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O banco pode perder dinheiro. O que ele não pode perder é você

Durante décadas protegemos fábricas, prédios, máquinas e frotas. Agora gastamos bilhões para proteger algo que ninguém consegue tocar: a confiança digital

 (Getty Images)

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Publicado em 14 de julho de 2026 às 21h17.

Como costuma dizer um amigo meu, Copa do Mundo é uma das coisas mais importantes que existem. Das coisas que não têm importância alguma. E foi esse pensamento que me acompanhou até Nova York para assistir ao Brasil nas oitavas de final. 

Como milhões de brasileiros, saí do estádio frustrado depois da eliminação para a Noruega. Imaginei que voltaria da viagem falando do Haaland, do gol que perdemos cara a cara com o goleiro ou do pênalti desperdiçado, que poderia ter mudado completamente a dinâmica da partida. Mas voltei falando de outra coisa. Do medo.

Alguns dias depois do jogo, almocei com um amigo que ocupa uma posição bem sênior em um dos maiores bancos americanos. Tenho uma enorme dificuldade de separar férias de trabalho e acabo misturando os dois, apesar das constantes reclamações da família.

Escolhemos um restaurante em Hudson Yards, de frente para o Vessel. Meu amigo é um daqueles executivos que falam baixo, quase sussurrando, obrigando todos à mesa a se inclinarem para ouvi-lo. A ideia era conversarmos sobre inteligência artificial, criptomoedas e o futuro do sistema financeiro. Mas acabou sendo uma conversa sobre medo.

Não o medo que aparece quando os juros sobem, as bolsas caem ou quando uma crise de crédito ameaça os mercados. Um medo novo, silencioso e, segundo ele, muito mais perigoso.

Fiz uma pergunta simples: “Qual é hoje o principal risco que tira o seu sono?”

Na minha cabeça, a resposta já estava pronta. Crédito. Liquidez. Inflação. Geopolítica. Porém ele não titubeou e respondeu de bate-pronto: “Ciberataques.”

Achei que tivesse entendido errado e retruquei: “Mais do que uma crise de crédito?”

Ele sorriu, daquele jeito de quem já explicou aquilo muitas vezes e ainda se diverte com a expressão de surpresa de quem escuta pela primeira vez. “Se fazemos uma operação de crédito ruim, perdemos dinheiro.”

Fez uma pausa.

“Se um cliente deixa de confiar em nós, perdemos o banco.”

Passei mais de vinte e cinco anos no mercado financeiro. Vi crises cambiais, crises de crédito, pandemias, circuit breakers e bancos centenários desaparecerem. Sempre achei que capital fosse o bem mais valioso de uma instituição financeira. Naquele almoço percebi que dinheiro é consequência. O verdadeiro patrimônio é a confiança. E, pela primeira vez, ela se tornou um problema tecnológico.

A conversa mudou de rumo. Ele passou a falar dos investimentos crescentes em cibersegurança, dos ataques potencializados pela inteligência artificial e de um mercado que praticamente não existia alguns anos atrás: o seguro cibernético.

Durante décadas protegemos fábricas, prédios, máquinas e frotas. Agora gastamos bilhões para proteger algo que ninguém consegue tocar: a confiança digital. Naquele momento lembrei de uma frase clássica do André Jakurski: “Follow the money.” E hoje, o dinheiro está correndo atrás de proteger o que sempre foi o maior ativo de qualquer negócio: a confiança.

Quem quer entender o futuro costuma olhar para as manchetes. Os profissionais mais experientes olham para o orçamento, porque o orçamento quase sempre chega antes da manchete. Quando bancos direcionam bilhões para cibersegurança, seguradoras criam produtos específicos para riscos digitais e conselhos de administração passam mais tempo discutindo hackers do que inadimplência, talvez estejam mostrando onde a próxima grande transformação já começou.

Saí daquele almoço com uma certeza incômoda. A maior ameaça aos bancos deixou de ser financeira. Ela passou a ser reputacional. Uma transferência pode ser refeita. Um cartão pode ser bloqueado. Um prejuízo pode ser provisionado. Existe, porém, um risco para o qual ainda não existe hedge: perder a confiança dos clientes.

Fui a Nova York para assistir ao Brasil. Voltei pensando em outra coisa.

Dinheiro perdido pode voltar. Clientes também. Confiança, não. Ela se parece com aquele pênalti que o Brasil desperdiçou ainda no 0 a 0. Não decidiu o jogo ali, na hora. O jogo continuou, o placar seguiu zerado, ainda havia muitos minutos pela frente. Mas alguma coisa mudou. Aquela chance não volta, e o resto da partida se joga sempre um pouco mais pesado, um pouco mais “devedor”.

Bancos não quebram da noite para o dia quando perdem a confiança de um cliente. Eles simplesmente passam a jogar o resto da partida em desvantagem.

Fica então a pergunta. Se amanhã o aplicativo do seu banco simplesmente não abrisse por três dias seguidos, você esperaria ou correria para abrir uma nova conta em outro lugar?