Instituto Millenium
Publicado em 30 de abril de 2026 às 21h30.
Por Gabriela De Nigris*
Dois números resumem o dilema fiscal brasileiro. No cenário em que o governo cumpre suas metas, o Tesouro Nacional projeta dívida bruta de 88% do PIB em 2035. Mas se as expectativas do mercado para juros e crescimento se confirmarem, esse número sobe para 115,4% do PIB1. O número é grande, mas o que ele revela não é novidade. O Brasil tem uma relação antiga e familiar com a dívida. Endividar para crescer virou, ao longo das décadas, algo próximo de uma política de Estado, não declarada, mas praticada com consistência.
Nos anos 1970, foi a dívida externa que financiou o II PND, crédito estatal farto, investimento pesado em infraestrutura e insumos básicos, com a aposta de que o crescimento pagaria a conta. Quando os juros externos explodiram com o “choque Volcker” no início dos anos 1980 e a conta chegou, o governo converteu dívida externa em dívida interna: comprou dólares das exportadoras emitindo títulos públicos para pagar os credores externos. Preso num ciclo de refinanciamento contínuo, pagava juros cada vez mais altos para rolar essa dívida interna.
O preço veio em inflação crescente e recessão, e a população o pagou por duas décadas. Em 1994, o Plano Real interrompeu esse ciclo com uma lógica clara: ajuste fiscal como condição para moeda forte.
Desde então, o problema mudou de forma, mas não de essência. A inflação dos anos 1980 destruía renda de forma visível e imediata, insuportável o suficiente para ser enfrentada. O problema fiscal de hoje é mais paciente. Não aparece nos preços. Aparece no crédito que encarece, no investimento que recua, no crescimento que decepciona. É um imposto invisível sobre o setor produtivo. O mecanismo tem nome técnico: crowding out.
Para entender como funciona, pense numa analogia: a economia é um aquário. A água dentro do tanque é a poupança doméstica, ou seja, todo o dinheiro disponível no país para ser investido em empresas, máquinas e empregos. Os peixes são as empresas, que precisam dessa água para nadar, crescer e contratar. Agora coloque uma esponja gigante dentro do aquário. Essa esponja é o Estado quando se endivida além do razoável: ela absorve a água da sociedade para financiar a si própria, e os peixes ficam sem espaço.
Com que estranha naturalidade convivemos com taxas de juros que seriam mortais em outros países? Se o governo, devedor mais seguro do país, cobra 14,75%, nenhuma instituição financeira vai emprestar ao setor privado por menos do que isso. O custo do crédito sobe para 20%, 30%, 40%. A expansão não acontece, projetos são cancelados, os empregos não são gerados, e a poupança nacional, em vez de financiar tecnologia e inovação, é absorvida para rolar a dívida do Estado.
O resultado aparece nas estatísticas: ao final de 2025, as empresas brasileiras encerraram o ano com R$ 213 bilhões em dívidas e a inadimplência corporativa no maior patamar já registrado, segundo a Serasa Experian.
O custo desse ambiente fiscal não para nas empresas. Segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC) da CNC3, em março de 2026, 80,4% das famílias brasileiras estavam endividadas, o maior nível da série histórica. Quase 30% tinham dívidas em atraso, e 12,3% declararam não ter condições de pagá-las. E o crédito que financia esse endividamento é significativamente mais caro para quem tem menos poder de negociação: enquanto empresas tomam crédito livre a cerca de 24% ao ano, famílias pagam em média 57%.
Mas então qual seria a saída? Aqui mora um paradoxo que alimenta décadas de hesitação. Cortar gastos de forma abrupta provoca recessão, comprime a demanda, derruba a arrecadação e pode piorar a própria trajetória da dívida. A resposta, porém, não está na escolha entre ajustar ou não ajustar, está na credibilidade do compromisso. Um governo que sinaliza de forma consistente que vai respeitar seus limites fiscais reduz o prêmio de risco, derruba os juros e abre espaço para o crescimento sem precisar de choque.
O arcabouço fiscal existe. O teto de gastos existiu. Regras não faltam, o que falta é o compromisso de respeitá-las quando o custo político aparece. Cada vez que o governo encontra uma brecha, uma exceção, uma despesa fora do limite, ele sinaliza ao mercado que a regra é negociável. E mercado que recebe esse sinal cobra o prêmio de risco correspondente, nos juros, no câmbio, no crédito.
Enquanto o Estado ocupar o espaço que deveria ser do investimento privado, os juros serão altos, o crédito será caro, as famílias se endividarão para consumir o básico e as empresas cancelarão os projetos que gerariam os empregos de amanhã.
A pergunta não é se o Brasil pode pagar a conta. É quanto tempo ainda vamos adiá-la, e quem vai pagá-la no lugar.
*Gabriela De Nigris é membro da equipe econômica da Confederação Nacional do Comércio (CNC) e Alumna do American Enterprise Institute (AEI).