Educação financeira (maxkabakov/Thinkstock)
Instituto Millenium
Publicado em 12 de janeiro de 2026 às 20h22.
Durante muitos anos, os brasileiros mantiveram seus recursos nos grandes bancos, concentrados em ativos de renda fixa, geralmente atrelados à taxa Selic ou ao índice de preços (IPCA). O histórico de inflação elevada, baixo crescimento econômico e juros altos sempre foi propício para esses investimentos.
A educação financeira precária e o viés local (home bias) sabotam as pessoas ao fazê-las acreditar que estão mais seguras investindo em bancos e produtos conhecidos. A regulação e a falta de acesso à tecnologia restringiram o brasileiro de investir globalmente, mas essa realidade está mudando.
O Banco Central divulgou o saldo negativo de US$ 33,3 bilhões em 2025, marcando a maior saída de recursos do país em seis anos e o segundo pior resultado desde 1982. O cenário político e econômico é extremamente relevante na mudança de comportamento do investidor brasileiro.
A busca por investimentos internacionais e o envio, pelas pessoas, de cada vez mais recursos para fora do país exerceram pressão no mercado local, que perdeu esse dinheiro enviado para o exterior. Essa concorrência fez o Brasil evoluir com a criação de mais produtos financeiros, dentre os quais destacam-se os Exchange Traded Funds (ETFs), os fundos de gestão passiva, negociados na bolsa de valores (B3).
Esses produtos são amplamente conhecidos e utilizados em países desenvolvidos, pois possibilitam alocar em praticamente todos os tipos de ativos, de maneira simples e extremamente eficiente em custos. Os ETFs têm taxas de administração relativamente mais baixas do que os fundos tradicionais, além de permitirem o resgate em dois dias úteis.
Por meio deles, é possível investir em ações de pequenas e grandes empresas do mundo inteiro, títulos de renda fixa públicos e privados, ouro, criptoativos, imóveis, semicondutores, urânio e diversos outros ativos, todos com exposição cambial.
Cada vez mais a exposição cambial se mostra importante na proteção patrimonial. Um estudo recente da Fundação Getulio Vargas (FGV) mostrou que o brasileiro precisa ter aproximadamente 16% da sua carteira investida em dólar para se proteger da variação do real, sendo que, atualmente, esse número está próximo de 4% em nível nacional.
Para fins de comparação, os investidores americanos têm em média 20% de ativos estrangeiros; para os europeus, esse número é ainda maior, chegando a 80% do patrimônio investido em ativos internacionais.
Investir em dólar não é apenas ter a moeda; é também ter ativos com potencial de valorização cotados em uma moeda mais forte. Aqui entra o papel relevante dos ETFs, ao permitirem que o brasileiro se torne um investidor global sem precisar, necessariamente, transferir recurso para o exterior.
O mercado financeiro brasileiro está cada vez mais integrado ao mercado global, e agora até os investidores com menor poder aquisitivo podem explorar essas soluções para proteger seu patrimônio da inflação brasileira, do risco fiscal e da desvalorização da nossa moeda. Além de, é claro, obter bons rendimentos, mesmo quando nossa economia vai mal.
Essas mudanças não se restringem a plataformas e estrutura do mercado financeiro como um todo. O investidor global enfrenta uma complexidade muito maior ao analisar diversos fatores de risco, envolvendo geopolítica, juros, inflação, crescimento econômico, legislação, tributação, governança corporativa e questões sociais e ambientais de diferentes países e regiões.
Nesse novo paradigma, cresce a importância de um planejamento financeiro estruturado, com foco na alocação de ativos mais robusta, abrindo caminho para gestores de patrimônio, softwares de análise, modelos quantitativos e inteligência artificial a fim de construir estratégias de investimentos que explorem o mercado global na sua potencialidade.
O desafio do mercado financeiro brasileiro é prover produtos e serviços que atendam às expectativas dos investidores, a fim de estancar a evasão de divisas. No lado do governo, o desafio é recuperar a credibilidade, providenciando segurança jurídica e um ambiente de negócios favorável às empresas, além da estabilidade econômica, via redução dos gastos e da dívida pública.
Gustavo Machado é Economista, fundador e diretor de Investimentos da Musa Capital e associado do Instituto de Estudos Empresariais (IEE).