União Europeia e Mercosul (iStock/Getty Images)
Instituto Millenium
Publicado em 22 de maio de 2026 às 00h30.
Camila Gontijo, associada do IFL-BH
O acordo entre o Mercosul e a União Europeia finalmente saiu do limbo depois de 26 anos de negociação. Esse prazo, por si só, já deveria causar mais desconforto do que celebração. Porque acordos comerciais não levam tanto tempo quando há alinhamento, urgência e clareza de interesses. Eles levam esse tempo quando revelam hesitação — ou quando escancaram a dificuldade de um país em decidir o que quer ser economicamente.
Agora, ele entra em vigor, ainda que de forma provisória, conectando dois blocos que somam mais de 700 milhões de pessoas, reduzindo tarifas e prometendo integração, eficiência e previsibilidade. No discurso, irretocável; no PPT, irresistível. No papel, muito daquilo parece positivo.
Mas a realidade corporativa raramente se move no ritmo das narrativas institucionais. E é justamente aí que esse acordo deixa de ser apenas uma conquista diplomática e passa a ser um desafio para empresas brasileiras. A abertura comercial não apenas cria competitividade. Ela também reforça quem já é competitivo.
Durante anos, muitas empresas no Brasil operaram protegidas por uma combinação de barreiras tarifárias, complexidade regulatória e custos logísticos que, de certa forma, funcionavam como escudo. A famosa frase de que o Brasil não é terra para amadores traduz bem essa realidade: para empreender no país, é preciso gerir burocracias, custos e obstáculos que, muitas vezes, existem quase exclusivamente dentro do nosso território. Há certa eficiência nesse modelo, mas ela também isola essas empresas do mercado externo. Agora, esse isolamento começa a ser desmontado de forma estruturada.
A indústria europeia não entra nesse acordo buscando oportunidade. Ela entra pronta. Com escala, tecnologia, financiamento e produtividade que não se constroem em ciclos curtos. Não há curva de aprendizado do lado de lá. Há execução.
Do lado de cá, a pergunta não é se existe potencial. O Brasil sempre teve potencial. A pergunta é se há densidade competitiva suficiente para sustentar essa abertura sem que ela se transforme em um processo silencioso de substituição.
Muitos exportadores brasileiros iniciam suas operações com grande foco no faturamento em dólar ou euro, somado à isenção tributária nas exportações, o que pode tornar a margem bastante sedutora para os empreendedores. Porém, o desafio é sair da oportunidade pontual e avançar para parcerias de internacionalização consistentes. É pensar até que ponto a empresa está disposta a competir com players internacionais e quais investimentos precisará realizar em diferentes frentes. Afinal, há muito mais no processo de internacionalização de uma empresa do que simplesmente exportar.
É fato que muitas empresas que se tornam exportadoras passam a ser mais competitivas também em seu território local, justamente porque amadurecem em diversos aspectos ao se prepararem para competir no mercado externo.
Este acordo abre portas mútuas, tanto de saída quanto de entrada, mas também impõe desafios relevantes de adaptação cultural, comercial e regulatória. É o que chamamos de barreiras tarifárias e não tarifárias, que empresas dos dois continentes terão de enfrentar ao entrar em novos mercados. A adaptação dos produtos, considerando exigências, demandas e diferenças locais, deve ser tratada como etapa prévia por esses exportadores, antes mesmo do início de qualquer negociação.
É preciso entender que o acordo auxilia na competitividade do produto brasileiro em terras europeias, mas faz o mesmo pelos produtos europeus em nosso país.
Com isso, o acordo não é uma política de desenvolvimento. Ele não corrige ineficiência, não resolve gargalos logísticos, não reduz o custo de capital e não simplifica o ambiente tributário. Ele apenas retira camadas de proteção e expõe, de forma mais direta, o que já existia.
Ele força as empresas brasileiras a competir com empresas altamente eficazes. A partir de agora, será cada vez mais difícil ignorar vulnerabilidades estruturais que antes podiam permanecer parcialmente escondidas pelo contexto local.
No ambiente corporativo, isso se traduz de maneira muito concreta. Cadeias de suprimento começam a se reconfigurar não por estratégia, mas por pressão de custo. Decisões de sourcing deixam de ser locais e passam a ser comparativas em escala global. Margens começam a ser testadas por concorrentes que operam com estruturas mais eficientes. E, talvez o mais desconfortável de tudo, algumas empresas descobrem que seu diferencial nunca foi competitivo; foi, de certa forma, circunstancial.
Esse acordo não acontece em um vácuo geopolítico. Ele é, em grande medida, uma resposta europeia à reorganização das cadeias globais, à dependência excessiva de determinadas regiões e à necessidade de reposicionamento estratégico diante de um mundo mais fragmentado. O Brasil entra nessa equação como parceiro, mas também como alternativa. E há uma diferença importante entre ser protagonista e ser opção.
Porque, a partir de agora, o mercado não vai mais tolerar ineficiências disfarçadas de contexto. O benchmark deixa de ser interno e passa a ser global.
É natural celebrar o acordo como avanço institucional, e ele é. Mas o risco está em parar nessa leitura. Porque, para o ambiente empresarial, o acordo não é um ponto de chegada. É o início de um ambiente mais exigente, mais transparente e, inevitavelmente, mais seletivo.
Algumas empresas vão crescer com isso. São aquelas que já vinham fazendo o dever de casa antes mesmo da abertura: eficiência operacional, disciplina de custos e visão estratégica de cadeia. Outras vão sentir, e não necessariamente por falta de esforço, mas porque só esforço não será suficiente. O acordo não muda o jogo, apenas seu nível de exigência.
A pergunta, portanto, não é se o acordo é bom ou ruim. Essa é uma discussão confortável demais. A pergunta que realmente importa, especialmente para quem está dentro das empresas, é aquela que não cabe em comunicado oficial: quando a proteção desaparece, o que exatamente sustenta a sua competitividade?