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Como se constrói o valor da bioeconomia na Amazônia

Por que algumas iniciativas avançam ao transformar vocação produtiva em negócio

Extrativismo de semente Murumuru no Rio Amazonas no Amapa - Press Trip - Macapa - Natura - WEG

Foto: Leandro Fonseca
23/05/2025 (Leandro Fonseca /Exame)

Extrativismo de semente Murumuru no Rio Amazonas no Amapa - Press Trip - Macapa - Natura - WEG Foto: Leandro Fonseca 23/05/2025 (Leandro Fonseca /Exame)

AM

Publicado em 3 de fevereiro de 2026 às 08h00.

Durante décadas, a Amazônia foi integrada à economia brasileira e global sobretudo como fornecedora de matérias-primas, como madeira, minérios, energia e commodities agropecuárias. Essa inserção produtiva se deu com forte concentração em atividades primárias, enquanto setores intensivos em serviços especializados, conhecimento e valor agregado permaneceram à margem do debate econômico sobre a região.

Como consequência, atividades baseadas em serviços, experiências e conhecimento técnico associados ao território, embora existentes, seguiram fora do radar das políticas públicas e do mercado financeiro.

O resultado foi menos uma ausência de vocação produtiva e mais a dificuldade de reconhecê-la, estruturá-la e conectá-la ao mercado.

As vocações econômicas, portanto, existem e operam na Amazônia. Elas se manifestam em segmentos como turismo especializado, gastronomia, bioinsumos e produtos de valor agregado associados ao território.

O gargalo central não está na origem dessas iniciativas, mas na mediação necessária para que se tornem economicamente robustas. Onde há formação empreendedora, apoio estratégico e acesso a redes de mercado de forma consistente, os bons resultados tendem a se repetir.

O estudo Fatos da Amazônia - Edição COP 30, do projeto Amazônia 2030, indica que a bioeconomia amazônica já gera valor econômico mensurável.

Em 2023, os dez principais produtos regionais ligados à biodiversidade e à produção agrícola amazônica movimentaram bilhões de reais em valor bruto de produção, com destaque para o açaí (R$ 8,9 bilhões), o café canephora (R$ 2,5 bilhões), a banana (R$ 2,4 bilhões) e o cacau (R$ 2,1 bilhões).

Esses números desmontam a ideia de que a bioeconomia seria apenas uma promessa futura, trata-se de uma base econômica real.

É justamente nesse espaço entre base produtiva e captura de valor que surgem iniciativas que começam a reposicionar a bioeconomia amazônica. A Nunghara Biojoias, de Santarém (PA), transforma sementes amazônicas em produtos de design que dialogam com o mercado da moda nacional.

A Raízes do Açaí, de Belém (PA), converte a semente tradicionalmente descartada em infusões funcionais, criando uma lógica de economia circular a partir da floresta.

A Rico Amazônia, de Manaus (AM), reposiciona a farinha Uarini, produto com Indicação Geográfica, conectando o saber tradicional e o mercado contemporâneo.

Ainda no setor de alimentos, a Cacau Sonho Verde estrutura a produção de chocolates e cupulates a partir da agricultura familiar em Porto de Moz (PA), enquanto o projeto Guardiãs do Cacau, liderado por mulheres ribeirinhas no município de Acará, transforma o cacau nativo em chocolate artesanal com geração de renda local.

Essas iniciativas operam em setores distintos, com escalas e modelos diversos, mas compartilham um traço comum: todas lidam com ativos naturais e saberes territoriais que já existiam, mas que só passaram a ser economicamente reconhecidos quando traduzidos em propostas de valor compreensíveis para o mercado.

A bioeconomia, nesses casos, se apresenta como uma estratégia econômica baseada em diferenciação, qualidade e identidade territorial.

Tratar a bioeconomia amazônica de forma madura exige justamente afastar a leitura romantizada que a associa exclusivamente à conservação ou ao ativismo ambiental.

Bioeconomia, na prática, diz respeito à capacidade de transformar biodiversidade e conhecimento científico em soluções produtivas que operem em mercados reais.

Isso pressupõe ciência aplicada, capacidade empresarial e decisões estratégicas sobre posicionamento, precificação e acesso a canais de venda, dimensões que não se resolvem apenas com boa intenção ou visibilidade pontual.

A recorrência desses casos ajuda a explicar por que tantas iniciativas permanecem subdimensionadas quando essa mediação não está presente. Ao acompanhar de forma contínua empreendedores amazônicos em diferentes estágios de maturidade, organizações como o Centro de Empreendedorismo da Amazônia funcionam como um campo privilegiado para observar esse fenômeno, desde 2017.

A atuação combina formação empreendedora, apoio à organização de negócios sustentáveis, fortalecimento de iniciativas de base comunitária e leitura sistemática de impactos sociais e territoriais. Isso significa apoiar empreendedores para além da criação de produtos, ajudando acessar mercados, estruturar cadeias locais de valor e compreender o papel econômico de suas iniciativas no território.

Trajetórias acompanhadas ao longo do tempo mostram que o diferencial entre potencial e desempenho econômico real não está apenas no produto, mas na capacidade de consolidar o negócio, identificar público, organizar produção e dialogar com mercados fora do território. Investimento desacompanhado de estratégia tende a gerar frustração.

O que diferencia iniciativas que avançam daquelas que estagnam é a capacidade de articular conhecimento técnico, gestão e mercado, exatamente o papel desempenhado pela mediação qualificada.

A bioeconomia amazônica, portanto, não é exceção nem nicho experimental. Ela já existe, movimenta bilhões de reais e se expressa em iniciativas concretas que conectam território, conhecimento e mercado. O desafio está em reconhecer, estruturar e escalar as vocações que já operam.

Quando isso ocorre, a Amazônia deixa de ser tratada como promessa distante e passa a ser compreendida como a economia do presente.

*Alexandre Mansur é fundador do O Mundo Que Queremos