Javier Milei, presidente da Argentina, durante discurso em Beverly Hills, em 6 de maio (Patrick T. Fallon/AFP)
Instituto Millenium
Publicado em 21 de agosto de 2026 às 20h58.
Camila Gontijo, associada do IFL-BH
Viajar para a Argentina para estudar sua economia é muito diferente de viajar para a Argentina para apreciar o tango. Buenos Aires continua linda, intensa, cheia de história, cafés, arquitetura e seu ar europeu com toques latinos. Em uma recente imersão com o IFL, saímos do Brasil para entender os impactos da política de Milei na economia do país. E, para isso, passamos por universidades, pelo Congresso argentino, pelo Banco Central e conversamos com pessoas que estão acompanhando de perto uma das experiências econômicas e políticas mais interessantes da América Latina nos últimos anos.
E voltei pensando menos em Javier Milei e mais em liderança. Porque, independentemente da simpatia ou antipatia que sua figura desperte, o fato é que a Argentina decidiu enfrentar problemas que, durante muito tempo, pareciam incorporados à sua própria realidade.
Quando Milei assumiu a presidência, em dezembro de 2023, encontrou um país convivendo com déficit fiscal crônico, emissão monetária, inflação crescente, controles de preços e câmbio e uma máquina pública que já não conseguia se financiar sem gerar novas distorções.
Sua resposta foi rápida, dura e, evidentemente, controversa. Ele cortou gastos, reduziu a estrutura estatal, criou um ministério de desregulamentação, buscou equilíbrio fiscal, revisou subsídios e trouxe maior abertura para investimentos privados. Porém, como Sowell reforça, não existe almoço grátis. E os argentinos sentiram isso.
Nos primeiros meses, a atividade econômica caiu e a pobreza aumentou. Universidades e outros setores públicos enfrentaram cortes, e houve grandes manifestações contra as medidas do governo. A transformação argentina está longe de ser uma história sem custos ou contradições.
Mas, em pouco tempo, alguns resultados começaram a aparecer. A inflação mensal, que chegou a 25% em dezembro de 2023, caiu para cerca de 2% em 2025. O país voltou a registrar superávit fiscal e, em 2025, alcançou, pelo segundo ano consecutivo, resultado financeiro positivo, algo que não ocorria havia mais de uma década.
Depois da forte recessão provocada pelo ajuste inicial, a economia voltou a crescer. Dados do Banco Mundial apontam crescimento de aproximadamente 4,4% do PIB argentino em 2025. O próprio Banco Mundial reconhece que o programa iniciado em 2023 promoveu uma forte correção dos desequilíbrios fiscais, externos e monetários e vem apoiando reformas destinadas a melhorar a competitividade, estimular o investimento privado e ampliar a geração de empregos. Em 2026, a instituição aprovou, inclusive, uma operação destinada a mobilizar até US$ 2 bilhões em financiamento comercial para apoiar essa agenda.
É claro que isso não significa que todos os problemas argentinos estejam resolvidos, muito menos que exista um modelo pronto para ser simplesmente copiado por outros países. Significa, sim, que escolhas produzem consequências — boas e ruins.
Sentada dentro do Congresso argentino, refleti que quase todos os indicadores que analisamos em uma planilha começaram com uma decisão tomada naquela sala. Endividamento, subsídios,
impostos, regulações, incentivos e gastos públicos são resultados de escolhas. E escolhas são feitas por pessoas. Isso vale para um país, mas também vale para uma empresa.
É muito confortável atribuir resultados ruins ao mercado, ao concorrente, ao câmbio, ao governo, à equipe, ou simplesmente à conjuntura. Mas qual decisão estamos adiando porque sabemos que ela será impopular?
Milei iniciou seu governo sem uma maioria confortável no Congresso. Muitas de suas propostas encontraram resistência política, sindical e social. Algumas precisaram ser negociadas, outras modificadas e algumas simplesmente não avançaram.
E acredito que seja justamente aí que liderança e liberalismo se encontram. Não somente na defesa de menos Estado ou mais mercado, mas em uma ideia muito mais profunda: a da autorresponsabilidade. Não existe liberdade verdadeira quando alguém sempre espera que outro assuma o custo das suas decisões.
É neste momento que liderança deixa de ser discurso. Liderar não significa estar sempre certo. Significa saber onde se quer chegar, explicar por que determinado caminho está sendo escolhido e, principalmente, assumir o custo das decisões tomadas.
Uma das maiores confusões do nosso tempo é acreditar que coragem significa simplesmente ter opinião. E não significa. Opinião todo mundo tem. Coragem é responsabilidade. É conseguir se posicionar sabendo que haverá oposição e estar disposto a responder pelas consequências daquilo que defendeu.
Por isso, mais do que uma viagem sobre a economia argentina, essa experiência acabou sendo uma aula sobre responsabilidade. Passar por universidades, ouvir diferentes perspectivas, conhecer o Congresso e visitar instituições econômicas tornou impossível olhar para aquele processo apenas pela lente ideológica. Existem pessoas sendo afetadas e interesses legítimos em conflito. Existem erros, acertos e riscos.
O liberalismo sempre me pareceu especialmente poderoso justamente porque começa pelo indivíduo. Antes de perguntar o que o Estado deveria fazer, pergunta o que cada pessoa está disposta a assumir. Antes de reivindicar direitos, lembra que escolhas carregam responsabilidades. E, antes de procurar alguém para culpar, devolve a pergunta: qual é a minha parte nisso?
Voltei da Argentina com números, conceitos e muito mais conhecimento sobre economia. Países são construídos por escolhas; empresas também. E nossas próprias vidas, mais ainda.
E liderança, no final das contas, pode ser algo muito menos sofisticado do que tantos livros tentam nos explicar. Trata-se muito mais de enxergar o problema quando seria mais confortável ignorá-lo, escolher quando seria mais fácil adiar e se posicionar quando seria mais seguro permanecer em silêncio. E, acima de tudo, de ter coragem suficiente para assumir as consequências das decisões tomadas.
Porque não decidir também é uma decisão. E quase sempre alguém pagará por ela.