A aprovação do Marco do Saneamento, em 2020, ajudou a destravar os projetos de investimento no setor (Aegea/Divulgação)
Instituto Millenium
Publicado em 11 de maio de 2026 às 20h30.
*Luciana Campos Luciano, Gerente de Desenvolvimento Ambiental da Copasa
No setor de saneamento, a proteção ambiental deixou de ser apenas uma obrigação para se tornar parte central da estratégia de negócio. Em um cenário marcado por mudanças climáticas, crescimento urbano desordenado e pressão sobre os recursos hídricos, programas voltados à preservação dos mananciais ganham um novo significado: não são mais ações periféricas, mas instrumentos de garantia da própria continuidade do serviço.
Essa lógica dialoga diretamente com o conceito de valor compartilhado, formulado por Michael Porter e Mark Kramer, segundo o qual empresas podem gerar resultados econômicos ao mesmo tempo em que enfrentam problemas sociais e ambientais. A premissa é clara: o sucesso financeiro de longo prazo depende da saúde e resiliência do território onde a organização atua.
No saneamento, essa interdependência é ainda mais evidente: não existe água tratada sem mananciais preservados, nem segurança hídrica sem solo protegido, vegetação recuperada e comunidades engajadas. É sob este prisma que a aplicação prática do valor compartilhado se materializa em iniciativas como o Pró-Mananciais, programa da Copasa (Companhia de Saneamento de Minas Gerais), que promove a proteção e recuperação de nascentes e microbacias. Mais do que um projeto isolado, o programa funciona como um elo entre a operação técnica e a bacia hidrográfica, articulando reflorestamento e controle de erosão sob o princípio da responsabilidade dividida entre os diversos atores do território.
Essa governança compartilhada permite que as comunidades locais deixem de ser espectadoras para se tornarem coprotagonistas da gestão hídrica. O resultado é um ciclo de fortalecimento institucional e geração de renda que transcende os muros da companhia. Ao romper com a visão tradicional que enxerga a sustentabilidade apenas como um custo ou medida compensatória, essa abordagem demonstra que a proteção ambiental pode ser, simultaneamente, um vetor de eficiência operacional e de competitividade.
Neste modelo, a preservação deixa de ser uma rubrica de gastos para se consolidar como um ativo estratégico do negócio. Prova disso é a robustez dos aportes financeiros direcionados a essas frentes, que já ultrapassam R$ 188 milhões — com um aporte significativo de mais de R$ 52 milhões apenas no último ano — reforçando o compromisso com a resiliência do sistema.
Ao transformar a conservação da água em um eixo central de gestão, o setor de saneamento passa a operar sob uma nova ótica: a de que o desenvolvimento econômico e a qualidade ambiental são indissociáveis e dependem, fundamentalmente, da inclusão social. Trata-se de um movimento que reposiciona a empresa como um agente ativo de desenvolvimento territorial.
No fim, iniciativas que alinham a lógica empresarial às necessidades da sociedade não são apenas desejáveis; em tempos de crise climática, elas se tornam a condição essencial para a longevidade de qualquer organização.