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O erro que faz empresas brasileiras crescerem e quebrarem

O que a Procter & Gamble ensina sobre liderança, método e escala sustentável

 (Divulgação/Divulgação)

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Cris Arcangeli
Cris Arcangeli

CEO da beuty'in

Publicado em 15 de janeiro de 2026 às 09h01.

“No Brasil, crescer rápido costuma ser celebrado. Crescer certo, nem sempre.” (André Felicíssimo- Presidente P&G Brasil)

Durante décadas, o imaginário empreendedor brasileiro foi treinado para confundir crescimento com sucesso.

Faturar mais, abrir novas frentes, acelerar contratações e ganhar visibilidade virou sinônimo de vitória. O problema é que, na prática, esse mesmo movimento explica por que tantas empresas crescem…

e quebram logo depois.

Não é falta de talento. Nem de mercado.

É falta de método.

Esse foi um dos pontos centrais da conversa que abre a nossa terceira temporada do podcast Papo de Tubarões, agora em 2026, com novo cenário em 3D e uma proposta ainda mais focada em estratégia, gestão e visão de longo prazo.

Para estrear a temporada, recebi André Felicíssimo, Presidente da Procter & Gamble (P&G) no Brasil, uma das empresas mais admiradas do mundo quando o assunto é execução, cultura organizacional e crescimento sustentável.

A P&G não construiu marcas globais como Gillette, Pampers, Pantene, Downy e Oral-B apostando em improviso. Construiu apostando em método. E essa diferença explica muito do que separa empresas que atravessam décadas daquelas que mal sobrevivem a um ciclo econômico.

“Crescer não é inflar, é sustentar”

Uma das frases mais marcantes de André Felicíssimo no episódio resume uma lógica pouco praticada no Brasil: crescimento só é virtude quando é sustentável. Segundo ele, dentro da P&G, crescer sem processo é visto como risco, não como conquista.

Dados reforçam esse ponto. Um levantamento da OECD mostra que mais de 60% das empresas que crescem acima de 20% ao ano sem estruturas de governança adequadas quebram ou encolhem drasticamente em até cinco anos. No Brasil, onde o ambiente de negócios já é hostil por natureza, esse percentual tende a ser ainda maior.

Aqui, muitas empresas escalam faturamento antes de escalar liderança, controles e cultura. O resultado é previsível: margem cai, decisões se pulverizam, conflitos aumentam e a operação perde eficiência.

Costumo repetir que “inovação te dá liberdade poética de começar pequeno”. Mas liberdade sem disciplina vira desorganização. A P&G entende isso com clareza: inovação só prospera quando está apoiada em processos robustos.

“Cultura não é discurso, é sistema de decisões”

Outro ponto-chave da conversa foi a forma como a P&G trata cultura organizacional. Lá, cultura não é um conjunto de frases bonitas na parede. É um sistema de decisões repetidas ao longo do tempo.

André explicou que líderes são treinados para tomar decisões alinhadas a valores claros, mesmo quando isso custa resultado no curto prazo. Essa consistência cria previsibilidade interna algo raro em empresas brasileiras, onde a regra muda conforme o humor do dono ou a pressão do caixa.

Segundo a consultoria McKinsey, empresas com culturas fortes e bem definidas têm até 3 vezes mais chance de superar seus concorrentes em rentabilidade no longo prazo. Não é coincidência. Cultura bem construída reduz retrabalho, conflitos internos e decisões erráticas.

No Brasil, o problema não é a falta de discurso sobre cultura. É a falta de coerência entre discurso e prática. E incoerência custa caro.

“Liderança não é carisma. É método.”

Existe um mito persistente no empreendedorismo brasileiro: o do líder carismático que resolve tudo no improviso. A P&G opera na lógica oposta. Lá, liderança é tratada como competência treinável, não como talento inato.

Isso se traduz em programas estruturados de formação de líderes, avaliação constante e sucessão planejada. Não por acaso, a empresa é considerada uma das maiores “escolas de CEOs” do mundo, muitos executivos que passaram pela P&G hoje lideram grandes corporações globais.

Segundo dados da própria companhia, mais de 90% das posições de liderança são preenchidas internamente, um indicador claro de maturidade organizacional.

Sempre digo que “a estratégia certa te faz vencer”. Mas estratégia sem liderança preparada não se sustenta. Empresas brasileiras frequentemente apostam tudo no fundador, e esquecem de construir o time que sustenta o negócio quando ele cresce.

O Brasil cresce apesar do sistema, não por causa dele

Aqui entra o ponto que não pode ser ignorado. Mesmo empresas bem geridas enfrentam, no Brasil, um ambiente estruturalmente hostil ao crescimento. Carga tributária complexa, imposto em cascata, insegurança jurídica, custo elevado de capital, burocracia e instabilidade regulatória criam um cenário em que empreender exige energia desproporcional apenas para se manter de pé.

Dados do Banco Mundial mostram que empresas brasileiras gastam, em média, 1.500 horas por ano apenas para lidar com obrigações tributárias. Em países da OCDE, esse número gira em torno de 160 horas.

Essa diferença não é detalhe é competitividade perdida. Por isso insisto: o debate que o Brasil precisa não é ideológico. É estrutural. Enquanto empreendedores gastam tempo resolvendo o que o Estado deveria simplificar, deixam de inovar, investir e escalar com eficiência.

“A sorte sempre me achou trabalhando”

Essa frase resume bem tanto a trajetória de André quanto a minha visão sobre empreendedorismo. Sorte, no mundo real, costuma encontrar quem constrói repertório, método e consistência.

Empresas como a P&G não dependem de genialidade ocasional. Dependem de processos bem desenhados, execução disciplinada e decisões baseadas em dados. É isso que permite atravessar crises, mudanças tecnológicas e ciclos econômicos sem perder relevância.

No Brasil, onde o ambiente externo já é adverso, operar sem método não é ousadia, é imprudência.

Esse episódio está imperdível e quem acompanhar o programa de estreia da nova temporada do Papo de Tubarões vai sair com aprendizados práticos e aplicáveis sobre:

  • Por que crescer rápido sem estrutura é um erro estratégico
  • Como cultura organizacional impacta diretamente resultados
  • O papel da liderança como sistema, não como personalidade
  • O que empresas brasileiras podem aprender com modelos globais de gestão
  • Como construir crescimento sustentável mesmo em ambientes hostis

No fim, fica uma constatação simples, e desconfortável: o problema de muitas empresas brasileiras não é falta de oportunidade. É excesso de improviso.

Concorda?

E lembre-se da lição: Crescer é escolha.

Mas crescer com método é estratégia.

O Papo de Tubarões vai ao ar todas as quartas-feiras, às 20h, no YouTube.

Se você quer entender como líderes globais tomam decisões, constroem marcas e escalam negócios em ambientes complexos, este programa é um bom ponto de partida.

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