Prenda-me se for capaz

Cada vez mais percebo que nosso tempo e nossa atenção são dois dos nossos principais ativos. E eles são escassos
Empresas de mídia e de tecnologia construíram verdadeiros impérios focados em capturar nossa atenção e tempo (iStock/Thinkstock)
Empresas de mídia e de tecnologia construíram verdadeiros impérios focados em capturar nossa atenção e tempo (iStock/Thinkstock)
Por Frederico PompeuPublicado em 01/02/2022 20:37 | Última atualização em 01/02/2022 20:37Tempo de Leitura: 5 min de leitura

Eu já tinha escutado relatos semelhantes dos meus amigos, mas neste fim de semana chegou a minha vez. Estava assistindo o “Esporte Espetacular”, quando anunciaram que iriam passar o famoso “A Bela e a Fera” na sessão de filmes da tarde. Rapidamente chamei minha filha Pietra, que é simplesmente apaixonada por todas as princesas da Disney. Excitada, começamos a ver o filme juntos até que, 15 minutos depois, chegaram os comerciais. Acostumada a ver tudo via Streaming e Youtube, ela fez a intrigante pergunta: “Papai, pode passar a propaganda?”. Foi difícil explicar que, naquela forma de ver televisão, teríamos que esperar uns 3 a 5 minutos de comerciais para podermos continuar a nos divertir com uma de suas histórias preferidas.

Cada vez mais percebo que nosso tempo e nossa atenção são dois dos nossos principais ativos. E eles são escassos. Sabendo disso, algumas empresas de mídia e de tecnologia construíram verdadeiros impérios focados em capturá-los. Quantas vezes você está focado para resolver um problema, estudar para aquela prova difícil ou mesmo para terminar um relatório que seu chefe pediu e, de repente, você encontra-se entretido em uma de suas redes sociais vendo as últimas notícias do “Big Brother” ou vendo um vídeo engraçado, que seu amigo lhe enviou pelo whatsapp, e que não tem nenhuma relação com o que você tem que realmente fazer.

Eu já escrevi sobre o perigo das Redes Sociais aqui, mas confesso que esse tema me intriga cada dia mais. É incrível como elas conseguem sequestrar sua atenção e, consequentemente, gerar bilhões de dólares com isso. A mais recente sensação nesta área é a gigante chinesa TikTok.

Uma das principais atrações do Festival Sundance de Cinema deste ano, o maior festival de cinema independente dos Estados Unidos, foi o documentário “TikTok, Boom”. Dirigido pela Shalini Kantayya, o filme conta a história de como essa rede social chinesa tornou-se a queridinha da nova geração, sendo o aplicativo mais baixado do mundo em 2021 (com mais de 656 milhões de downloads) e com mais de 1 bilhão de usuários ativos mensais (segundo a Bytedance, dona do TikTok). Para quem ainda não conhece este fenômeno, trata-se de um aplicativo de vídeos curtos, criados e compartilhados de forma simples, na vertical, a partir do seu celular.

O documentário mostra como ele tem o poder de tornar pessoas anônimas em famosas e ricas, com alguns influencers ganhando mais do que CEOs de grandes companhias, ao mesmo tempo que pode atrair os temidos Haters (pessoas que seguem outras apenas para mandarem mensagens negativas e detratoras), capazes de tornar a vida dos mesmos influencers num inferno. Tendo entrevistado diversas pessoas durante as filmagens, ela busca cobrir a ascensão do app através do ângulo de negócios e do geopolítico, mostrando as visões dos usuários, criadores, ativistas, jornalistas e mesmo dos advogados, que estão sempre atentos às questões de quebra de privacidade.

Mas o ponto que mais me chama atenção no TikTok é o seu algoritmo. Ele aprende muito rápido sobre você, com os inputs que você mesmo dá (como likes e comentários). Num curto espaço de tempo, ele começa a ser extremamente assertivo no conteúdo que ele passa a te mostrar. Lembra da personalização da oferta de produtos e serviços, que costumo insistir aqui como uma das principais tendências do futuro? Pois é, ele parece ter desenvolvido esta capacidade melhor do que qualquer outro software hoje. Como a própria diretora do filme frisou durante uma entrevista: “Ele parece saber das coisas que te agradam melhor do que você”.

No setor bancário esse é um dos nossos maiores desafios - e oportunidades também. Conseguir antecipar o interesse pela compra de um apartamento ou entender que seu cliente está predisposto a tomar mais riscos em seus investimentos, certamente é um diferencial importante para criar cada vez mais interesse do cliente pelo seu banco. Aumentar o stickiness (aderência do usuário à sua plataforma), aumenta também o LTV (sigla de Lifetime Value ou Valor do tempo de vida do cliente) e, portanto, o valor de mercado do banco. Por isso, os grandes players têm se movimentado cada vez mais nesse sentido, fazendo aquisições que façam com que os usuários usem cada vez mais o seu ecossistema. Um bom exemplo disso foi a aquisição da Mosaico pelo Banco Pan, trazendo a jornada de compra e a oferta de crédito para o mesmo lugar.

Voltando a Pietra, ela realmente demorou a entender o porquê de não podermos acelerar a propaganda. Mas, hiperativa como toda criança, a indignação não demorou nem 1 minuto. Ela logo levantou, foi pra frente do espelho e começou a dançar a coreografia de “Baby Shark” que, por sinal, acabou de superar a incrível marca de mais de 10 bilhões de visualizações no YouTube. Estávamos falando sobre chamar a atenção né? Pois é, se você tem filhos pequenos, aposto que, ainda que mentalmente, já deve estar cantarolando "Baby Shark doo doo doo doo doo doo…" hahaha

Se você não está, posso garantir que eu estou. Se com uma música de 9 frases eles conseguiram chamar a atenção de tanta gente, o que você está fazendo para chamar a atenção do seu cliente para você?