(Leandro Fonseca/Exame)
Instituto Millenium
Publicado em 5 de agosto de 2026 às 13h48.
Rodrigo Villa Real Mello, economista e associado do Instituto de Estudos Empresariais (IEE)
Muito se tem falado sobre os 250 anos da Declaração de Independência americana. Pouco se menciona que, no mesmo ano de 1776, outro evento marcou igualmente o curso da história. Em 9 de março daquele ano, o filósofo e economista escocês Adam Smith publicava A Riqueza das Nações. Os americanos fundaram um país. Adam Smith fundou a ciência econômica e fez uma pergunta que segue em aberto até hoje: por que algumas nações prosperam enquanto outras permanecem presas ao próprio potencial? O Brasil conhece bem essa pergunta.
Adam Smith identificou três causas fundamentais do enriquecimento das nações: a divisão do trabalho, a livre coordenação dos mercados e a importância da produção e das trocas. Para ilustrar a primeira, o autor contou a história de uma produção de alfinetes. Um trabalhador isolado mal produziria vinte alfinetes por dia. Dez trabalhadores especializados, cada um responsável por uma etapa do processo, podiam produzir 48 mil. A especialização não era apenas uma técnica, era o mecanismo pelo qual o trabalho humano se tornava exponencialmente mais produtivo. Disso derivou o conceito que atravessaria séculos: quando indivíduos livres buscam seus próprios interesses em um mercado competitivo, a soma dessas decisões individuais produz bem-estar coletivo. A mão invisível não é um conceito abstrato, é a coordenação espontânea por meio de preços e concorrência.
Smith foi igualmente enfático sobre o que destrói a riqueza das nações: a intervenção estatal excessiva, o protecionismo e os monopólios. Escreveu contra o mercantilismo com a mesma precisão com que descreveu o livre mercado, alertando que cada vez que o governo concede privilégios a grupos específicos em detrimento da concorrência, o resultado é sempre o mesmo: menos eficiência, menos inovação e menos prosperidade para o conjunto da sociedade. Lendo Smith em 2026, é impossível não sentir que ele conhecia o Brasil antes de o Brasil existir.
Somos um país que avança em ciclos positivos, mas não consolida. Um país que sabe identificar os diagnósticos, mas não executa a solução. A carga tributária brasileira ultrapassa 33% do PIB, uma das mais altas entre economias emergentes, mas não se traduz em infraestrutura, educação ou segurança equivalentes.
O ambiente de negócios segue entre os mais burocráticos do mundo: abrir uma empresa no Brasil ainda consome tempo e energia que deveriam estar sendo investidos em produzir. O mercado de crédito, concentrado em quatro grandes bancos, pratica spreads que tornam o custo do capital um obstáculo real à formação de novos negócios. Smith já havia explicado esse mecanismo: monopólios e crédito caro são impostos invisíveis sobre o empreendedorismo. Limitam o crescimento econômico.
A divisão do trabalho que Smith celebrou pressupõe mercados amplos e integrados. O Brasil tem território continental, mas infraestrutura de país pequeno. O custo logístico corrói a competitividade antes mesmo de o produto chegar ao mercado. A especialização produtiva que gera riqueza, a mesma que transformou Coreia do Sul, Singapura e Taiwan em potências industriais nas últimas décadas, exige que o capital flua para onde é mais produtivo. No Brasil, ele flui para onde a tributação é menor, para onde a regulação não alcança ainda, ou simplesmente não flui.
Inclusive, nosso pacto federativo redistribui o capital de regiões produtivas para regiões menos eficientes – alimentando incentivos para a ineficiência.
O problema brasileiro não é a existência do Estado, mas sua configuração. Um Estado que consome mais de um terço do PIB em tributos deveria, em tese, entregar infraestrutura, educação e segurança jurídica à altura desse custo. Quando esses retornos ficam abaixo do esperado, o resultado é um duplo ônus para o setor produtivo: paga-se pelo Estado e paga-se novamente para suprir o que ele não entrega. Adam Smith chamaria isso de alocação ineficiente de recursos, uma distorção que se acumula silenciosamente ao longo de décadas e que explica, em boa medida, por que economias com características semelhantes ou inferiores às do Brasil produziram resultados muito superiores.
Duzentos e cinquenta anos depois, a pergunta de Smith permanece a mais relevante que qualquer formulador de política econômica poderia se fazer. Por que algumas nações prosperam enquanto outras permanecem presas ao potencial? A resposta não é mais um mistério. Conhecemos a solução. O Brasil simplesmente ainda não decidiu aplicá-la.