(Getty Images)
Instituto Millenium
Publicado em 26 de agosto de 2026 às 18h59.
*Felipe Modesto, segundo lugar no concurso Millenium Writing Challenge 2026
Costumamos medir a desigualdade global pela renda. Observamos que americanos ganham mais do que brasileiros e que europeus possuem rendimentos superiores aos latino-americanos. Também analisamos a produção das nações: o PIB absoluto da Alemanha supera o do Brasil, apesar de sua população e território serem significativamente menores. Mas talvez estejamos olhando para a consequência, e não para a causa. A desigualdade mais importante do século XXI pode não ser a de riqueza, mas de talentos. Em uma economia globalizada, profissionais qualificados podem escolher onde viver, trabalhar e empreender. Alguns lugares do mundo compreenderam isso e se tornaram verdadeiros ímãs de capital humano.
Durante grande parte da história, as nações competiram por terras, recursos naturais e capacidade industrial. Hoje, a competição ocorre em um nível diferente. Países e cidades disputam profissionais altamente produtivos de todas as áreas e níveis educacionais. O talento tornou-se um recurso globalmente móvel. Não por acaso, governos ao redor do mundo vêm criando vistos especiais para trabalhadores qualificados, programas de atração de empreendedores, ensino de idiomas e incentivos para pesquisadores estrangeiros. A prosperidade moderna depende cada vez mais da capacidade de atrair e reter capital humano.
Pessoas talentosas concentradas em determinados lugares não apenas aumentam a produtividade local, mas também criam empresas, desenvolvem tecnologias, formam equipes, atraem investimentos e geram oportunidades para outros. O resultado é um círculo virtuoso: talentos atraem talentos. Regiões como o Vale do Silício, Shenzhen, Singapura ou alguns dos principais centros urbanos europeus tornaram-se polos globais justamente por sua capacidade de concentrar indivíduos altamente qualificados e oferecer ambientes favoráveis à inovação.
Um estudo do National Bureau of Economic Research concluiu que, embora os imigrantes representassem apenas 16% dos inventores nos Estados Unidos entre 1990 e 2016, eles foram responsáveis, diretamente por 25% da inovação produzida no país. Ao interagirem com inventores americanos, os imigrantes geraram efeitos positivos de difusão de conhecimento e colaboração, ampliando a capacidade inovadora de todo o ecossistema. Devido a esse efeito em cadeia indireto, cerca de 32% da inovação dos Estados Unidos pode ser atribuída justamente a essa minoria dos estrangeiros qualificados. A economista Petra Moser também relatou em pesquisa que o fluxo de judeus migrantes após a expulsão da Alemanha nazista foi associado a um aumento de 71% nas patentes em química nos Estados Unidos, devido aos cientistas acolhidos.
Esses números demonstram a importância da liberdade geográfica, não apenas para as pessoas que migram em busca de uma vida melhor, mas também para o próprio país que os hospeda. De acordo com a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), seis a cada dez imigrantes na Austrália possuem ensino superior, enquanto que apenas quatro a cada dez nascidos no mesmo país têm o mesmo nível educacional. Entre os países fora da OCDE, o Brasil é o país com o segundo maior número de emigrantes com ensino superior. Vale ressaltar, porém, que a excelência está presente em todos os tipos de trabalho e níveis educacionais. A qualidade não tem preconceitos.
O outro lado desse fenômeno, no entanto, é a perda de capital humano enfrentada pelos países de origem. Os migrantes de excelência beneficiam os países de destino, mas sua capacidade de inovar e empreender é perdida pelos países de onde partiram. Há uma crescente saída de profissionais qualificados em busca de melhores oportunidades econômicas, qualidade de vida e ambientes de negócio mais favoráveis às carreiras e projetos individuais. Países que investem na formação de pessoas produtivas sem oferecer condições satisfatórias para que elas desenvolvam plenamente seu potencial, fazem com que parte significativa desse investimento seja capturada pelos países desenvolvidos que oferecem aos trabalhadores melhores condições de vida.
Diante desse cenário, o debate público constantemente faz a pergunta errada. Costuma-se questionar por que tantos brasileiros desejam ir embora. Mas a pergunta mais importante é outra: por que os melhores profissionais do mundo ainda preferem outros lugares em vez de virem para cá? A resposta passa menos por políticas de retenção e mais pela criação de ambientes onde esforço e talento sejam recompensados. Liberdade econômica, estabilidade institucional e jurídica, cidades funcionais, segurança, infraestrutura, poder de compra digno, oportunidades de empreendedorismo e integração com a economia global são fatores que influenciam diretamente a escolha de onde viver e trabalhar.
Se o Brasil deseja reduzir sua distância em relação às economias mais desenvolvidas, precisa compreender que a competição global do século XXI é, antes de tudo, uma competição por talentos. O objetivo não deve ser impedir que brasileiros busquem oportunidades em outros lugares, mas construir um país capaz de atrair e reter pessoas de excelência, vindas do mundo inteiro. Na economia do conhecimento, a verdadeira riqueza das nações não está apenas no capital que acumulam, mas nas pessoas que escolhem contribuir para seu futuro. É por isso que a nova desigualdade global não é de riqueza, mas de talentos.
*Felipe Camolesi Modesto é estudante de Arquitetura e Urbanismo, com formação complementar em eletrônica, projetos mecânicos, administração e humanidades.