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IA é a maior força democratizante do nosso tempo

Os mais ameaçados pela disrupção não são os trabalhadores braçais, mas os profissionais da elite urbana

 (Magnific/Reprodução)

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Instituto Millenium
Instituto Millenium

Instituto Millenium

Publicado em 2 de julho de 2026 às 21h06.

*Stefano Wigner Tremea, gestor de patrimônio e investimentos, Diretor Financeiro do IEE

 

Toda vez que uma tecnologia ameaça reorganizar o mundo, ressurge o mesmo coro de pessimistas. Quando o tear mecânico chegou, os luditas quebraram máquinas temendo o fim do trabalho. Quando a internet se popularizou, profetas do caos anunciaram o colapso de indústrias inteiras. Hoje, a inteligência artificial ocupa o banco dos réus, acusada de roubar empregos e aprofundar desigualdades. A história, porém, conta o oposto: cada uma dessas rupturas, longe de empobrecer a humanidade, multiplicou a riqueza e democratizou o acesso ao que antes era privilégio de poucos. A IA será a mais poderosa dessas ondas e, como as anteriores, é filha legítima do capitalismo.

Não é coincidência que as grandes revoluções tecnológicas das últimas décadas tenham nascido onde havia liberdade econômica. A internet, o smartphone e agora a IA emergiram do mesmo solo: economias que premiam o risco, protegem a propriedade e o capital, e permitem que indivíduos transformem ideias em produtos. Os modelos de IA mais avançados surgiram nos Estados Unidos, sustentados por mercados de capitais profundos e uma cultura empreendedora, e não por decreto de algum ministério do planejamento. A Venezuela tem petróleo, universidades e engenheiros. O que não tem é o ambiente de liberdade que faria florescer a inovação. A diferença entre criar o futuro e implorar por alimentos básicos não está nos recursos naturais, mas na presença ou ausência de mercados livres. A IA não foi planejada de cima para baixo: ela nasceu da ordem espontânea de milhares de empresas, pesquisadores e investidores competindo, errando e acertando em liberdade.

Recentemente assisti a uma palestra do economista americano Tyler Cowen, especialista sobre a economia da IA, e um ponto dela me marcou. Para ele, a IA não vai eliminar os empregos, vai transformar a maioria deles. Mais provocador ainda, ele inverte a intuição comum sobre quem ganha e quem perde. Os mais ameaçados pela disrupção não são os trabalhadores braçais, mas os profissionais da elite urbana, advogados, consultores e analistas, cujo conhecimento especializado deixa de ser escasso. Os mais pobres, ao contrário, tendem a se beneficiar enormemente. Eis o ponto que os críticos teimam em ignorar: a IA é uma força profundamente niveladora.

Pense no que isso significa na prática. Um jovem de periferia, com um celular na mão, hoje tem acesso a um tutor incansável que explica matemática com mais paciência que muitos professores. Tem orientação jurídica que antes custava caro, um primeiro direcionamento médico que ajuda a decidir quando procurar um especialista, um consultor de negócios disponível a qualquer hora. O conhecimento, que sempre foi a barreira mais cruel entre as classes, está sendo derrubado. Não por uma política assistencialista, não por uma canetada de Brasília, mas pela mesma lógica de mercado que transformou o telefone, antes um luxo, num item presente no bolso de quase todo ser humano. É a liberdade econômica, novamente, cumprindo aquilo que nenhum programa estatal jamais entregou: emancipação.

O custo de empreender despenca quando uma única pessoa pode programar, projetar, redigir contratos e analisar dados com auxílio de máquinas. A IA coloca nas mãos do indivíduo ferramentas que antes exigiam diplomas, redes de contato e muito capital. Isso é a livre-iniciativa elevada à enésima potência, o indivíduo finalmente assumindo as rédeas do próprio futuro, sem depender da tutela de quem quer que seja.

Há, claro, desafios na travessia. O maior obstáculo, porém, não será a tecnologia, mas a lentidão das instituições em se adaptar. E é exatamente aqui que mora o perigo brasileiro. Nossa tentação histórica diante do novo é regular antes de compreender, taxar antes de incentivar, proteger o passado em vez de abraçar o futuro. Se sufocarmos a IA com burocracia e tributos sob o pretexto de "proteger empregos", repetiremos o erro de sempre: desperdiçar nosso próprio potencial.

A IA não é uma ameaça à liberdade, é um de seus frutos mais espetaculares. Ela prova, mais uma vez, que o progresso não nasce de planejadores centrais, mas de indivíduos livres operando em mercados livres. Cabe a nós decidir se seremos protagonistas dessa revolução ou se assistiremos a ela pela janela, paralisados pelo medo. Como sempre, a prosperidade virá não por causa do Estado, mas apesar dele, desde que tenhamos a coragem de deixar a liberdade trabalhar.