O inverno chegou, mas tem data para acabar

Em sua coluna, Frederico Pompeu fala sobre o cenário gélido que se aproxima no mercado financeiro — e suas possíveis oportunidades
 (Germano Lüders/Exame)
(Germano Lüders/Exame)
Por Frederico PompeuPublicado em 19/05/2022 18:47 | Última atualização em 19/05/2022 19:01Tempo de Leitura: 5 min de leitura

Desde criança aprendemos que a natureza é sábia. Foi estudando o comportamento dos morcegos e dos golfinhos que os cientistas criaram os radares sonares e foi estudando os olhos dos gatos, que brilham no escuro por refletirem a luz, que inventores ingleses desenvolveram o revestimento reflexivo, usado em sinais de trânsito por todo o mundo. Então hoje, aproveitando o frio que está em São Paulo (exatos 10 graus neste momento), vou trazer a sua atenção para o inverno.

Os ursos negros, também conhecidos como ursos americanos, são espécimes grandes e ferozes, usualmente encontrados na América do Norte. Durante o período quente, em geral do final do primeiro mês da primavera até a metade do verão, um animal como esses pode comer até 20 mil calorias e beber pelo menos 30 litros de água por dia. Sim, ele consome muito mais do que seu corpo necessita para sobreviver, mas sabe por quê? Porque ele precisa se preparar para o inverno, quando sabe que terá muito mais dificuldade para sobreviver.

Quando o outono aparece, esses animais automaticamente começam a diminuir seu metabolismo. Seus batimentos cardíacos diminuem de cerca de 80 batidas por minuto para 50 e passam a dormir 22 horas por dia (que inveja hahaha). Chega então o inverno, quando entram em um estado de sonolência profunda. Durante essa estação, que pode durar até sete meses, o consumo de calorias diárias, tiradas da sua própria gordura acumulada durante a época da bonança, cai para 25% do seu consumo regular. Até sua respiração é diminuída. Seu corpo, ciente das dificuldades, faz de tudo para gastar menos calorias, até o verão voltar.

Os últimos dias foram intensos. Fui para Nova York, onde tive a oportunidade de entrevistar o polêmico Scott Galloway (assunto para outra coluna), durante o Tech Day que coordenamos por ali, e depois voei para Califórnia, onde participei da exclusiva (e necessária) conferência Brazil at Silicon Valley. Nesse interim, promovi uma extensa agenda com inúmeros investidores e empreendedores, dos mais diferentes perfis e estágios, onde pude sair com uma única certeza: “O Inverno chegou”.

As empresas listadas de tecnologia, tanto aqui como na Nasdaq, que vinham apresentando crescimentos exponenciais em seus Valuations, passaram a sofrer correções de mais de 50%. Essas mesmas empresas, que foram o grande imã global de investimentos ao longo dos últimos anos, aproveitando-se de um cenário de baixas taxas de juros e abundância de capital, passaram a ser alvo de críticas e ceticismo por parte dos investidores, que passaram a exigir não apenas uma narrativa (ou Storytelling, como falam por lá), mas também um claro caminho para rentabilidade (que era simplesmente pormenorizado, ou mesmo ignorado, no passado recente).

Marcos Galperin, fundador do Mercado Livre, num bate-papo com Roberto Sallouti, CEO do BTG Pactual, foi taxativo: “Cash is King!” (em bom português, quem tem dinheiro é Rei). A otimização do uso do capital, que agora está mais escasso, força os empreendedores a voltarem os olhos novamente para execução, para as melhores oportunidades, cortando excessos e gastos desnecessários.

As palavras EBITDA e lucro, que por algum tempo pareceram ter “saído de moda”, voltaram a fazer parte dos pitches, ainda que as empresas de capital privado estejam relutando em reprecificar seus Valuations de acordo com a nova realidade. Uma realidade dura, que muitas vezes pode vir acompanhada de uma readequação da estrutura da empresa, ou mesmo de uma postergação dos investimentos, mas que é necessária, vis a vis o momento atual. Tão importante quanto é cuidar do lado psicológico do seu time e, principalmente, do seu. Importante ser transparente, liderar com confiança e relembrá-los sempre da missão que estão perseguindo.

Por outro lado, aqueles investidores que estão com caixa, porque estavam enfrentando dificuldades de alocar os recursos por conta dos preços, terão provavelmente uma das melhores oportunidades dos últimos anos para investir em empresas boas e empreendedores brilhantes ao longo dos próximos meses. Precisamos lembrar que a América Latina evoluiu muito e o nível das empresas mudou literalmente de patamar. E, outra coisa que me chamou muita atenção ao longo deste roadshow, é que voltamos a aparecer no radar dos grandes fundos de Venture Capital americanos.

Você sabe qual é a beleza da natureza? É que ela é sábia. Ela sabe que o urso não sobreviveria a um inverno prolongado demais, por isso que, depois do inverno sempre vem o verão. Então, se você é empreendedor e está me dando a honra de ler esta coluna, não se desespere. Fale com sua base acionária atual, compartilhe seus desafios com seu Conselho, faça downround (captação num preço menor do que o da última rodada), olhe outras alternativas como Venture Debt, mas seja - mais uma vez - resiliente.

Pessoalmente não acredito no estouro de uma bolha, apenas num reajuste de preços. Os melhores empreendedores sempre terão acesso a capital. Então, ainda que tenham que “reduzir o seu consumo de calorias” por um período, foquem em sobreviver, porque a época de voltar a comer salmão volta já já.