Colunistas

A ocupação de espaços formadores de opinião

Educação, mídia, cultura e redes sociais operam de modos distintos para a formação do senso comum

 (We Are/Getty Images)

(We Are/Getty Images)

Instituto Millenium
Instituto Millenium

Instituto Millenium

Publicado em 25 de maio de 2026 às 21h05.

Por Deyvid Correa da Silva

 

Há uma ilusão muito persistente no debate público: a de que o futuro se decide apenas nas instâncias formais do poder. Como se bastasse conquistar cargos, disputar eleições e vencer votações. Tudo isso importa, claro. Mas isso importa menos do que parece quando se abandona o terreno em que as percepções se formam antes de se tornarem opinião. O poder formal, muitas vezes, chega tarde, quando a sensibilidade coletiva já está moldada. Quem não ocupa os espaços de formação acaba, cedo ou tarde, reagindo a ideias que já chegaram prontas ao imaginário das pessoas.

Esses espaços são muitos, mas convém organizá-los melhor. Há os espaços da educação, como escolas, universidades e salas de aula; os da mídia, como jornais, editoras, canais e podcasts; os da cultura, como filmes, séries, palcos, livros e referências simbólicas; e os das redes, onde a repetição rápida transforma impressão em convicção. Cada um opera de modo distinto, mas todos participam da mesma obra silenciosa: a formação do senso comum. É ali que determinadas narrativas vão deixando de parecer opinião para assumir aparência de evidência.

O Brasil conhece bem esse processo. Há ideias que se tornaram dominantes, não porque venceram grandes debates públicos, mas porque se instalaram com paciência nesses ambientes de formação, até parecerem naturais, óbvias, inevitáveis. Influência duradoura nasce menos do impacto imediato do que da repetição cultural. O que hoje parece senso comum, ontem foi disputa; e o que ontem foi disputa quase sempre venceu não pelo grito, mas pela persistência.

Por isso, quando se fala em ocupar espaços, é preciso evitar um mal-entendido. Ocupar não é aparelhar. Não se trata de capturar ambientes de forma autoritária, mas de construir presença qualificada, pluralidade e disputa legítima de ideias. A força do argumento não está em defender uma substituição de hegemonias, mas em afirmar que nenhum espaço formador deveria ser abandonado à uniformidade intelectual. Ausência não é virtude; é concessão.

Também por isso não basta reclamar do que já está posto. A crítica, quando não vem acompanhada de construção, é apenas desabafo com boa dicção. O caminho está em formar presença: professores que ensinem com liberdade, comunicadores que falem com clareza, intelectuais que escrevam sem afetação, artistas que não tenham medo do país real e lideranças capazes de tratar ideias sérias em linguagem compreensível. Influência duradoura não se improvisa; cultiva-se.

Talvez esta seja uma das lições mais importantes do nosso tempo: o futuro não pertence apenas a quem reage melhor, mas a quem forma melhor. Ocupar espaços de opinião não é capricho estratégico; é tarefa de longo prazo para quem entendeu que uma sociedade não muda só por decreto, nem só por voto. A opinião pública raramente se transforma de uma vez; ela se sedimenta aos poucos, até que aquilo que antes parecia estranho comece a parecer verdadeiro e, depois, necessário. É assim que as gerações se formam ou se perdem.