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Como a Estônia transformou o entulho soviético em liberdade

O contraste entre um Estado que trata cidadãos como adultos e outro que insiste em vê-los como suspeitos

 (	Alexander Spatari/Getty Images)

( Alexander Spatari/Getty Images)

Publicado em 5 de fevereiro de 2026 às 13h55.

Existe um cheiro muito específico nas repartições públicas brasileiras. É uma mistura de papel envelhecido, toner de impressora e café frio, mas o que realmente paira no ar é a densidade da desconfiança. No Brasil, o cidadão é culpado até que se prove o contrário, mediante um carimbo, uma autenticação em cartório ou uma certidão negativa que confirma que ele não deve nada ao Estado. Vivemos sob a égide da burocracia defensiva, onde o governo gasta rios de dinheiro para vigiar o indivíduo, e o indivíduo gasta sua vida provando que existe.

Quando olhamos para o nordeste da Europa, encontramos um espelho invertido dessa realidade. A Estônia, uma ex-república soviética que recuperou sua independência apenas em 1991, escolheu um caminho radicalmente oposto. Eles não tinham recursos, não tinham infraestrutura e, talvez por sorte, não tinham o vício de um funcionalismo público inchado e secular. O que eles fizeram não foi apenas "comprar computadores". Eles redesenharam a própria relação entre o indivíduo e o poder público.

O fim da peregrinação burocrática

Em Tallinn, a capital que hoje respira inovação, percebe-se algo que para nós, latinos apegados à formalidade do papel, soa como algo de outro mundo. Lá vigora um princípio chamado once-only. A lógica é elegante e respeitosa. O cidadão só precisa fornecer uma informação ao Estado uma única vez. Se você mudou de endereço e informou isso ao registro populacional, o sistema de saúde, o departamento de trânsito e a escola do seu filho já sabem. Não cabe a você ser o mensageiro de documentos entre guichês estatais que não conversam entre si. O Estado estoniano entende que os dados pertencem a você, e ele é apenas o guardião temporário dessas informações para lhe servir, não para lhe controlar.

A liberdade econômica como tática de sobrevivência

Essa fluidez e eficiência não veio do nada. Nasceu da escassez e da necessidade de sobrevivência. Ao sair das ruínas do comunismo, a Estônia era pobre e precisava ser eficiente. A solução foi apostar na liberdade econômica e na tecnologia como vetores de soberania. Eles privatizaram o que podiam, instituíram um imposto de renda fixo e baixo (o famoso flat tax) e abriram as portas para o comércio global, sem medo da competição. O resultado é que hoje um estoniano tem uma renda média três vezes superior à de um russo, seu vizinho que optou pelo caminho do autoritarismo e da centralização estatal.

Enquanto no Brasil temos que discutir a complexidade de um sistema tributário que parece ter sido desenhado por um sádico, a Estônia transformou a administração pública em uma plataforma de serviços invisível. Votar, declarar impostos, abrir empresas, acessar receitas médicas e até divorciar-se são atos digitais. A burocracia deixou de ser um muro de concreto para se tornar um fluxo de dados criptografados.

O fetiche do controle travestido de inovação

No Brasil, o carimbo e a firma reconhecida funcionam como totens de uma verdade que só se materializa sob a tutela estatal. O peso físico do papel simboliza uma relação de vassalagem onde a autenticidade nunca reside no indivíduo. Já o caminho adotado pelos estonianos inverte essa lógica ao retirar o poder de validação de um balcão físico e devolvê-lo ao cidadão via tecnologia. A transparência do sistema, onde cada acesso aos dados deixa um rastro auditável, serve menos como uma conveniência tecnológica e mais como um mecanismo de defesa contra o arbítrio, algo que por aqui não temos nem coragem de sonhar.

Confundimos frequentemente modernização com a mera digitalização de processos arcaicos. O êxito observado em Tallinn não decorre do software em si. Decorre de um desenho institucional voltado para reduzir custos de transação. Enquanto eles utilizaram o código para eliminar intermediários, o Brasil corre o risco de usar a tecnologia para tornar a burocracia onipresente. Ter um aplicativo governamental que exige o upload da foto de um documento físico carimbado é o suprassumo da ineficiência travestida de inovação. A ferramenta muda. A mentalidade de desconfiança e controle permanece intacta e operando agora em escala industrial.

É claro que Tallinn e seus arredores não são o paraíso na Terra, livre de problemas. Existem desafios reais sobre lavagem de dinheiro, justamente pela facilidade de abrir negócios, e debates profundos sobre privacidade em um mundo de vigilância constante. Ainda assim, a postura diante do problema é o que diferencia o sucesso do fracasso. Eles ajustam as velas mantendo o curso da liberdade e da confiança no indivíduo.

Súditos suspeitos ou adultos responsáveis?

O Brasil precisa urgentemente olhar para esse exemplo, não para copiá-lo cegamente, mas para entender o espírito da coisa. O nosso atraso não é tecnológico, pois temos excelentes programadores e sistemas bancários invejáveis. O nosso tipo de atraso é o mental e o moral. Nós ainda acreditamos que o Estado precisa tutelar cada passo do empreendedor e do indivíduo comum. Acreditamos que a segurança jurídica vem de um pedaço de papel carimbado por um tabelião, e não da clareza das leis e da agilidade da justiça.

A Estônia nos ensina que um país pequeno, sem recursos naturais abundantes e com um passado traumático pode se tornar um gigante em qualidade de vida, simplesmente por tratar seus cidadãos como adultos responsáveis e não como súditos suspeitos. A riqueza deles não vem do solo, nem da impressora de dinheiro do banco central. A riqueza vem da capacidade humana de criar, inovar e trocar valor livremente.

Para o brasileiro, que gasta em média 1.500 horas por ano apenas para pagar impostos de sua empresa, olhar para a Estônia causa uma inveja doída. Mas deveria causar inspiração. A liberdade funciona. A confiança gera prosperidade. E a tecnologia, quando usada para libertar em vez de controlar, é a maior ferramenta de ascensão social que existe. Esse foi o caminho que a Estônia escolheu até aqui.