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Enfrentar adversidades faz parte do jogo empresarial, afirma Cristina Kawall

Na coluna desta semana, conheça a história de Cristina Kawall, presidente do conselho na Correias Mercúrio S.A.

Enfrentar adversidades faz parte do jogo empresarial, afirma Cristina Kawall Fabiana Monteiro
Enfrentar adversidades faz parte do jogo empresarial, afirma Cristina Kawall Fabiana Monteiro

O entendimento do que é um líder eficaz varia consideravelmente, dependendo do contexto em que se atua. Essa percepção é moldada não apenas a partir da visão de quem lidera, mas também da diversidade das pessoas com quem o líder interage, pois as dinâmicas sociais e profissionais seguem em constante movimento de transformação. Aqueles que se destacam hoje, podem se encontrar em diferentes posições amanhã, e o que é considerado exemplar em um momento, pode rapidamente tornar-se obsoleto em outro. Isso acontece devido às modificações repentinas que vêm à tona, seja nas regulamentações, seja no ambiente de trabalho. E este princípio é válido tanto em escala global quanto dentro de um setor específico. A única constante é a mudança. Por isso, descarto a ideia de um profissional exemplar imutável.  

Estes e outros ensinamentos sobre liderança começaram a ser assimilados por mim ainda muito jovem. Nasci em São Paulo, mas morei até os 5 anos em Jundiaí, interior de São Paulo, uma cidade muito tranquila. Depois retornei à capital paulista e passei a infância e a adolescência em uma casa espaçosa localizada no bairro de Pinheiros, junto de meus três irmãos: Carolina, Guilherme e Walter. Apesar da mudança, meu pai continuava a viajar diariamente para Jundiaí durante a semana, por conta do trabalho. Sua prioridade era oferecer uma educação de qualidade aos filhos – e assim o fez. Todos estudávamos em bons colégios e, frequentemente, entre um fim de semana e outro, íamos para a nossa casa em Ubatuba, litoral de São Paulo, onde a simplicidade era o ponto alto. Tenho muitas lembranças dessa época.  

Após o falecimento precoce do meu pai, Walter, coube à minha mãe, Iris, assumir o comando dos negócios. Na época, eu tinha 12 anos. Nossa família mantinha parte das ações da empresa, junto de dois dos irmãos de meu pai, Alzira e Guilherme.  

Investir em educação é garantir uma base sólida e ampla 

Fiz Direito na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP), ao mesmo tempo que iniciei o curso de Administração na Luzwell, conciliando as duas jornadas acadêmicas. Além disso, trabalhava na Procuradoria de Assistência Judiciária e fazia o estágio obrigatório da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) aos sábados. Foram anos intensos, mas equilibrei todas as demandas e me graduei em ambos os cursos. Anos mais tarde, embarquei em uma pós-graduação na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), para aprofundar o conhecimento em marketing e participei de uma série de outros cursos que ampliaram a bagagem acadêmica.  

Enquanto estudava, acreditava que as formações em Direito e Administração ofereceriam uma base mais sólida e ampla, e poderiam se encaixar em uma necessidade futura. E meu raciocínio mostrou-se, no decorrer dos anos, acertado. Embora nunca tenha exercido a advocacia, os conhecimentos adquiridos em Direito provaram ser inestimáveis no dia a dia, facilitando conversas com especialistas em Direito Tributário e Societário, tornando a comunicação mais fluida e eficiente. A Administração, por sua vez, tem sido crucial em aspectos estratégicos e de gestão de pessoas, especialmente em um ambiente técnico, no qual a presença de engenheiros é predominante. 

Enfrentar adversidades faz parte do jogo empresarial 

Recém-formada, aos 26 anos, vi-me no papel de intermediária entre minha mãe e meus tios, aparando arestas e resolvendo eventuais diferenças. Iniciei minha carreira na empresa no cargo de assessora especial, que logo se transformou em nomeação para diretora financeira, e, algum tempo depois, veio a nomeação para diretora superintendente, posição equivalente à de chief executive officer (CEO) na época. A transição para esse papel foi desafiadora e, por vezes, assustadora. Eram tarefas complexas para alguém sem experiência anterior.  

Na ausência de diretrizes claras, confiei na intuição e no conhecimento dos mais experientes. No entanto, essa abordagem não era sustentável em longo prazo, considerando especialmente a responsabilidade dos administradores sobre o patrimônio. Foi um período intenso, marcado por uma curva de crescimento íngreme. Ainda assim, cada obstáculo superado fortaleceu minha determinação e habilidade de liderança. Afinal, enfrentar adversidades faz parte do jogo empresarial, e eu estava determinada a fazer o melhor pelo legado da família. 

A sucessão na empresa foi uma oportunidade de crescimento, sem dúvida. As coisas foram melhorando graças ao comprometimento dos envolvidos. No mundo dos negócios, vale ressaltar que o trabalho em equipe é essencial. Não se trata apenas de alcançar metas individuais, mas sim de colaborar e cooperar com colegas e equipes para alcançar objetivos comuns. A comunicação entre as áreas e pessoas é importante para o sucesso a longo prazo.  

Recentemente, estabelecemos uma fábrica em Marabá, mais próxima dos clientes na Região Norte. E agora estamos considerando a expansão internacional, com o planejamento de uma planta em algum país da América do Sul. Se tudo correr conforme o planejado, esperamos operar também neste novo endereço até no máximo o início de 2027. 

É incrível pensar na trajetória desde os dias iniciais, quando fabricávamos apenas correias para carros, até hoje, quando atuamos em mais de 40 segmentos, entre eles mineração, siderurgia e agricultura. Meu pai teve a coragem de levar minha mãe e meu irmão mais velho para a Alemanha, em busca de conhecimento sobre como unir borracha e lona. Juntar todas essas peças, a necessidade de renovação, a seleção criteriosa de sucessores para os colaboradores com mais de 40 anos de casa é um desafio que enfrentamos, com altos e baixos. O jogo nunca está ganho. 

Opapel dos mentores no mundo empresarial 

Conforme mergulhava mais profundamente nos assuntos corporativos, era beneficiada pela orientação de profissionais que desempenharam papéis significativos durante a jornada. Um desses mentores foi o advogado Carlos Alberto Hernandes, cujo apoio foi crucial durante um período de turbulências. A orientação contínua dele foi verdadeiramente valiosa e o considero um verdadeiro coach. 

Tempos depois, Eliana Barcelos Perez teve um impacto fundamental em minha trajetória. Nossos encontros para tomar café se tornaram uma tradição reconfortante, e até hoje mantemos este contato. Ela me ofereceu não apenas dicas valiosas, mas também apoio e orientação em momentos decisivos. 

Minha tia Alzira desempenhou um papel importante ao me apresentar o conceito de “empresa familiar”, fornecendo-me o primeiro livro sobre o assunto. Também participei de cursos com líderes renomados, como João Bosco Lodi e Edna Pires Lodi e Renato Bernhoeft, que ampliaram a compreensão sobre Empresa familiar, Governança Corporativa e Administração. 

O Sr. Maércio Rezende, com sua vasta experiência como ex-executivo da Syngenta, desempenhou um papel vital ao nos ajudar a profissionalizar a gestão e o Conselho. Ele, junto do Sr. Isaías de Oliveira Pinto, conselheiro independente, surgiram como pilares essenciais, especialmente em meados de 2010, quando precisávamos de um Conselho estruturado que se tornasse um órgão ativo na orientação e no direcionamento estratégico. Com o auxílio de ambos, o alinhamento entre eu e meus irmãos em termos de compreensão e comprometimento com o futuro, especialmente diante da ausência do fundador – minha mãe faleceu em 2006 –, foi perfeito. Fomos moldando nossas decisões e aprendendo a superar nossos interesses pessoais em prol do bem maior. Esse processo não só profissionalizou a gestão, como também fortaleceu o vínculo familiar e nos proporcionou um crescimento conjunto. 

O fato é que, no decorrer dos anos, buscamos aprimorar nossas habilidades e conhecimentos, participando de cursos e buscando orientação junto ao Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC). Atualmente, contamos com dois conselheiros independentes – o outro é o Sr. José Carlos Danza – e três acionistas no Conselho, cada um contribuindo com sua expertise para o sucesso contínuo da empresa. 

Desenvolva a habilidade de escolher as pessoas certas  

Procure aprimorar a habilidade de selecionar indivíduos. No meu caso, o campo onde atuo é relativamente limitado, inserido no universo da indústria de borracha, predominantemente centrada em pneus. O conhecimento técnico é extremamente importante e qualquer falha em alguma parte do processo de elaboração dos produtos, a responsabilidade recai sobre nós. Portanto, é imperativo que contemos com profissionais experientes, dotados de uma sólida rede de contatos e conhecimento técnico. Muitos de nossos colaboradores, para se ter uma ideia, trabalham conosco há cerca de 40 anos e desempenham um papel importante, especialmente no chão de fábrica, onde têm a missão de ensinar os que estão chegando. E este trabalho não é algo rápido, pois leva cerca de três anos para formar um operador competente nos equipamentos da linha de montagem e no domínio do composto de borracha para a elaboração das correias. 

Busque o equilíbrio entre trabalho e vida pessoal 

 Em minha opinião, a maior armadilha da vida executiva é quando se está no auge do sucessoe, pouco a pouco, nos deixamos levar por esse encantamento. Uma vez neste caminho, pode ser difícil encontrar uma saída, pois é fácil se perder nessa busca incessante pelo êxito e esquecer que a vida é muito mais do que apenas trabalho.  

Vale ter em mente que não somos apenas profissionais bem-sucedidos. É essencial encontrar um equilíbrio entre trabalho e vida pessoal, entresucesso profissional e felicidade pessoal. Um dos meus maiores prazeres, por exemplo, é cozinhar. Tenho formação como chef e uma breve imersão em confeitaria que durou cerca de um ano. Fora isso, como adoro vinhos, fiz curso de sommelier e dedico parte do tempo a cuidar das plantas do jardim e dos dois rottweilers que possuo. Este conjunto de atividades me traz grande paz e bem-estar. São meus momentos, e nunca os deixo de lado. 

Isso não quer dizer que não devemos ser competitivos ou buscar o sucesso. Mas sim que fiquemos atentos com nossas ações e não limitemos nossas vidas ao cumprimento de metas. É preciso visualizar e questionar quais parâmetros realmente fazem sentido e quais não. Quanto mais cedo tivermos essa resposta, melhor. Foi essa busca por equilíbrio que me trouxe até aqui, e é por isso que ainda estou aqui.  

Liderança versátil em um cenário de transformações constantes  

Um bom líder é aquele que é direto e franco, e que encoraja a comunicação aberta e sincera, recebendo tanto as boas quanto as más notícias com tranquilidade. Em vez de reações impulsivas diante das falhas, ele pratica uma escuta ativa e lida com os problemas de forma justa, sem transformar a resolução de conflitos em uma caça às bruxas. 

Experimentamos alguns contratempos ao contratar executivos para posições estratégicas. Em alguns casos, a família participa da seleção avaliando se o candidato compreende a essência do nosso DNA organizacional, nossas fortalezas e também nossas fraquezas. Mudar, evoluir, é sempre necessário. Fazer isso preservando nossos valores e alguns pontos essenciais da nossa cultura é o “pulo do gato”. 

Em uma época marcada pela Síndrome de Burnout, pela busca pelo equilíbrio pessoal e profissional e pela Inteligência Artificial, é fundamental reconhecer a importância do lado humano nas interações e decisões dos negócios. E o departamento de Recursos Humanos desempenha um papel vital nessa equação, pois ajuda a lidar de forma assertiva com nosso maior ativo: as pessoas.  

O segredo de ser bem-sucedido dentro de uma empresa familiar 

Não entrei no cenário profissional com experiência de mercado. Na verdade, fui escolhida mais por conta do sobrenome e pela minha capacidade de alinhar os interesses dos sócios majoritários na época, do que por qualquer outra característica. Isso era algo comum para muitos herdeiros e vem com suas responsabilidades e limitações.Algo que teria sido muito interessante ter escutado no início da minha trajetória seria a frase: “Vamos fazer um teste.” Isso basicamente significa que alguém está te ajudando a experimentar, fornecendo as ferramentas necessárias para o crescimento. Esse período de teste teria sido fantástico antes de eu assumir uma posição de sucessora e começar a trabalhar como executiva na empresa. 

Vale ressaltar que ser um herdeiro não garante automaticamente a condição de sucessor. O verdadeiro sucessor não age como o dono, pois o fundador foi o verdadeiro proprietário. A responsabilidade aumenta exponencialmente e a decisão de como conduzir os negócios deve ser consensada e compartilhada com todos os acionistas. Para isso, é necessário um nível elevado de preparo e educação, começando pela própria família. A aprendizagem é direcionada de acordo com o que é vivenciado. Educar o acionista sobre estratégia, valores e visão é fundamental.  

Conheça a cultura da empresa antes de vincular-se a ela 

Para aqueles que estão ingressando no mercado de trabalho, é importante considerar não apenas o cargo em si, mas também como a corporação trata os colaboradores. Conhecer a cultura da empresa onde se pretende ingressar e como ela valoriza seus funcionários, é algo válido antes de iniciar qualquer trajetória profissional. Acredito que educação e preparação adequadas devem preceder o ingresso no mundo do trabalho. 

Livro recomendado por Cristina Kawall 

The Bread Bible,de Rose Levy Beranbaum. Editora W. W. Norton & Company, 2003.