A startup brasileira de travel tech busca simplificar, automatizar e tornar mais eficientes os serviços ligados a viagens e turismo (Acervo Pessoal)
Instituto Millenium
Publicado em 20 de janeiro de 2026 às 00h17.
Você já se irritou com um site de companhia aérea? Já perdeu tempo preenchendo formulários intermináveis, comparando preços em dezenas de abas, para no fim esbarrar em um erro que o obrigou a recomeçar do zero? Para milhões de pessoas, comprar uma passagem ainda é um processo caro, opaco e frustrante.
Foi exatamente dessa dor cotidiana que nasceu a Passabot — uma startup brasileira de travel tech, segmento que reúne empresas de tecnologia voltadas a simplificar, automatizar e tornar mais eficientes os serviços ligados a viagens e turismo. No caso da Passabot, a proposta é atacar um problema antigo com uma abordagem radicalmente nova: usar inteligência artificial para transformar toda a experiência de compra de passagens em uma conversa simples, direta e intuitiva pelo WhatsApp.
Fundada por Leonardo Piana, Alan Barbosa e Fernando Santos, estudantes bolsistas do Insper e do ITA, a Passabot não apenas simplificou um setor marcado por sistemas ultrapassados e interfaces complexas, como também cresceu em ritmo acelerado, conquistando milhares de usuários, validando seu modelo de negócios desde o primeiro dia e atraindo a atenção de investidores e programas internacionais de inovação
Antes mesmo desta entrevista, a plataforma foi testada pela equipe do Instituto Millenium, que aprovou a experiência: da busca à emissão da passagem, tudo acontece de forma fluida, rápida e sem fricções — exatamente como a proposta da startup promete.
Nesta entrevista, conversamos com Leonardo Piana, um dos fundadores da Passabot, sobre a origem da ideia, os diferenciais tecnológicos da plataforma, os desafios de empreender no Brasil e o caminho que levou a startup a figurar entre as iniciativas de maior potencial global no setor de travel tech.
Instituto Millenium: A Passabot surgiu de alguma experiência ruim em compra de passagens? Qual problema do cliente ela resolve?
Leonardo Piana: A Passabot nasceu de uma dor real dos próprios fundadores. Todos atravessamos o país para estudar como bolsistas, no Insper e no ITA, e com isso precisávamos voltar para casa com frequência. Comprar passagens aéreas, porém, era sempre um processo longo e frustrante: muitos dias pesquisando, comparando preços em diversos sites e aplicativos, com pouca transparência e muita fricção. A Passabot surge justamente para eliminar esse esforço, simplificando radicalmente a busca e a compra de passagens.
IM: Em que momento vocês perceberam que a ideia poderia se tornar uma startup com potencial global no setor de travel tech?
LP: Esse momento ficou muito claro quando estivemos no Vale do Silício, em setembro, na primeira experiência internacional dos fundadores. Apresentamos a Passabot em ambientes como Berkeley e Stanford e percebemos que nossa tecnologia não deixava nada a desejar em relação ao que estava sendo desenvolvido lá. Além disso, ouvimos de moradores da região perguntas espontâneas como “Já consigo usar?”, ou “Preciso de uma passagem agora, mas não sei um bom jeito de comprar”. Aquilo foi um forte sinal de que o problema era global, e a solução também.
IM: Entre tantas soluções no mercado de turismo, o que torna a tecnologia da Passabot realmente diferente?
LP: Somos a primeira IA do mundo a realizar todo o fluxo de compra de passagens, da cotação à emissão, em linguagem natural e diretamente pelo WhatsApp, seja por texto ou áudio. O usuário não precisa aprender a usar uma nova interface nem navegar por múltiplas telas. No Brasil, em especial, o mercado ainda é muito baseado em sistemas legados, com tecnologias que estão anos, ou até décadas, atrás do que já é possível fazer hoje.
IM: A plataforma é gratuita para o usuário final. Há um modelo de monetização da Passabot?
LP: A plataforma é gratuita para o usuário, mas monetizamos desde o dia zero. Como todos os fundadores vêm de uma origem simples, não tínhamos capital próprio, nem investimento no início, então a operação sempre precisou se sustentar sozinha.
O modelo funciona de forma relativamente simples. Temos acordos comerciais com empresas do setor de turismo, que negociam diretamente com as companhias aéreas, comprando passagens em atacado e, por isso, com preços mais baixos do que os praticados no varejo pelas próprias companhias. Com isso, conseguimos oferecer ao usuário um valor competitivo e ainda capturar margem nessa diferença.
Além disso, também recebemos comissão sobre as passagens vendidas, por atuarmos como mais um canal de distribuição para esses parceiros. Ou seja, o usuário não paga para usar a Passabot, mas temos um modelo de monetização claro e funcionando desde o início. A captação veio para acelerar o crescimento, que seria limitado sem isso.
IM: Vocês foram selecionados entre as 12 startups de travel tech com maior potencial no mundo. Pode falar um pouco sobre essa seleção?
LP: Fomos selecionados para o Madeira Startup Retreat, um programa apoiado pelo governo de Portugal. O que mais pesou foi o nosso nível de tração: construímos uma base de mais de 20 mil usuários em menos de um ano, vendemos mais de 2,5 milhões de reais em passagens e realizamos uma captação com investidores relevantes do mercado, tudo isso ainda durante a faculdade. Esse conjunto chamou a atenção dos avaliadores. Para nós, essa seleção representa o início de um movimento natural e definitivo de internacionalização da Passabot, com o desafio de entender novos mercados, parceiros e culturas de viagem.
IM: Na sua opinião, quais são os principais desafios para startups brasileiras competirem em pé de igualdade com empresas de tecnologia de outros países? O ambiente de negócios nacional é um entrave?
LP: O acesso à informação, em um país marcado por grandes desigualdades, é um dos principais desafios. Mesmo tendo estudado em instituições de ponta como o ITA e o Insper, muitas das decisões que tomamos exigiram uma dose de sorte para acessar conhecimentos que, em lugares como o Vale do Silício, são praticamente senso comum. Além disso, a burocracia e a complexidade do ambiente regulatório brasileiro dificultam bastante o desenvolvimento tecnológico. Por outro lado, algo que definitivamente não falta no Brasil é talento. Temos material humano de nível global e não ficamos atrás de nenhum país nesse aspecto.