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CEO da beuty'in
Publicado em 10 de fevereiro de 2026 às 15h42.
Chamam de sorte quando não enxergam o processo.
No Brasil, ainda persiste uma narrativa confortável sobre sucesso: a de que grandes empresários, atletas ou líderes “deram certo” porque estavam no lugar certo, na hora certa. A palavra sorte surge como um atalho explicativo para tudo aquilo que exige análise, disciplina e tempo.
Mas quem constrói algo relevante sabe: sorte não sustenta crescimento. Não atravessa crises. Não mantém uma empresa de pé quando o mercado vira, o capital aperta ou a motivação desaparece.
O que sustenta é outra coisa.
O nome disso é GRIT.
O conceito, popularizado pela psicóloga Angela Duckworth, define GRIT como a combinação de perseverança e paixão de longo prazo.
Em seus estudos longitudinais, Duckworth demonstrou que a perseverança consistente é um preditor mais confiável de sucesso do que talento, QI ou habilidades técnicas isoladas, especialmente em ambientes competitivos e de alta complexidade. Na prática, GRIT é a capacidade de continuar quando o entusiasmo inicial acaba, e ele sempre acaba.
No mundo dos negócios, isso aparece de forma clara. Ideias são abundantes. Execução disciplinada, não.
Pesquisas amplamente citadas no ecossistema de startups mostram que a maioria das empresas não fracassa por falta de boas ideias, mas por incapacidade de executar com consistência ao longo do tempo.
Empreender não é sobre ter um grande momento, mas sobre sustentar milhares de pequenos movimentos invisíveis: repetição, ajustes, recusas, correções de rota e recomeços.
O mercado costuma aplaudir o resultado final, mas ignora o caminho. Ignora os “nãos” acumulados, as decisões impopulares, a constância quando ninguém está olhando. Ignora as vezes em que seguir em frente foi menos um impulso emocional e mais uma escolha racional.
Essa diferença ficou ainda mais evidente e me trouxe clareza em uma conversa recente com David Feffer, presidente do Conselho de Administração da Suzano S/A e diretor-presidente da Suzano Holding.
O que muitas vezes é chamado de “visão” ou “talento” costuma ser, na prática, a disposição de permanecer fiel a uma estratégia por tempo suficiente para que ela amadureça. Não há glamour nisso. Há método.
GRIT não é insistência cega. É clareza de propósito aliada à disciplina. É entender por que se começou e decidir continuar mesmo quando o cenário deixa de ser estimulante.
Dados de mercado ajudam a explicar por quê. Estudos sobre longevidade empresarial indicam que apenas uma pequena parcela das empresas ultrapassa duas décadas de existência.
As organizações que conseguem atravessar esse período raramente o fazem apoiadas apenas em inovação disruptiva. O fator comum é a resiliência estratégica: disciplina de execução, constância de decisões e lideranças capazes de atravessar ciclos longos sem abandonar o jogo no primeiro momento adverso.
Empresas que atravessam décadas não são construídas apenas com inovação. Elas são sustentadas por resiliência estratégica. Por líderes que entendem que o extraordinário é consequência do ordinário bem-feito, repetido de forma consistente ao longo do tempo.
Talvez um dos erros mais comuns da nova geração de líderes seja confundir motivação com compromisso. Motivação oscila. Compromisso sustenta. GRIT é compromisso em estado puro.
No fim, a sorte até pode aparecer.
Mas quase sempre encontra quem já está trabalhando há muito tempo.
Isso não é acaso.
É construção.