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O Brasil das torcidas políticas

O principal papel do cidadão é fiscalizar, criticar e cobrar, mas existe uma diferença entre fiscalizar e torcer

 (Wikimedia Commons)

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Instituto Millenium
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Instituto Millenium

Publicado em 1 de julho de 2026 às 13h57.

*Camila Gontijo

 

Há pouco tempo, a minha cidade natal, Divinópolis, recebeu a visita do presidente Lula e de outras autoridades para a inauguração do novo Hospital Regional da UFSJ. Trata-se de uma estrutura que passa a atender a população pelo SUS e que tem potencial para ampliar significativamente o acesso à saúde na região. Mas o que mais chamou minha atenção não foi o hospital. Foi a reação das pessoas.

Em um dos principais veículos de comunicação da cidade, no interior de Minas Gerais, encontrei milhares de comentários sobre a inauguração. Como o evento reuniu um presidente de esquerda e uma prefeita de direita, a discussão tomou outro rumo. Havia críticas ao presidente Lula, à prefeita Janete, ao governo federal, ao governo municipal, à esquerda, à direita e aos políticos em geral.

Naquele post, não havia praticamente nenhum comentário sobre a notícia central. Quase ninguém parecia interessado no hospital. A notícia era sobre um novo equipamento de saúde pública, mas virou uma grande disputa política. O fato desapareceu atrás das bandeiras partidárias. A sensação era de que estávamos em um estádio, com torcedores continuamente vaiando e criticando os jogadores, sem que ninguém comemorasse o gol.

E isso diz mais sobre nós do que sobre política.

Talvez esta seja uma das maiores consequências da política transformada em torcida organizada: deixamos de avaliar resultados e passamos a reagir apenas a nomes, símbolos e lados. Torcemos, xingamos, comemoramos derrotas do adversário e cobramos resultados dos jogadores em campo. Enquanto isso, permanecemos sentados, convencidos de que nosso único papel na sociedade é vaiar quem está governando.

Possivelmente, esta é uma das maiores fragilidades da democracia atual. Cada vez mais pessoas acreditam que participar da vida pública significa apenas apontar erros dos outros. Em cenários desafiadores, precisamos pensar além das bandeiras e entender qual benefício real estamos recebendo, a que custo e quem são os beneficiados.

Nós nos acostumamos a acreditar que o principal papel do cidadão é fiscalizar, criticar e cobrar o governo. E, de fato, isso é essencial. Uma sociedade livre depende de cidadãos atentos e vigilantes. Mas existe uma diferença importante entre fiscalizar e torcer.

Fiscalizar exige disposição para analisar fatos, resultados, custos e responsabilidades, mesmo quando eles contrariam nossas preferências. Torcer é o contrário: é absolver automaticamente quem está do nosso lado e condenar, sem reflexão, quem está do outro. Quando substituímos a fiscalização pela torcida, deixamos de exercer cidadania para apenas defender um time.

Quando toda notícia passa a ser interpretada exclusivamente pela lente ideológica, deixamos de enxergar a realidade. Se um hospital é inaugurado, a primeira pergunta deveria ser: isso melhora

a vida das pessoas? Mas, cada vez mais, a pergunta parece ser outra: quem estava no palco? Quem estava torcendo?

O Hospital Regional não pertence moralmente a um único partido. Pertence à população. Sua construção envolveu uma universidade, profissionais de saúde, servidores públicos e diferentes esferas de governo ao longo de muitos anos. É exatamente por isso que uma obra como essa deveria ser avaliada pelo impacto que gera na vida das pessoas, e não pela foto de quem apareceu na inauguração.

O resultado dessa lógica é uma sociedade permanentemente indignada e cada vez menos capaz de reconhecer conquistas concretas. É verdade que muitas pessoas estão cansadas, descrentes ou consumidas pela rotina. Isso ajuda a explicar o afastamento da vida comunitária. Explica, mas não justifica.

Queremos que Brasília, a prefeitura ou qualquer outro governo resolvam tudo. Na verdade, queremos que alguém resolva tudo. Menos nós.

Uma democracia não se fortalece apenas com reclamações, por mais legítimas que elas sejam. Ela se fortalece quando cidadãos acompanham os problemas da sua cidade, participam de iniciativas locais, cobram transparência, valorizam boas entregas e ajudam a construir soluções.

Sociedades fortes não são construídas apenas por governos competentes. São construídas por cidadãos que entendem que seus deveres são tão importantes quanto seus direitos. Nenhum país melhora apenas porque elegeu os políticos certos. Países melhoram quando milhões de pessoas comuns assumem responsabilidade pelo espaço que ocupam.

Esta obsessão pela política nacional nos permite acreditar que os problemas estão sempre longe de nós, em Brasília, nos ministérios ou nos gabinetes. É uma forma de evitar uma pergunta muito mais desconfortável: o que eu estou fazendo?

É mais fácil discutir sobre presidentes do que educar filhos. É mais fácil criticar prefeitos do que participar da comunidade. É mais fácil reclamar do sistema do que melhorar o ambiente ao nosso redor. Talvez por isso o hospital tenha desaparecido dos comentários.

Celebrar uma conquista coletiva não significa abrir mão das próprias convicções. Significa reconhecer que diferentes pessoas, instituições e governos podem produzir algo positivo, mesmo quando discordamos profundamente deles em outros temas.

A maturidade democrática começa quando conseguimos separar pessoas de resultados. É a capacidade de reconhecer um acerto de quem pensa diferente de nós e ter coragem de criticar um erro de quem pensa parecido conosco.

Uma sociedade que enxerga apenas palanques acaba perdendo a capacidade de reconhecer conquistas. E, quando isso acontece, toda obra pública deixa de ser um benefício coletivo para se transformar apenas em mais um motivo de disputa.

Um novo Hospital Regional foi inaugurado. Mas, olhando os comentários, tive a impressão de que quase ninguém percebeu. Estávamos ocupados demais discutindo política para enxergar a sociedade.