Colunistas

O Brasil está na moda?

Fluxo estrangeiro, emprego precário e fragilidade fiscal: os contrastes por trás do novo otimismo com o país

 (Rafael Neddermeyer/Fotos Públicas)

(Rafael Neddermeyer/Fotos Públicas)

Instituto Millenium
Instituto Millenium

Instituto Millenium

Publicado em 9 de maio de 2026 às 01h22.

*Marcus Prado, administrador e associado do Instituto de Estudos Empresariais (IEE)*

 

O capital estrangeiro voltou a circular, o real se valorizou frente ao dólar e analistas internacionais redescobriram o país em suas alocações. Se você ouvir essa narrativa sem contexto, pode acreditar que algo estrutural mudou. Mas vale nos questionarmos: esse otimismo é sobre o Brasil ou é apesar dele? A resposta, infelizmente, pende mais para o segundo lado. Entender essa distinção é fundamental para saber o que está em jogo nos próximos anos.

Emprego existe. Renda, nem tanto.

O desemprego atingiu o menor nível da série histórica em 2025, com taxa de 5,6%. É um número real e merece reconhecimento. O problema está no que esse número não conta. O novo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) é cristalino: o Brasil gerou 1.279.498 empregos formais em 2025. A questão é que o número que soa positivo esconde que mais de 70% dessas vagas se concentraram na faixa de até 1,5 salário mínimo, em que o provento médio de admissão em dezembro de 2025 foi de R$ 2.303 (menos de dois salários mínimos). Nos setores que mais contrataram, comércio e alimentação, a média não chega a R$ 2 mil. Quase 64% do saldo positivo foi puxado por jovens de 18 a 24 anos, perfil que concentra os postos de menor qualificação e maior rotatividade.

O que cresce, portanto, não é o emprego formal com trajetória de carreira. É a ocupação de ciclo curto e baixa remuneração. Ou seja, o crescimento está concentrado em postos criados pelo consumo, não pelo aumento de produtividade. A lógica é direta: o governo adotou uma política ostensiva de expansão de gastos e transferências de renda. Essa renda vira consumo, e o consumo gera ocupação no varejo, nos serviços e na logística de entrega. É um mecanismo real, mas frágil: depende do contínuo estímulo fiscal para se sustentar. Quando o gasto público arrefecer, esse emprego deverá sumir pela mesma porta por onde entrou.

Enquanto isso, os itens que não caem, como energia elétrica, gás de botijão, plano de saúde e aluguel, correm acima do IPCA oficial e pesam de forma desproporcional no orçamento de quem ganha menos. O índice oficial captura a média. Quem foi admitido por R$ 2.303 sente outra coisa.

O fiscal que não fecha

Em termos fiscais, são três anos seguidos com rombo nominal acima de R$ 1 trilhão. A dívida bruta do governo geral ultrapassou R$ 10 trilhões em 2025, chegando a 78,7% do PIB. O déficit primário do governo central foi de R$ 61,7 bilhões, aumento real de 32,3% em relação a 2024. Mesmo assim, o governo projeta convergência para o superávit, e, obviamente, o mercado não acredita. Com isso, a Selic permanece em patamares extremamente elevados, e os prêmios dos títulos longos do Tesouro Direto embutem um nível de desconfiança que nenhuma medida do governo atual consegue desfazer. 

É importante entendermos que a Selic alta não é anomalia: é o preço que o Brasil paga para continuar se financiando. É o mercado dizendo, em linguagem de taxa de juros, que a trajetória fiscal não fecha.

O capital que veio de fora e por quê

Então por que o capital voltou? Por que emergiu esse otimismo com o Brasil? A resposta está menos em Brasília e mais em Washington e no Oriente Médio. O mundo se fragmentou em blocos. Cadeias de suprimento que pareciam eternas foram redesenhadas à força. Investidores globais, diante de um sell-off nos ativos americanos e da busca por diversificação, redescobriram a América Latina quase por eliminação.

Desde janeiro de 2026, estrangeiros injetaram mais de R$ 53 bilhões na bolsa brasileira, revertendo um 2024 que havia sido o pior em fluxo desde 2016. O Brasil foi beneficiário, não protagonista, desse movimento. São números expressivos, mas gerados por fuga de risco, não por convicção estrutural no país. Não é que o Brasil ficou ótimo, é que ele ficou, na linguagem popular, “menor pior”.

O ativo que o Brasil realmente tem

Dito isso, o Brasil tem uma vantagem geopolítica estrutural que poucos países têm e que está sendo subestimada mesmo pelos entusiastas. Enquanto o mundo debate rotas marítimas vulneráveis, conflitos em zonas de exportação e dependência de canais únicos de passagem, o Brasil exporta praticamente sem fricção geopolítica: nossas rotas são diversas, abertas e não passam por nenhum ponto de estrangulamento crítico. Exportamos para leste e para oeste sem pedir licença a ninguém. 

Some a isso autossuficiência energética, autossuficiência alimentar, abundância hídrica e terras raras. Em um mundo que redistribui cadeias produtivas, o Brasil é um dos poucos países que podem se sentar à mesa com todos os blocos ao mesmo tempo. Esse não é um cenário fabricado por análise otimista. É o resultado objetivo de estar longe das zonas de conflito e perto de tudo que o mundo precisa.

O que ainda falta: a lição de casa

O Brasil é um ativo de qualidade com gestão ruim. Qualquer investidor sabe o que isso significa no longo prazo. O capital que entrou veio por fuga de risco, não por convicção no Brasil. Ele é volátil por natureza e sai com a mesma velocidade com que chegou se os fundamentos domésticos não sustentarem a tese. 

Um governo que sinalize responsabilidade fiscal real, que reforme o ambiente de negócios e que pare de tratar o orçamento público como instrumento eleitoral pode capturar esse otimismo externo de forma duradoura. Caso contrário, repetiríamos um padrão antigo: o mundo oferece a janela, e o Brasil hesita até ela fechar.

 

*Sócio e diretor no Clube do Valor. Formado em Administração na UFRGS, é gestor de investimentos credenciado na CVM.