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A IA vai avançar até onde a infraestrutura permitir

A próxima fronteira da inteligência artificial deixou de ser só algorítmica — e isso está longe de ser abstração

 (Getty Images)

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Instituto Millenium
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Instituto Millenium

Publicado em 20 de maio de 2026 às 00h38.

*Diego Penna Moreira, Conselheiro do IFL-SP e fundador da Lumnia

 

Num jantar, há algumas semanas, um amigo ligado ao setor elétrico disse uma frase que não me saiu da cabeça: “o gargalo da IA no Brasil não está em São Francisco, está em Cabreúva.” Ele falava de um projeto de data center que arrastava quase onze meses de fila por causa de um transformador. Achei exagero. Olhei os números depois, e recuei.

Por algum tempo, a inteligência artificial foi vendida como se morasse apenas na nuvem. O vocabulário ajudou. Nuvem soa leve, quase de graça. Mas a nuvem não flutua — ocupa terreno, puxa linha de transmissão, bebe água de refrigeração, depende de chips absurdamente complexos e cruza o Atlântico dentro de cabos submarinos enterrados em sedimento.

A próxima etapa dessa tecnologia vai se decidir mais na engenharia pesada do que em slogans. Modelo melhor segue importando, claro — mas o avanço depende de uma cadeia física que vai do cobre em Catalão à torre de transmissão em Itacoatiara, da fábrica da TSMC em Hsinchu ao licenciamento ambiental que um empreendedor tenta destravar no interior do Ceará. A IA não aboliu a escassez; só mudou o endereço dela.

Vale olhar os números. A Agência Internacional de Energia estimou que data centers consumiram cerca de 415 TWh em 2024 — algo como 1,5% da eletricidade mundial. Em 2030, esse consumo pode mais que dobrar, chegando perto de 945 TWh. Não é um apocalipse: a própria IEA lembra que data centers respondem por menos de 10% do crescimento projetado da demanda global de eletricidade até o fim da década. O problema é outro, e é prosaico. Eles não se espalham. Se concentram em um punhado de polos, e fazem os transformadores, subestações e filas de conexão desses polos trabalharem no limite.

Essa concentração muda a natureza da competição. Data center de IA não é um prédio de servidores, é uma indústria eletrointensiva, com capex bilionário, contrato longo de energia, sofisticação operacional e o tipo de risco que assusta banqueiro conservador. Em mercados maduros, o critério para decidir onde instalar compute já tem menos a ver com incentivo fiscal e mais com uma pergunta bem mais simples: tem energia disponível, limpa, barata e conectada?

Os chips seguem a mesma lógica. A discussão pública ainda fala em “semicondutores” como se fossem uma coisa só. Não são. A IA de fronteira depende de GPUs ou aceleradores especializados, memória HBM, encapsulamento avançado e processos industriais que cabem em algumas cidades do planeta. Taiwan continua no centro. O resto da cadeia se espalha por Oregon, Eindhoven, Sendai, Pyeongtaek — e uma fila curta de máquinas da ASML em Veldhoven que nenhum país consegue replicar rapidamente.

E tem os insumos menos glamorosos. Cobre para rede. Alumínio para transmissão. Terras raras, gálio, germânio, grafite. A IEA vem alertando, relatório atrás de relatório, que o refino e o processamento de minerais críticos ficaram mais concentrados, não menos. Em um mundo em tensão geopolítica, isso importa tanto quanto parâmetro de modelo — talvez um pouco mais. Soberania digital sem soberania energética e mineral é retórica com slide bonito.

A água entrou no debate e virou mistura. Em alguns lugares, data centers competem por recurso hídrico com comunidade local e precisam ser avaliados com lupa. Em outros, usam circuito fechado e consumo consuntivo baixo. Um estudo da Brasscom estima que, no Brasil, data centers representaram 1,7% do consumo elétrico nacional em 2024 e 0,003% do consumo consuntivo de água em 2022. O dado importa, mas pede leitura com cautela, pois média nacional não resolve conflito local. O caminho não é demonizar investimento. É pedir transparência por empreendimento. Qual a fonte de energia? Qual a tecnologia de refrigeração? Qual a bacia hídrica afetada? 

E o Brasil tem um tipo de sorte que outros países não têm. A matriz elétrica é uma das mais limpas do mundo — em 2024, 88,2% da oferta interna de eletricidade veio de fonte renovável, segundo a EPE. É mercado grande. É ecossistema digital maduro. É PTT.br em São Paulo trocando tráfego com o mundo inteiro. É Fortaleza ancorando uma das maiores aterragens de cabos submarinos das Américas. E são setores econômicos — saúde, agro, finanças, varejo, governo — que ainda não encostaram 10% do que podem fazer com IA aplicada.

Vantagem comparativa, porém, não se converte sozinha em prosperidade. O Brasil também tem conta de luz cara para quem produz, insegurança regulatória, licenciamento lento, importação complicada, tributação que desanima engenheiro, déficit de talento técnico e uma conectividade desigual que quase nunca aparece no discurso da IA. A TIC Domicílios 2024 mostrou que apenas 22% dos brasileiros têm conectividade significativa — o resto está com sinal intermitente, franquia estourada ou aparelho ruim. Falar em IA nacional sem banda larga decente é falar em indústria automotiva sem asfalto.

O Plano Brasileiro de Inteligência Artificial, com até R$ 23 bilhões em previsão até 2028, acerta quando fala em infraestrutura, supercomputação e data centers verdes. A direção está certa. O risco está no método. Se o país tratar IA como mais um projeto de campeões escolhidos, reserva de mercado e burocracia preventiva, vai desperdiçar dois anos. Se tratar como infraestrutura produtiva — aberta, competitiva, orientada a resultado — pode ocupar um lugar útil no mapa global.

Soberania digital, no fim, é muito mais modesta do que a palavra sugere. É ter capacidade de escolher, contratar, auditar, hospedar, treinar e aplicar tecnologia em um ambiente institucionalmente confiável. Isso pede mercado. Pede energia. Pede segurança jurídica. Mais ou menos nessa ordem.

Uma agenda prática precisa ser mais pé-no-chão do que manifesto. Começa pela infraestrutura de base: acelerar a expansão da transmissão elétrica para os polos de dados, destravar contratos privados de energia limpa, parar de reinventar regulação elétrica a cada ciclo político. Em hardware, a lógica é de abertura — reduzir barreira para importar o que ainda não produzimos não é capitulação, é sobrevivência competitiva. E em pessoas, precisamos formar engenheiro de redes, eletricista especializado, técnico de refrigeração, dev de infraestrutura. O fetiche do “prompt engineering” passou: é função que dura três anos, até o próximo modelo reescrever o mercado.

E o papel do Estado? Aliás, é aqui que eu confesso ter dúvidas. Sei o que eu não quero — regulação preventiva que blinda incumbente, carimbo obrigatório, reserva de mercado travestida de soberania. Sei o que eu quero em termos gerais — compras públicas contratando resultado mensurável em saúde, educação e segurança pública, sandbox real para setores críticos, transparência hídrica por empreendimento. Mas o “como” ainda está em aberto para mim. E desconfio de qualquer interlocutor que diga ter a resposta definitiva, num assunto com dois anos de maturidade.

A IA não vai ser vencida por quem fizer o documento estratégico mais grosso. Vai ser vencida por quem transformar compute em produtividade. Para as empresas, isso significa sair do encantamento e perguntar onde, exatamente, a IA diminui custo, aumenta receita, melhora decisão e libera gente para trabalho de maior valor. Para os governos, significa parar de encenar e criar condições para empreendedor experimentar com segurança, competir e escalar.

O Brasil provavelmente não deve — nem pode — tentar vencer a corrida pelo maior modelo fundacional do planeta. É disputa de capital quase infinito. Nossa oportunidade mora em outra camada: IA aplicada, limpa, barata, colada em problema concreto. A tecnologia avança com ou sem o Brasil. O que está em jogo é se teremos infraestrutura física e coragem institucional para transformar esse avanço em prosperidade, ou se ele vai passar pela janela como tantos outros antes.