(Tomaz Silva/Agência Brasil)
Instituto Millenium
Publicado em 21 de junho de 2026 às 10h01.
*Por Dalai Oliveira
Quando o tema da educação domiciliar surge no debate público brasileiro, frequentemente ele é tratado como uma inovação radical ou uma ameaça à educação formal. Curiosamente, a história mostra exatamente o contrário: a educação domiciliar é mais antiga do que qualquer modelo de escola que conhecemos hoje.
Antes da consolidação dos sistemas escolares modernos, a instrução das crianças ocorria majoritariamente no ambiente familiar ou por meio de professores particulares. Durante o período colonial brasileiro, a educação era um privilégio restrito às famílias mais abastadas, cujos filhos recebiam instrução em casa por meio de religiosos ou tutores contratados. Em outras palavras, a educação domiciliar precede historicamente a escolarização em massa.
As primeiras instituições de ensino surgiram principalmente por iniciativa da Igreja Católica, especialmente após a chegada dos jesuítas em 1549. Posteriormente, já no Império, a criação do Colégio Pedro II, em 1837, representou um marco na consolidação da educação formal. Foi apenas ao longo dos séculos XIX e XX que o Estado passou a assumir progressivamente a responsabilidade pela educação da população, culminando no modelo atual de escolarização universal.
A linha do tempo é importante porque ajuda a desfazer um equívoco comum: a educação domiciliar não nasceu como alternativa à escola. Historicamente, ela veio antes da própria escola.
Ainda assim, o homeschooling tornou-se um dos temas mais controversos do debate educacional brasileiro. As famílias passaram a enfrentar processos por suposto abandono intelectual, mesmo em situações nas quais os filhos demonstravam desempenho acadêmico acima da média, hábitos sólidos de leitura e plena capacidade de socialização. Independentemente da posição que se adote sobre o tema, é difícil ignorar a contradição: enquanto o Estado questiona famílias que assumem diretamente a educação dos filhos, os resultados da educação tradicional seguem acumulando indicadores preocupantes.
Segundo os dados mais recentes do PISA, metade dos estudantes brasileiros não alcança níveis adequados de leitura para participação plena na sociedade contemporânea. Em matemática, a situação é ainda mais grave: 73% dos jovens permanecem abaixo do nível mínimo de proficiência definido pela OCDE. Paralelamente, dados do SAEB mostram que apenas 5,2% dos alunos da rede pública concluem o ensino médio com aprendizagem adequada em matemática.
Esses números revelam um problema que raramente recebe a atenção necessária. O principal desafio educacional brasileiro já não é o acesso à escola. O desafio é a aprendizagem.
Como professora, encontro dificuldade em aceitar que a simples frequência escolar seja tratada como sinônimo de educação. Se o objetivo da escola é promover aprendizagem, autonomia intelectual e preparo para a vida adulta, precisamos ter coragem de avaliar o sistema pelos seus resultados e não apenas por suas intenções. Em um país onde milhões de jovens concluem a educação básica sem dominar competências fundamentais de leitura e matemática, parece incoerente direcionar grande parte do debate público para famílias que optam por caminhos alternativos de ensino, enquanto a crise de aprendizagem permanece em segundo plano.
Isso não significa ignorar a importância da escola tradicional. Para a imensa maioria das famílias brasileiras, ela continua sendo o principal espaço de acesso à aprendizagem, socialização e construção de oportunidades. A escola foi uma das instituições mais importantes para a democratização do conhecimento ao longo da história. Reconhecer seus méritos, porém, não exige ignorar suas limitações. Nenhuma instituição melhora quando é colocada acima do debate ou imune a questionamentos.
Longe de afirmar que a educação domiciliar seja a solução para os problemas educacionais brasileiros; o país é diverso demais para acreditarmos em soluções únicas. O que os dados sugerem, porém, é que o modelo tradicional não deve ser tratado como intocável.
Em vez de transformar o debate sobre homeschooling em uma disputa ideológica, talvez seja mais produtivo encará-lo como uma reflexão sobre liberdade educacional, participação familiar e pluralidade de modelos de ensino. Afinal, se o objetivo é garantir que crianças aprendam, desenvolvam autonomia intelectual e ampliem suas oportunidades de vida, o foco deveria estar menos no local onde a aprendizagem acontece e mais nos resultados que ela produz.
A história nos lembra que a educação existia antes da escola. Os desafios do presente talvez exijam que sejamos capazes de imaginar que ela também possa assumir formas diferentes no futuro.
*Dalai Laksme Dev Oliveira é licenciada em Matemática, graduada em Gestão Financeira e pós-graduanda em Neuropsicopedagogia.