Colunistas

Um seriado chamado Brasil

E o enredo de impunidade que parece não ter fim

 (Montagem EXAME com elemento do Canva)

(Montagem EXAME com elemento do Canva)

Publicado em 5 de março de 2026 às 14h33.

Outro dia, alguns amigos me perguntaram como eu posso não gostar de séries. Eles se referiam àquelas que brotam como jabuticabas na Netflix, Prime, HBO, Disney+, entre outras. Quase toda a semana recebo a recomendação de alguma que é “imperdível”. A questão é que, acredite se quiser, eu não assisto a séries. Sou fã de cinema, mas séries, de jeito nenhum.

Na minha opinião, elas partem da premissa de arrastar o enredo ao máximo possível, pois precisam preencher muitos capítulos. Isso sem falar nas temporadas subsequentes que tentam aproveitar o embalo do sucesso inicial, mas frequentemente não conseguem. Assistir a séries intermináveis me parece perda de tempo. Prefiro ler um livro, escutar um podcast, assistir a um bom filme ou escrever textos como este.

Acredito que muitos leitores discordarão da minha opinião. Mas, cada um que faça com o seu tempo livre o que bem entender. Não precisamos — e nem devemos — gostar todos das mesmas coisas. Viva a pluralidade e a diversidade! Abaixo a polarização!

Falando em polarização, confesso que tenho andado com o estômago embrulhado com tudo o que vem ocorrendo nas altas esferas dos três Poderes da República. Não tenho tido muito apetite para escrever sobre o tema. E, mesmo que tivesse, seria difícil escolher uma única pauta entre tantas opções: as escabrosas emendas parlamentares; a máfia montada para roubar aposentados do INSS; o mar de lama em torno do caso Master; os eternos e vexatórios penduricalhos; as canetadas monocráticas do STF perdoando bilhões em multas e bloqueando a quebra de sigilos bancários — e por aí vai. Tudo isso sob o manto da rainha de todos os males no Brasil: a impunidade – nossa velha conhecida.

Em recente artigo publicado no Estadão, José Cesar “Zeca” Martins escreveu: “Corruptos não podem ser blindados por afiliação política. Numa democracia, todos devem responder por seus atos. A vida privada pertence a cada um. Mas a função pública pertence à Nação. Nenhum cargo confere o direito à opacidade. Nenhuma autoridade está dispensada de prestar contas. A ausência de integridade mantém o Brasil prisioneiro de um ciclo de atraso, com a descrença corroendo a alma da Nação, destruindo valor econômico e bloqueando a ascensão social.”

Peço perdão ao leitor, mas acabei me empolgando e fugi do tema original deste texto. A verdade é que, como dito anteriormente, tanto faz se você passa o fim de semana maratonando séries ou lendo um bom livro; se prefere o calor ou o frio; se é eleitor do Lula, do Bolsonaro ou de nenhum dos dois. O que realmente importa é que existem princípios gerais que deveriam, sim, nos unir, de uma vez por todas, independentemente de siglas, cores, crenças ou ideologias: (i) a defesa inegociável de instituições íntegras; (ii) o cumprimento rigoroso de regras claras e iguais para todos; e (iii) o combate permanente à impunidade.

Sem isso, o Brasil passa a se parecer cada vez mais com um seriado mal contado — longo demais, repleto de episódios repetidos — em que a desigualdade social e o sofrimento do povo continuam, sem final à vista.