Democracia e economia (Getty Images/Getty Images)
Colunista
Publicado em 26 de fevereiro de 2026 às 14h03.
O mercado - esse ambiente tão frequentemente incompreendido como amaldiçoado - constitui um dos exemplos mais eloquentes de democracia.
O que domina o mercado, no livre mercado, é a vontade dos indivíduos, os interesses individuais. E eles mudam. Nenhum agente econômico preserva por muito tempo eventual posição de dominância se deixa de atender aos desejos caóticos, dispersos e voluntariosos do público consumidor.
Nada mais democrático que isso.
Mas não é assim que tem sido ensinado nas faculdades. Com o inescapável recurso ao latim, professores de Direito e Economia referem-se ao mercado como locus artificialis, nisso cometendo dois erros que desafiam a lógica: compreendê-lo como um espaço bem definido e compreendê-lo como não-espontâneo.
A questão é que o mercado (esse não-ser) não se importa com as definições que lhe são dadas. E “ele” reage às normas jurídicas que o regulamentam. Ele reage, ao contrário do que dizem os experts, caoticamente, de forma dispersa e voluntariosa. E ainda busca caminhos para driblar essas mesmas normas.
O mercado pode ser melhor definido como o conjunto não-planejado de decisões, emanadas de um sem-número de interações entre pessoas, físicas e/ou jurídicas, que respondem a incentivos, e, nesse movimento, se autorregula, sempre atendendo ao exclusivo comando da vontade humana. Eventuais situações de concentração de poder são sempre pontuais e transitórias, e as decisões individuais logo indicarão novos caminhos, dispersando a hegemonia momentânea.
Ao se instituir regramentos de toda ordem, ao se intervir no livre mercado bem ou mal-intencionadamente (o “mercado”, esse não-ser, não tem sentimentos, bons nem ruins), substitui-se a lógica da democracia econômica por uma vontade oriunda do poder. Relativiza-se, assim, pouco a pouco, a vontade individual. Prevalece a autoridade.
Nunca é demais relembrar que se deve temer muito mais o exercício do poder público do que o exercício do poder privado: o Estado, diferentemente do agente econômico, detém o monopólio do enforcement.
Muitas das críticas que são feitas ao capitalismo derivam de características que nada têm a ver com o mercado. São reflexos de distorções intervencionistas, de compadrio entre grupos privados e públicos e de corrupção praticada por agentes públicos.
Em matéria publicada no Wall Street Journal no final de 2025, advertia-se para o fato de que haveria uma versão capitalista muito específica em curso nos Estados Unidos desde a sua fundação e que a torna diferente de todas as outras experiências: o foco no indivíduo e o incentivo a se arriscar são os diferenciais. O modelo único de capitalismo americano é, segundo o artigo, resultado da democracia americana.
Democracia e capitalismo são instituições mais intrincadas do que se tem discutido. Em tempos em que a frágil democracia brasileira torna-se tema de debate nacional, voltar os olhos desapaixonados à contribuição recíproca entre o mercado e o sistema político pode trazer soluções que têm sido descuradas.