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O Estado que sequestra o crédito e manda a conta para o seu bolso

Crowding out é quando o gasto público financiado por endividamento encarece o crédito privado, ao competir pelos mesmos recursos escassos da economia

 (Magnific/Reprodução)

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Publicado em 8 de setembro de 2026 às 14h03.

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Por que a renda das famílias brasileiras bate recorde e, ainda assim, a inadimplência não para de subir? Por que convivemos simultaneamente com pleno emprego e com o maior endividamento familiar da série histórica? A combinação parece um contrassenso, mas revela com precisão a realidade da economia brasileira, e desmente a narrativa oficial de que o país "nunca esteve tão bem". O que os dados revelam é um mecanismo clássico de manual de macroeconomia: o crowding out, efeito pelo qual o gasto público financiado por endividamento crescente encarece o crédito privado, ao competir com famílias e empresas pelos mesmos recursos escassos de poupança e capital disponíveis na economia.

A Selic em 14% ao ano deixou de operar apenas como instrumento de combate à inflação para se tornar um freio estrutural sobre a atividade econômica, e os dados do Banco Central corroboram esse diagnóstico. A inadimplência de pessoas físicas segue em trajetória ascendente mesmo com a renda em patamar recorde, o que é uma anomalia. Em condições normais de mercado, o aumento da renda deveria se traduzir em maior capacidade de pagamento. Observa-se, contudo, o movimento inverso: o estoque de dívida acumulado ao longo de anos de juros elevados cresce em ritmo superior ao da renda disponível, corroendo progressivamente o patrimônio das famílias brasileiras.

A dimensão do problema pode ser mensurada pelas projeções de crescimento do PIB vistas na pesquisa Focus, do Banco Central. O crescimento do PIB, já revisado de 0,5% para 0,4% no segundo trimestre, deve desacelerar de um patamar próximo a 2% em 2026 para algo em torno de 1% em 2027, com viés de baixa. Não se trata de uma crise anunciada, mas de uma desaceleração com causa técnica bem identificada: o gasto público, financiado por endividamento crescente, compete diretamente com o setor privado pelos mesmos recursos escassos de crédito e poupança. O governo rola sua própria dívida, pressionando as taxas de juros para cima e encarecendo o custo do crédito para todos os demais agentes da economia.

O comportamento dos bancos ilustra bem essa dinâmica. Diante de um cenário de juros elevados e risco fiscal crescente, as instituições financeiras preferem alocar capital em títulos públicos, que oferecem retorno elevado com risco de crédito praticamente nulo, em detrimento de empréstimos a empresas e famílias. Trata-se de uma decisão racional do ponto de vista de cada instituição isoladamente, ainda que destrutiva para a economia como um todo. A Pesquisa Trimestral de Condições de Crédito do Banco Central já capta esse apetite decrescente das instituições para conceder novos empréstimos, mesmo com a demanda das famílias por crédito permanecendo em alta. Não há, portanto, escassez de interesse dos bancos em emprestar, mas sim uma arbitragem racional entre o risco-retorno do setor privado, hoje mais endividado e inadimplente, e o risco-retorno soberano, que também se deteriora à medida que a dívida pública avança, mas que segue compensando mais no cálculo de cada instituição.

O efeito sobre o setor produtivo já se manifesta de forma concreta. O aumento expressivo de pedidos de recuperação judicial e extrajudicial, com casos recentes como Casas Bahia, Marabraz e Braskem, não constitui um problema isolado de setores específicos, mas sintoma de um ambiente em que o capital de giro se tornou simultaneamente mais caro e mais escasso. Empresas que sustentavam margens apertadas sob juros mais baixos deixam de resistir quando o custo de rolagem da dívida dobra ou triplica em poucos anos. A política monetária restritiva, nesse contexto, não se limita a conter a demanda agregada: acaba por inviabilizar empresas que seriam perfeitamente sustentáveis sob uma estrutura fiscal minimamente equilibrada.

Para as famílias, o canal de transmissão opera com defasagem maior, mas com igual severidade. Uma parcela relevante dos brasileiros já não percebe qualquer melhora no orçamento doméstico, simplesmente porque está endividada há tempo suficiente para que os juros compostos sobre essas dívidas cresçam mais depressa do que qualquer ganho real de renda. Com cerca de 80 milhões de devedores no país, a deterioração da confiança do consumidor deixa de ser um indicador de sentimento abstrato e passa a refletir uma restrição material e concreta ao consumo. Fecha-se, assim, o círculo: empresas pressionadas por margens menores reduzem contratações e limitam reajustes salariais justamente no momento em que as famílias mais precisariam de fôlego para honrar compromissos assumidos em um ciclo de crédito mais barato que já não existe.

O equívoco conceitual que sustenta o discurso oficial reside em tratar estímulo fiscal e crédito abundante como sinônimos de crescimento sustentável. O gasto público pode sustentar o consumo agregado no curto prazo, como ocorreu ao longo de 2024 e de 2025, mas, sem o correspondente ajuste fiscal, volta-se contra a própria atividade que pretendia proteger, ao manter os juros estruturalmente elevados por período mais longo do que seria necessário em uma trajetória fiscal saudável. Mesmo no cenário mais otimista do mercado, com avanço de 1,5% do PIB em 2027, o consenso técnico converge para a necessidade de um esforço fiscal da ordem de dezenas de bilhões de reais como condição mínima para evitar um quadro ainda pior. Na ausência desse ajuste, o mercado de crédito continuará absorvendo o custo do desequilíbrio fiscal, e a conta, como sempre, recairá sobre quem possui menor capacidade de arcar com ela.

Não é possível conciliar indefinidamente gasto público crescente, juros elevados e crescimento robusto, pois essa combinação é estruturalmente incompatível, e é justamente a insistência em perseguir as três coisas ao mesmo tempo que está drenando hoje o crédito disponível ao setor privado. O governo brasileiro segue tratando o ajuste fiscal como um problema a ser transferido ao próximo mandato, e o custo crescente da rolagem da própria dívida como um detalhe técnico menor. Não é. Retomando a pergunta inicial: a inadimplência sobe com a renda batendo recorde porque o Estado, ao financiar seu próprio apetite por gasto, consome primeiro a poupança que deveria irrigar famílias e empresas.

Em economia não existe alquimia. O crédito não desapareceu por acaso. Foi sequestrado por um governo que prefere gastar hoje e transferir a fatura, com juros compostos, para quem depende de crédito para viver e produzir.