Colunistas

Irracionalidade racional em tempos de redes sociais

Como os intelectuais, os influenciadores, também querem ser amados, só que leem e estudam menos os assuntos que difundem.

Redes sociais: plataformas evoluem com inteligência artificial e apps de nicho ganham força (Matt Cardy/Getty Images)

Redes sociais: plataformas evoluem com inteligência artificial e apps de nicho ganham força (Matt Cardy/Getty Images)

Claudio D. Shikida
Claudio D. Shikida

Colunista - Instituto Millenium

Publicado em 23 de abril de 2026 às 23h57.

Às vezes, é racional ser irracional. Pode parecer estranho, mas é verdade. Antes, contudo, vamos deixar claro: ser racional, aqui, significa ter opiniões similares às da maioria dos especialistas em uma área. Por exemplo: ninguém acredita que o rufar de tambores tribais seja a causa do lançamento de foguetes. Ninguém acredita que decisões sobre alocações de recursos em fundos de investimento devam ser baseadas nos ciclos das marés (ou mesmo nos signos de qualquer horóscopo). No primeiro caso, preferimos ouvir os engenheiros. No segundo, os que levam a sério o estudo das finanças. 

Contudo, temos crenças menos racionais em outros momentos da vida: quando crianças, acreditamos que os presentes sob a árvore são obra de Papai Noel. Há também o Coelho da Páscoa e a Fada do Dente, para ficarmos apenas em alguns exemplos mais populares. Entretanto, ao longo da vida, aprendemos a acreditar em mecânicos para o conserto de carros ou em médicos para checarmos a saúde. Você poderia pensar, então, que haveria pouco espaço para irracionalidades após uma certa idade, certo? 

Bem, mais ou menos. Há situações em que não sai caro ser irracional. Por exemplo, se você é um padeiro e diz por aí que acredita em discos voadores, isso provavelmente não terá tanto impacto na venda de pães quanto teria se você dissesse que acredita que são duendes que abrem sua padaria às seis e meia da manhã. Quando se perde dinheiro com a irracionalidade, ela tende a ser menos manifestada. Como disse o criador do conceito de irracionalidade racional, o prof. Bryan Caplan, do departamento de economia da George Mason University, também aqui existe uma lei de demanda.

Na sociedade atual, cuja vida ocorre quase integralmente em redes sociais, há pessoas trabalhando arduamente para diminuir os custos de você se desviar da racionalidade. Isso mesmo. Vários influenciadores, nas redes sociais, repetem à exaustão mentiras sobre temas que são caros às pessoas. Em busca de monetização, difundem conteúdos que vão da negação do Holocausto à normalização de ditaduras, para ficar nos exemplos mais simples. As redes sociais criaram este subgrupo de vendedores de conteúdo que se pretendem “intelectuais”. 

A classe intelectual, como já foi dito por Paul Johnson, Thomas Sowell e outros, busca prestígio no mercado das ideias e a radicalização, por exemplo, é uma estratégia útil para se conseguir seguidores. Ao contrário da piada contada por Groucho Marx, nas redes sociais, jovens solitários estão loucos para serem aceitos em clubes que os aceitem como sócios. Intelectuais, como todos nós, querem ser amados. Sua versão moderna e menos intelectual, os “influenciadores”, também querem ser amados (principalmente se o amor vier com a monetização), só que leem e estudam menos os assuntos que difundem.

A situação é um pouco pior no caso brasileiro, pois o nível de analfabetismo funcional, por aqui, é elevado. Deste modo, a sociedade não só sabe pouco das possibilidades culturais que poderia alcançar, como se deixa guiar por influenciadores cuja musculatura intelectual é limitada. Os debates podem até ter boa retórica, mas o conteúdo das conversas raramente sai da superficialidade. Você pode me dizer que o cenário não é tão ruim, pois existe a concorrência de outros influenciadores que genuinamente se preocupam com a busca pela verdade, o que alivia um pouco este cenário. É verdade, a competição pelas ideias tem sido sabotada por movimentos pela “limitação do humor”, pela “limitação da liberdade de expressão” etc. 

Não raramente, vários destes “moralistas” desrespeitam todos estes limites em sua vida privada e alguns têm ganhado influência em órgãos responsáveis por regulações ou políticas públicas, distorcendo até mesmo o significado do que é ou não “científico”. A Ciência relativizada transforma-se em pura retórica, distorcendo o próprio consenso dos especialistas, que é a base da racionalidade. E estas, espalhadas por aí, são o insumo básico usado pelas inteligências artificiais generativas. Ainda que haja algum tipo de curadoria, há sempre o risco de termos programadores que usam a tecnologia como uma ferramenta para avançar sua agenda anticientífica a troco de algum dinheiro.

É cada vez mais racional ser irracional. O mais preocupante é que se faz isto em nome da Ciência ou do Progresso, quando, na verdade, a agenda oculta é uma na qual se busca o poder de calar seu oponente… “em nome da democracia”, ou de poder perseguir injustamente…”em nome da justiça”. 

Qual a solução? Passa por dois pilares: primeiro, pela tolerância com quem pensa diferente. A tolerância é uma característica que mercados incentivam, pois o consumidor é quem lhe paga pelo produto, seja ele homem, mulher, branco, negro etc. Em segundo lugar, por uma vigilância constante contra aqueles que buscam incentivar a irracionalidade na sociedade. Não uma vigilância centralizada, própria das ditaduras, mas uma descentralizada como nas ótimas “notas da comunidade” do X, antigo Twitter.

Não é uma tarefa fácil.