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O crepúsculo dos aiatolás e o fim da Revolução de 1979

A confissão de impotência do presidente do Irã reconhece tardiamente que a ideologia conduziu o país a um beco sem saída

Bandeira do Irã cobre parcialmente prédio atingido por míssil israelense em Teerã  (ATTA KENARE /AFP)

Bandeira do Irã cobre parcialmente prédio atingido por míssil israelense em Teerã (ATTA KENARE /AFP)

Publicado em 14 de janeiro de 2026 às 21h01.

A longevidade dos regimes autoritários depende de uma equação entre coesão da elite, eficácia repressiva e um mínimo de viabilidade econômica. O que se observa no início deste ano, contudo, transcende um ciclo de descontentamento popular, pois marca o esgotamento funcional de um modelo de Estado. Enquanto observadores externos buscam paralelos históricos na Revolução de 1979, a dinâmica atual no Irã é mais complexa. A pressão das ruas colide com a incapacidade administrativa do regime e o risco de intervenção estrangeira. A teocracia já não se sustenta pela legitimidade ideológica, mas pela fragmentação dos opositores e pela inércia geopolítica.

A Asfixia Econômica e Social

O motor desse colapso é a catástrofe econômica. Deixou de ser uma questão de gestão para se tornar uma crise humanitária. A inflação inviabilizou o país para a maioria dos cidadãos, com o preço dos alimentos disparando 72% em um ano. A crise habitacional ilustra ainda melhor essa distopia, pois dados oficiais sugerem que o cidadão médio precisaria poupar 100% da renda por um século para comprar um apartamento modesto em Teerã. Esse cenário de inviabilidade financeira aniquilou a classe média e radicalizou a juventude educada, que enfrenta uma taxa de desemprego real muito superior aos dígitos oficiais. A confissão de impotência do presidente Masoud Pezeshkian, ao declarar que "o problema somos nós" e que o governo está "atolado", reconhece tardiamente que a ideologia conduziu o país a um beco sem saída.

A paralisia econômica fraturou a base do sistema. A histórica aliança entre o clero e os comerciantes do bazar, fundamental para a revolução de 1979, ruiu com a ascensão da Guarda Revolucionária como conglomerado predatório. O setor privado tradicional, asfixiado por uma economia de sombra militarizada e pela corrupção judicial, migrou para o lado dos manifestantes. A tentativa do governo de mitigar a revolta através do aumento de subsídios diretos esbarra na falta de liquidez do banco central, criando um ciclo vicioso onde a impressão de dinheiro apenas acelera a desvalorização do rial e aprofunda a miséria que pretendia aliviar.

O Vácuo de Liderança na Oposição

No entanto, a fragilidade do regime é contrabalançada pela ausência de uma liderança opositora unificada. Diferente do movimento que derrubou o Xá sob a figura centralizadora de Khomeini, os protestos atuais são difusos. O príncipe herdeiro exilado, Reza Pahlavi, tem apelo simbólico e plano administrativo, mas enfrenta ceticismo sobre a restauração da monarquia após cinco décadas. Outros grupos, como o Conselho Nacional de Resistência do Irã, sofrem rejeição interna por históricos controversos. Essa fragmentação, somada à prisão dos líderes do Movimento Verde, cria um vácuo que o aparato de segurança explora com violência letal.

A variável internacional introduz um paradoxo perigoso na equação. A retórica agressiva de Washington, com ameaças de ataques militares diretos caso a repressão continue, carrega o risco do "efeito bumerangue". A história ensina que intervenções externas precipitadas podem oferecer a regimes autocráticos o inimigo perfeito para justificar a brutalidade interna e desviar a atenção do fracasso econômico. Um ataque estrangeiro poderia, inadvertidamente, silenciar as demandas por reforma e unir a população sob a bandeira do nacionalismo defensivo, concedendo uma sobrevida política aos aiatolás, justamente quando se encontram mais vulneráveis. A prudência sugere que a mudança duradoura deve ser um processo endógeno, evitando repetir os erros de cálculo de intervenções passadas na região.

O Fim das Ambições Regionais

Além disso, o mito da projeção de poder iraniano foi severamente abalado. A recente degradação do chamado "Eixo da Resistência" e a incapacidade de proteger aliados regionais expuseram a fragilidade militar de Teerã. Exausta de financiar aventuras em Gaza, Líbano e Síria enquanto a infraestrutura doméstica desmorona, a população rejeita a expansão revolucionária. O slogan "Não por Gaza, não pelo Líbano, mas pelo Irã" sinaliza um nacionalismo secular que prioriza a reconstrução interna. Isolado e sem bodes expiatórios convincentes, o regime enfrenta uma crise de legitimidade que a força bruta não consegue mais mascarar.

O Irã caminha sobre o fio da navalha. A soma de hiperinflação, colapso ambiental, isolamento internacional e cisão das elites torna a manutenção do status quo matematicamente improvável. Mas a transição não está garantida. O futuro imediato oscila entre uma democratização civil, uma ditadura militar secular da Guarda Revolucionária ou o caos. A queda dos aiatolás parece questão de tempo. Resta saber se os iranianos conseguirão transformar a indignação em alternativa política, resistindo à brutalidade interna e às soluções mágicas vindas de fora.