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Como uma indústria inteira baixou o próprio preço sem que ninguém a obrigasse 

Mais transparência, informação e concorrência fizeram o mercado pressionar taxas para baixo

Ilustração representa os riscos de uma bolha de investimentos em inteligência artificial e de uma forte correção nos mercados financeiros

Ilustração representa os riscos de uma bolha de investimentos em inteligência artificial e de uma forte correção nos mercados financeiros

Publicado em 10 de setembro de 2026 às 21h12.

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*Leonardo Chagas 

 

Durante quase todo o século passado, quem contratava alguém para cuidar do próprio dinheiro estava comprando uma coisa bem específica: a promessa de ganhar mais do que ganharia sozinho. O profissional escolheria as ações certas, entraria e sairia na hora certa, e o cliente terminaria o ano à frente. Era uma promessa clara, fácil de entender e, o melhor de tudo, verificável em tese. Bastava comparar. 

Na prática, quase ninguém comparava, porque comparar era difícil. Faltava referência pública, faltava histórico organizado, e faltava a conta simples de descontar as taxas antes de decidir se aquilo tinha valido a pena. O cliente sabia que seu dinheiro havia rendido; não sabia se teria rendido mais parado num fundo qualquer que apenas acompanhasse o mercado. Era como avaliar um restaurante sem nunca ter comido em outro. 

Isso mudou. Quando os dados ficaram baratos e públicos, a promessa virou conferível, e o resultado da conferência foi ruim para quem vendia. Nos Estados Unidos, os fundos de ações de gestão ativa ficaram, na média ponderada pelo tamanho, cerca de 0,8% por ano abaixo de seus próprios índices de referência na década encerrada em 2024. Não é que os gestores sejam incompetentes. É que o mercado é formado por milhares deles competindo entre si, e o preço de qualquer ação já reflete o que esse conjunto pensa. Vencer o consenso de forma consistente, depois de custos, é raro, e distinguir sorte de habilidade leva mais anos do que a paciência da maioria das pessoas. 

O que aconteceu depois foi uma das maiores transferências de dinheiro de uma indústria para seus clientes que se viu em qualquer setor. Entre 2001 e 2023, a taxa média cobrada pelos fundos de ações americanos caiu de 0,97% para 0,34% ao ano. Nos de renda fixa, de 0,79% para 0,32%. A Vanguard, gestora que foi tanto causa quanto beneficiária dessa mudança, calculou que, mantidas as taxas antigas sobre o estoque atual de investimentos, os americanos pagariam algo como 116 bilhões de dólares a mais por ano. Isso aconteceu sem lei nova, sem nenhum escândalo e quase sem manchete. Foi o dinheiro se mexendo sozinho: nos quinze anos até 2023, os fundos de ações mais baratos captaram 1,77 trilhão de dólares, e todo o resto da indústria teve saída líquida. Não houve migração parcial. O fluxo inteiro foi para uma ponta só. 

A troca de mercadoria 

Uma indústria inteira não some porque seu produto principal foi desmentido. Ela troca de produto. Foi exatamente o que a Vanguard propôs em 2001, num documento que agora completa 25 anos e que ela publicou revisado. O argumento é honesto e, na minha leitura, também é correto: se o profissional de investimentos não consegue entregar retorno acima do mercado, que pare de vender isso e passe a vender aquilo que de fato está sob seu controle. Escolher uma carteira compatível com o prazo e o temperamento da pessoa. Pagar menos imposto. Rebalancear. E, acima de tudo, impedir que o cliente faça bobagem nos dois ou três momentos da vida em que ele está mais tentado a fazer, que são justamente os momentos em que tudo parece estar desabando ou subindo para sempre. 

A tese pegou. A indústria americana adotou. E é aqui que a coisa fica interessante, que é a razão de eu estar escrevendo sobre isso. 

Até 3% ao ano, com uma linha só medida 

Vale olhar de perto como esse novo valor é medido. A Vanguard organiza tudo numa tabela de oito linhas e chega a um número que virou slogan do setor: até 3% ao ano. Dessas oito linhas, exatamente uma tem valor preciso, que é o rebalanceamento, com 0,12%. Todo o resto vem em faixas largas ou em confissões de impossibilidade. Seleção de fundos, "de 0 a 100 pontos-base". Organização tributária, "de 0 a 60". O item mais importante de todos, o de segurar a mão do cliente na hora errada, aparece como "até 200 ou mais". Dois itens simplesmente não são medidos, com a nota de que o valor é significativo mas específico demais para cada pessoa. Em certo trecho, o texto resume a própria posição com uma frase que diz tudo: não precisamos ver o oxigênio para sentir seus benefícios. 

Ou seja: o setor trocou uma promessa verificável e majoritariamente falsa por uma promessa provavelmente verdadeira e quase inteiramente não verificável. 

Digo provavelmente verdadeira porque acredito que seja, e há evidência decente. O melhor dado do documento mostra como o dinheiro americano estava distribuído entre ações e renda fixa de 1993 até hoje. Nos primeiros vinte anos da série, a fatia em ações subia junto com o mercado e desabava junto com ele: 62% no auge de 2000, 36% no fundo do poço de 2009. Comprava-se caro e vendia-se barato, coletivamente, com regularidade quase mecânica. Nos últimos sete a dez anos isso parou. A alocação ficou estável atravessando duas quedas relevantes. 

Mas repare no que esse dado é e no que ele não é. Ele é agregado, ou seja, fala do comportamento de milhões de pessoas somadas. Nenhum investidor individual consegue observar o que teria acontecido com ele mesmo se tivesse feito diferente, e é exatamente sobre o indivíduo que a taxa é cobrada. A própria Vanguard escreve, com uma honestidade que merece registro, que ainda não se sabe se essa estabilidade é passageira ou permanente. O período em questão contém duas quedas curtas dentro do maior mercado de alta da história recente. Disciplina que nunca foi testada por três anos seguidos de perdas, como aconteceu entre 2000 e 2002, ainda não é disciplina comprovada. 

O Brasil está fazendo na ordem inversa 

No Brasil isso está acontecendo em ordem invertida. Lá fora, a mudança para o modelo de cobrança sobre patrimônio veio depois que o argumento antigo já tinha desmoronado. Aqui, a obrigação de mostrar ao cliente quanto o distribuidor ganha com cada produto chegou antes de a indústria ter reconstruído com clareza o que vende no lugar. Ficamos num período em que o preço está visível e a justificativa ainda está sendo formulada, o que produz tanto profissionalização genuína quanto discursos apressados. 

E há um agravante nosso. Com juros reais entre os mais altos do mundo por um período longo, vender disciplina no Brasil saiu de graça. Ninguém precisou de coragem, nem de conselho, para continuar aplicado em título público pagando dois dígitos. O serviço que a indústria diz prestar quase não foi cobrado em campo. Ele será, e não numa data que se possa agendar. 

Para quem lê isso de fora do setor, a consequência prática não é necessariamente sobre investimentos. É mais sobre como avaliar um serviço cujo resultado você nunca vai conseguir observar. A pergunta antiga, se bateu o mercado, morreu por bons motivos e não vai voltar. A que sobra é mais chata e mais útil: quanto custa no total, quem paga a pessoa que está falando comigo, e o que ela recomenda que eu não faça. Custo e incentivo são conferíveis. O que teria acontecido com você em outro caminho, não. 

Isso não é defeito exclusivo do mercado financeiro. O valor de um bom advogado está principalmente nos processos que você nunca teve, e o de um bom médico nas doenças que não apareceram. Finanças foram, por algumas décadas, a rara profissão cuja promessa central podia ser conferida num extrato. Perder isso foi um avanço, porque a promessa era falsa. Mas o que ficou no lugar exige do cliente um tipo de julgamento que ninguém o ensinou a fazer.