício para melhorar dados.

Uma boa gestão educacional não deve perseguir apenas a nota final, mas perguntar de onde veio cada décimo: os alunos aprenderam mais? Houve menos reprovação porque as dificuldades foram enfrentadas ou apenas porque os critérios foram flexibilizados? Quem fez a prova representa adequadamente os matriculados?

O Ideb não deve ser ignorado porque transforma duas dimensões importantes em um número simples e comparável. Mas, justamente por isso, exige leitura menos simplista. Celebrar qualquer alta como prova definitiva de sucesso é tão pouco rigoroso quanto chamar todo avanço de fraude. Indicadores não substituem a realidade; são instrumentos para investigá-la. O debate sério começa quando deixamos de olhar apenas para o placar e passamos a entender como ele foi construído.

 

*Gabriel Mendes é sociólogo, professor e analista de dados. Trabalha há 16 anos na gestão pública educacional. Atualmente é secretário de educação de Lagoa Santa-MG.