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Viva a energia alternativa

Como a semântica pode ajudar limpar de novo nossa matriz elétrica

DR

Da Redação

Publicado em 11 de outubro de 2018 às 16h22.

Era uma reunião técnica para debater os novos rumos da reforma do setor elétrico. Um encontro só para convidados. Na plateia, pesquisadores do campo da energia e profissionais do terceiro setor. O palestrante, um dos mais qualificados técnicos do governo. Ele integrou a equipe do Ministério de Minas e Energia que propôs a reforma, tramitando no Congresso Nacional. Durante uma manhã inteira, falou sobre questões regulatórias, regras de formação de preço e de concorrência para incentivar o mercado de geração de eletricidade e oferecer aos brasileiros uma energia segura, limpa e barata. Um dos aspectos que chamou atenção não foi exatamente técnico, mas semântico. O técnico do governo chamava o conjunto da energia eólica, solar e das pequenas hidrelétricas de “fontes alternativas”.

O que há no nome “energia alternativa”? Ele é uma expressão tradicionalmente usada - entre outras - para descrever um determinado grupo de fontes de energia. Mas carrega consigo outros atributos. A expressão traz na bagagem outras implicações. Alternativo é algo que corre no paralelo, uma opção ao padrão. Alternativo é meio marginal, no sentido de não central. Alternativo é desafiador do que está estabelecido. Quase contracultura. Remete a Raul Seixas cantando “Viva, viva, viva a sociedade alternativa”. Para um produto ou serviço permanecer alternativo, ele não pode ocupar uma fatia predominante de mercado. Senão deixa de ser alternativo e vira mainstream. E parece ser exatamente o que está acontecendo de fato com as energias ditas “alternativas”.

Para começar, no campo das ideias. Uma pesquisa nos termos de busca do Google desde 2004 mostra que a expressão “energia alternativa” era de longe a mais comum no início do século. Mas que foi perdendo espaço para “energia limpa” e “energia renovável”. Em algum momento por volta de 2012, “energia alternativa” se consolidou como a expressão menos usual, embora não distante das outras duas.

-(Reprodução/Google Trends/Exame)

E o que ocorreu no setor elétrico brasileiro, na outra ponta da rede de fios que termina na tomada da sua casa? As fontes eólica e solar, além das pequenas centrais hidrelétricas (ou na sigla PCHs) vêm ganhando lugar proeminente. É o que mostra o gráfico abaixo, extraído de um relatório sobre as emissões do setor elétrico do Instituto Energia e Meio Ambiente (Iema). Ele trata da participação das fontes chamadas de "outras renováveis". São as fontes eólica e solar, além de queima de biomassa (como bagaço de cana e lenha). A participação delas na eletricidade gerada no Brasil cresceu de 2% em 2000 para 15% em 2016. Estavam no caminho de ultrapassar pela primeira vez a participação das termelétricas a combustíveis fósseis (como gás, carvão e óleo combustível), que correspondiam a 17% da energia gerada em 2016. O relatório foi feito este ano com os dados mais recentes disponíveis. Segundo a tendência, as tais "energias alternativas" já devem ter virado a segunda fonte de nossa eletricidade, atrás apenas das hidrelétricas.

-(Reprodução/Exame)

Se essas fontes menos poluentes estão conquistando um papel de protagonismo na geração de nossa eletricidade, deixando de ser apenas “alternativas”, qual é a melhor forma de se referir a elas? Muitos analistas e grupos de advocacy de questões climáticas preferem chamar essas fontes de “energias renováveis”. Mas o termo também não é perfeito porque deixa de fora as hidrelétricas. Com todas as críticas que possam ser feitas aos seus possíveis impactos ambientais, as hidrelétricas, da polêmica Belo Monte à humilde turbina instalada num velho moinho dentro do seu sítio, todas são movidas a água dos rios, renovada com o ciclo de chuvas.

Outra opção seria chamar essas fontes emergentes de “energias limpas”. Há alguns que usam essa expressão. Mas ela também é questionável. Dependendo de como se analisa, a energia nuclear também pode ser considerada limpa. Ela não produz gases de efeito estufa, responsáveis pelas mudanças climáticas. Se não houver nenhum problema técnico (como em Chernobyl ou Three Mile Island) nem um terremoto e um tsunami (como em Fukushima), as usinas também não emitem poluente algum. O problema (que não é pequeno) são os rejeitos gerados pela produção e pelo descarte do combustível nuclear.

Por que debater tanto o nome que se usa para as fontes emergentes, limpas, renováveis e alternativas? O nome faz diferença. Ele tem influência - consciente ou não - na forma como encaramos essas fontes de energia. Como planejar investimentos, pensar em subsídios, avaliar investimentos, carregando uma tralha de atributos questionáveis? Até porque cada uma delas têm características próprias, inclusive impactos ambientais particulares. Os painéis solares viram sucata eletrônica com componentes de descarte difícil. As usinas eólicas exigem espaço e competem com outros usos da terra. Talvez seja hora de abandonar os rótulos que impulsionaram essas fontes de energia até aqui e tratar cada uma delas por seu nome.

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Era uma reunião técnica para debater os novos rumos da reforma do setor elétrico. Um encontro só para convidados. Na plateia, pesquisadores do campo da energia e profissionais do terceiro setor. O palestrante, um dos mais qualificados técnicos do governo. Ele integrou a equipe do Ministério de Minas e Energia que propôs a reforma, tramitando no Congresso Nacional. Durante uma manhã inteira, falou sobre questões regulatórias, regras de formação de preço e de concorrência para incentivar o mercado de geração de eletricidade e oferecer aos brasileiros uma energia segura, limpa e barata. Um dos aspectos que chamou atenção não foi exatamente técnico, mas semântico. O técnico do governo chamava o conjunto da energia eólica, solar e das pequenas hidrelétricas de “fontes alternativas”.

O que há no nome “energia alternativa”? Ele é uma expressão tradicionalmente usada - entre outras - para descrever um determinado grupo de fontes de energia. Mas carrega consigo outros atributos. A expressão traz na bagagem outras implicações. Alternativo é algo que corre no paralelo, uma opção ao padrão. Alternativo é meio marginal, no sentido de não central. Alternativo é desafiador do que está estabelecido. Quase contracultura. Remete a Raul Seixas cantando “Viva, viva, viva a sociedade alternativa”. Para um produto ou serviço permanecer alternativo, ele não pode ocupar uma fatia predominante de mercado. Senão deixa de ser alternativo e vira mainstream. E parece ser exatamente o que está acontecendo de fato com as energias ditas “alternativas”.

Para começar, no campo das ideias. Uma pesquisa nos termos de busca do Google desde 2004 mostra que a expressão “energia alternativa” era de longe a mais comum no início do século. Mas que foi perdendo espaço para “energia limpa” e “energia renovável”. Em algum momento por volta de 2012, “energia alternativa” se consolidou como a expressão menos usual, embora não distante das outras duas.

-(Reprodução/Google Trends/Exame)

E o que ocorreu no setor elétrico brasileiro, na outra ponta da rede de fios que termina na tomada da sua casa? As fontes eólica e solar, além das pequenas centrais hidrelétricas (ou na sigla PCHs) vêm ganhando lugar proeminente. É o que mostra o gráfico abaixo, extraído de um relatório sobre as emissões do setor elétrico do Instituto Energia e Meio Ambiente (Iema). Ele trata da participação das fontes chamadas de "outras renováveis". São as fontes eólica e solar, além de queima de biomassa (como bagaço de cana e lenha). A participação delas na eletricidade gerada no Brasil cresceu de 2% em 2000 para 15% em 2016. Estavam no caminho de ultrapassar pela primeira vez a participação das termelétricas a combustíveis fósseis (como gás, carvão e óleo combustível), que correspondiam a 17% da energia gerada em 2016. O relatório foi feito este ano com os dados mais recentes disponíveis. Segundo a tendência, as tais "energias alternativas" já devem ter virado a segunda fonte de nossa eletricidade, atrás apenas das hidrelétricas.

-(Reprodução/Exame)

Se essas fontes menos poluentes estão conquistando um papel de protagonismo na geração de nossa eletricidade, deixando de ser apenas “alternativas”, qual é a melhor forma de se referir a elas? Muitos analistas e grupos de advocacy de questões climáticas preferem chamar essas fontes de “energias renováveis”. Mas o termo também não é perfeito porque deixa de fora as hidrelétricas. Com todas as críticas que possam ser feitas aos seus possíveis impactos ambientais, as hidrelétricas, da polêmica Belo Monte à humilde turbina instalada num velho moinho dentro do seu sítio, todas são movidas a água dos rios, renovada com o ciclo de chuvas.

Outra opção seria chamar essas fontes emergentes de “energias limpas”. Há alguns que usam essa expressão. Mas ela também é questionável. Dependendo de como se analisa, a energia nuclear também pode ser considerada limpa. Ela não produz gases de efeito estufa, responsáveis pelas mudanças climáticas. Se não houver nenhum problema técnico (como em Chernobyl ou Three Mile Island) nem um terremoto e um tsunami (como em Fukushima), as usinas também não emitem poluente algum. O problema (que não é pequeno) são os rejeitos gerados pela produção e pelo descarte do combustível nuclear.

Por que debater tanto o nome que se usa para as fontes emergentes, limpas, renováveis e alternativas? O nome faz diferença. Ele tem influência - consciente ou não - na forma como encaramos essas fontes de energia. Como planejar investimentos, pensar em subsídios, avaliar investimentos, carregando uma tralha de atributos questionáveis? Até porque cada uma delas têm características próprias, inclusive impactos ambientais particulares. Os painéis solares viram sucata eletrônica com componentes de descarte difícil. As usinas eólicas exigem espaço e competem com outros usos da terra. Talvez seja hora de abandonar os rótulos que impulsionaram essas fontes de energia até aqui e tratar cada uma delas por seu nome.

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