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Esteja aberto a aprender e valorizar todas as experiências, afirma Marcos Angelini da Red Bull

Na coluna desta semana, conheça a história de Marcos Angelini, presidente da Red Bull para América Latina

Esteja aberto a aprender e valorizar todas as experiências, afirma Marcos Angelini, presidente da Red Bull para América Latina (Divulgação)
Esteja aberto a aprender e valorizar todas as experiências, afirma Marcos Angelini, presidente da Red Bull para América Latina (Divulgação)

Aprendi desde cedo o significado de termos como diversidade, aceitação e empatia. E este
ensinamento foi prático por uma série de motivos. Um deles por conta de ser neto de avós militares,
e trazer como herança familiar não só a disciplina, mas também o fato de ter viajado muito e,
consequentemente, conhecido diferentes pessoas e lugares durante a infância e a adolescência.

Isto porque meu pai, engenheiro civil de formação, fazia grandes obras de infraestrutura pela
Argentina, onde nasci, trabalhando na construção de portos, aquedutos e pistas. E eu, como
espectador atento e maravilhado com cada edificação que ia surgindo diante dos meus olhos,
acompanhava tudo de perto. Uma destas obras, aliás, tem um simbolismo especial para mim: a
ponte que liga o Brasil e a Argentina sobre o r io Iguaçu, na cidade de Foz do Iguaçu (PR). Se
no passado esta construção tinha uma simbologia meramente factual, hoje me faz lembrar dessa
conexão que eu, argentino de nascimento, tenho desde pequeno com o Brasil, p aís onde moro
há cerca de 12 anos.

Sou o segundo de quatro filhos, sendo três homens, e minha vida escolar foi diversa, por conta das
constantes mudanças de cidade que fazíamos. Por consequência, fui aluno tanto de uma
conceituada escola inglesa, cravada no centro de Buenos Aires, onde aprendi a jogar rúgbi, quanto
de uma precária escola de fronteira, localizada em Porto Iguaçu, onde, inclusive, havia alunos que
tinham como principal motivação para estar na sala de aula as refeições regulares. Transitando
entre um universo e outro, fui me adaptando e aprendendo a conhecer e respeitar múltiplos
universos.

Nesta jornada, contei a todo o momento com o apoio dos meus pais, que, além da educação, me
transmitiram valores que tiveram uma influência superimportante no meu futuro profissional.
Dele, absorvi a disciplina e o ensinamento de que tudo é reflexo de muito esforço e dedicação. Ele
trabalhava demais, muitas vezes nos finais de semana, inclusive, e seguia em frente com
determinação, mesmo diante de situações complicadas. Já minha mãe era o pilar da casa, e com
ela aprendi os valores fundamentais, como ética, integridade e religiosidade. Estes ensinamentos,
somados às experiências escolares que tive, me capacitaram a me relacionar com outras pessoas e
alcançar determinados objetivos que, sozinho, não conseguiria.

Em busca de novas oportunidades

Quando retornei a Buenos Aires, onde nasci, iniciei a preparação para prestar vestibular. Optei
pela Engenharia, em 1991, espelhando-me na carreira paterna e no caminho que o meu irmão mais
velho também havia trilhado. Me graduei no Instituto Tecnológico de Buenos Aires (ITBA),
listado entre as instituições mais conceituadas da Argentina dentro deste segmento. Neste período
já estava namorando aquela que seria minha esposa, Marinês, com quem sou casado desde
dezembro de 1998. Hoje, tenho três filhos, já adultos: Tomás (23), Belen (21) e Marcos (20).

Via a Engenharia como o instrumento que tinha em mãos para resolver problemas, e que
desenvolveu em mim uma maneira de pensar mais científica e estruturada. Dentro desta lógica,
para solucionar grandes conflitos, fragmentava-os em partes menores e ia resolvendo passo a
passo. Somado a este ponto, esta área era para mim a mais estrutural, prática, analítica e abarcava
as preferências que gostava: negócios, ciência e tecnologia.

Os primeiros três anos de graduação eram desenhados na universidade de uma maneira que o
aluno não tivesse como trabalhar, pois, o intuito era que o estudante focasse 100% dos seus
esforços no conteúdo. E esse foi um dos primeiros entraves, porque, apesar de viver na casa dos
pais, queria gerar o meu próprio dinheiro.

Comecei então a dar aulas de Matemática, Química e Física nos finais de semana. Junto a este
movimento, iniciei, com um amigo, um negócio de compra e venda de peças de computadores
de mesa. Importamos as primeiras peças que chegaram à Argentina e em pouco tempo este trabalho
passou a ser altamente rentável. E foi neste momento que vivi um impasse. Como sempre quis ser
o melhor em tudo o que fazia, era hora de tomar uma decisão: ou levava a universidade a sério e
mantinha-me focado nos estudos ou dedicava-me de corpo e alma ao trabalho.

Optei pela primeira opção e, por ser muito competitivo, dediquei-me aos estudos. Nos dois últimos
anos de curso, passei por dois estágios obrigatórios: o primeiro em uma companhia de satélites e
o segundo em uma siderúrgica. Em ambos, realizei tarefas básicas e operativas. Neste mesmo
período, participei de um processo seletivo na Unilever, que buscava estudantes que ainda tinham
dois anos de estudo pela frente. Fui aprovado e ganhei uma bolsa de estudos integral. Já dentro do
programa, não era necessário trabalhar para a empresa, e sim estar sempre em contato. E só quando
me formei é que fui convidado a preencher a vaga de trainee. Foi quando tomei outra grande
decisão: deixar de lado a Engenharia e focar no universo do marketing.

Esteja aberto a aprender e valorizar todas as experiências

O primeiro pensamento quando se entra em uma empresa global como a Unilever, é que logo no
começo vai se fazer parte de grandes negócios ou projetos de investimento. Existe um longo
caminho pela frente. E cada passo percorrido tem um porquê, que fui entendendo no decorrer do
processo. No meu caso, a primeira tarefa foi ser repositor de lojas. Passei cerca de um mês
carregando caixas bem pesadas de produtos, repondo prateleiras e observando os consumidores
que iam ao ponto de venda, analisando o que, por que e como compravam determinados itens. Terminada essa fase, voltei ao escritório e fui designado a organizar uma livraria que tinha
aproximadamente 1.000 fitas de vídeo das marcas.

E, assim, fui lapidando as minhas experiências. Depois passei a ser coordenador de projetos,
ajudando os gerentes de marca da companhia a estruturar, organizar e documentar os projetos de
inovação, bem como a cobrar os responsáveis de todas as áreas da empresa. Posteriormente, fui
designado a ser assistente de marketing, e em dois anos cheguei a gerente de marca júnior na área
de Produtos de limpeza para o lar.

Neste momento, o primeiro obstáculo e a primeira decepção: meu time estava trabalhando no
lançamento de uma marca nova para a América Latina, e o projeto, em determinado momento, foi
cancelado. Mas, como há males que vêm para o bem, junto desta notícia recebi a oferta de fazer
um trabalho temporário de seis meses em Londres, como gerente internacional de marca,
reportando ao presidente global da categoria. Os desafios eram grandes: nunca havia estado na
Europa e estava prestes a me casar, com data marcada e os preparativos em andamento. Mas, diante
do que foi proposto, mudei a rota dos acontecimentos. Aceitei a oferta, antecipei o casamento e
parti com minha esposa para a Inglaterra.

Os seis meses se transformaram em dois anos, período em que iniciei o MBA, tive um filho e
trabalhei bastante o networking. Como gerente internacional, me relacionava com os chefes de
outras regiões, e tive uma boa relação com o vice-presidente da Europa, que estava em Milão, na
Itália. Essa colaboração resultou na oportunidade que assumi na empresa como gerente de marca
europeu.

Buscar capacitação: primordial no currículo do profissional de sucesso

O fato é que nunca trabalhei como engenheiro da área industrial e a área de marketing era a que
me fascinava. E foi nela que fiz a minha carreira. Com o passar do tempo, contudo, percebi que
precisava me especializar e fiz um MBA na Durham University, na Inglaterra, em 2001. Nessa
época, devido ao trabalho, morava em Londres, e diferente do que via muitos fazerem, não poderia
me dedicar somente aos estudos.

Então, iniciei um curso com duração de quatro anos à distância, algo que exigiu dedicação de todas
as noites e finais de semana. Até porque o EAD, naquele momento, era algo bem diferente do que
ocorre hoje. Lembro-me das enormes caixas que chegavam pelos correios com as pastas dos
conteúdos que íamos ver durante o semestre. E o estudo era intenso, com a produção de inúmeros
trabalhos. Também era obrigatório assistir, de tempos em tempos, aulas presenciais, o que me
demandava percorrer centenas de quilômetros em cerca de seis horas de viagem. As provas
também eram feitas presencialmente e, no final do curso, quando já estava morando na Itália, fiz
o exame no consulado inglês. Um grande esforço, mas que valeu muito a pena e abriu o caminho
para outros cursos que fiz no decorrer dos anos.

Atualmente, percebo a grande oportunidade que o campo da educação oferece, permitindo que as
pessoas estudem virtualmente qualquer assunto. Em muitos casos, é possível fazer cursos grátis e
de universidades super-renomadas. Não tem por que não se especializar. Em outros, as próprias
companhias dispõem de programas de educação bem específicos. Sinceramente, estar atualizado
permanentemente é primordial, principalmente com o avanço da tecnologia e em tempos de
Inteligência Artificial. Quem não seguir esta linha, ficará para trás. Até porque a tecnologia e as
inovações são constantes.

Lapide seu networking, faça um trabalho de excelência e esteja preparado para grandes conquistas

Fiquei em Milão por dois anos. Neste período, fui promovido pela primeira vez como diretor. E
isto significava que eu tinha gerentes abaixo de mim e um grande time para coordenar, além de ser
responsável por muitas marcas que circulavam na Europa. Tempos depois, surgiu a necessidade
de lançar a categoria de produtos que eu liderava na Rússia. E esta considero a primeira grande
empreitada em conteúdo, digamos assim, que depois se transformou em um dos meus grandes
sucessos. Neste momento, novamente a rotina ganhou novo formato, pois tive que morar na Rússia
por um tempo. Deixei a família instalada em Milão, onde morava até então, e passei a visitá-los a
cada duas semanas. Em solo russo, montamos uma fábrica, lançamos uma marca e conseguimos
liderança de mercado – um feito super enriquecedor para a carreira.

De volta à Itália, sentia que já estava na hora de mudar de categoria de produtos. Foi quando
contatei a Silvia Lagnado, que considero uma das gurus do universo do marketing. E uma das
primeiras perguntas que me fez foi: “Quem dentro da empresa te recomenda?”. Vi refletida a
importância do networking, que deve ser lapidado continuamente.

Após este contato fui chamado para passar um tempo em Chicago, nos Estados Unidos, para ser
diretor global da Dove, na categoria de Cabelos. Contudo, devido a uma movimentação da
empresa, fiquei pouquíssimo tempo nos EUA e logo retornei a Londres, na Inglaterra, conduzindo
o mesmo cargo. Foi uma experiência incrível trabalhar a construção e o posicionamento global da
marca – foi o momento no qual criamos a campanha Beleza Real, mostrando a beleza de mulheres
reais. Este movimento foi ampliado para outros países e, em cada um deles, foi adaptado de acordo
com a cultura local. Trabalhei então seis meses no Brasil, passei pelos Estados Unidos, fiquei nove
meses em Tóquio, no Japão, e fui promovido a vice-presidente da Europa na categoria de Cuidados
dos Cabelos em Paris, na França. Também passei uma temporada de dois anos na Turquia, agora
como vice-presidente regional e depois retornei ao Brasil, como vice-presidente e diretor-geral
da Divisão de Produtos do Lar do Brasil. Eu estava dirigindo uma das três unidades de negócio da
Unilever do Brasil, que é a segunda maior operação do mundo da Unilever. E após uma jornada
de 21 anos dentro da Unilever, me desliguei da empresa, em abril de 2016.

Nova jornada, novos percalços

Iniciei um novo momento no Facebook, como diretor-geral do Brasil, onde fiquei por um ano, até
começar naquele que considero o emprego dos sonhos, em maio de 2017, por vender não só um
produto, mas um estilo de vida. É neste momento que passo a fazer parte do pool da Red Bull,
onde estou como presidente da América Latina.

E ali enfrentei algo inusitado: gerenciar o time da Red Bull da América Latina durante a Pandemia
de Covid-19. Essa situação não estava prevista em nenhum livro ou manual de instruções, e eu me
vi encarregado de coordenar uma equipe de 1.000 pessoas, cada uma localizada em um país
diferente. Além disso, todos precisaram trabalhar remotamente devido ao lockdown, e algumas
pessoas eram especializadas em eventos, que foram todos cancelados devido às restrições. Foi,
sem dúvida, um megadesafio, mas com um esforço incansável e dedicação, consegui alcançar um
sucesso notável.

Antes de agir, escute e observe

O obstáculo de trabalhar com países de culturas completamente diferentes foi enorme, pois é
preciso, antes de mais nada, entender como as pessoas pensam, se relacionam e como trabalham
em equipe. Jamais teria tido sucesso nesta experiência se não tivesse vivenciado, no passado,
situações nas quais tive que me adaptar aos mais diferentes mundos. E o conselho que dou é:
seja humilde, observe, escute, aprenda como as situações se desenvolvem e como cada um
interage. Quando você chega em um lugar novo, não interessa a posição que tenha, fique quieto e
aprenda. Estabeleça conexões e integre-se com seus colegas. Não dá para chegar em outro país
com a ideia de que você é o “cara que veio gerenciar”, mas sim como aquele que “fará parte de
um time e que o ajudará a executar um trabalho de excelência!”. Você tem que ganhar o direito de
fazer parte desse grupo!

Liderar é simplificar e transformar a visão de futuro em sonho possível

Se antes os líderes eram centralizadores e traziam perfis muito mais ditatoriais e frios, hoje a
realidade é bem diferente. Entre as qualidades que realmente fazem a diferença na prática,
destacam-se a empatia, a humanidade, a autenticidade e, em algumas situações, até mesmo a
vulnerabilidade, já que todos temos nossas próprias vulnerabilidades.

O líder deve ser um grande simplificador de processos, pois a vida moderna está se tornando
demasiadamente complexa, muitos se perdem diante da multiplicidade de opções e informações
disponíveis. Ele também deve ter capacidade de selecionar pessoas e formar equipes. Para isso, é
importante ter uma base forte de conhecimento e competência técnica, bem como a capacidade de
disseminar uma visão de futuro que seja atingível e, ao mesmo tempo, instigadora e excitante. Então, um pouco de sonho é necessário.

Trabalho em equipe e empenho contínuo: qualidades do profissional de sucesso

Como um bom engenheiro, eu tenho o modelinho, não só para contratar, mas também para fazer
as avaliações de desempenho do colaborador após a contratação. Sempre digo que 50% desta
análise é proveniente dos números. E os outros 50% vêm de qualidades que espero que um
profissional traga consigo.

A primeira delas é a integridade. Ser transparente na fala e nas ações. A segunda é a atitude, porque
prezo por pessoas positivas e repletas de energia, que tragam este sentimento ao coletivo e
acreditem que a meta pode ser alcançada.

As duas últimas características relevantes que considero superimportantes são: manter em
evidência a capacidade de se relacionar com pessoas e a vontade e desejo latente de aprender,
buscando ser o melhor na área em que atua. Uma carreira de sucesso demanda dedicação,
esforço, aprendizado, trabalho em equipe e, em alguns casos, networking.

Armadilhas que todo profissional deve fugir

Tenha paciência. Não queira avançar muito rápido e foque em ser o melhor naquilo que está
executando. Isso, sim, fará você crescer profissionalmente e avançar mais rapidamente para o
próximo nível. E lembre-se: no lugar de pensar sozinho, peça ajuda!

Para os gestores, o conselho é não ter pressa na hora de escolher um profissional para preencher
uma vaga. Avalie as opções disponíveis com atenção, destine o tempo necessário para estas
análises e contrate a melhor pessoa que existe para a posição em aberto. Acredite: a espera valerá
a pena.

Mentalidade blindada, foco e dedicação trilham a jornada do profissional do momento
Seja otimista, coloque esforço, paixão e dedicação em tudo o que faz. Isso pode soar clichê, mas é
a mais pura verdade. Acredite: tudo o que você quer, pode atingir. E a educação está no coração
de tudo. Tenha ambição e integridade, ética e humanidade, e o caminho terá muito mais chances
de ser exitoso e próspero.