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Empreender não é só abrir um CNPJ: é ter vontade de fazer melhor, de transformar

O Papo de Tubarões traz Junior Borneli, fundador da StartSe, uma plataforma de Educação Empreendedora

Junior Borneli é fundador da StartSe, plataforma de Educação Empreendedora, com sede no Brasil e operações em várias partes do mundo, como o Vale do Silício e a China
Da Redação

Redação Exame

Publicado em 12 de outubro de 2023 às 10h00.

Este Papo de Tubarões traz uma pessoa que criou uma das mais transformadoras plataformas que o Brasil já viu: é Junior Borneli, fundador da StartSe, uma plataforma de Educação Empreendedora, com sede no Brasil e operações em várias partes do mundo, como o Vale do Silício e a China. Ele costuma dizer que trabalha todos os dias para “provocar novos começos” por meio do compartilhamento de conhecimento.

Para começar, quem é o Junior?

Nasci em Areado, uma cidadezinha de 13 mil habitantes no interior de Minas Gerais. Foi lá que fundei a StartSe, em 2015, por conta de desafios que tive em empreender. Me formei em Direito, mas nunca atuei na área, trabalhei  nas mais variadas coisas, tentei empreender com várias coisas,  desde fábrica  de camisetas, marmitas, mas nada funcionou. Foi então que fiz uma reflexão: se havia uma dificuldade tão grande em fazer do jeito certo no interior de Minas, qual seria o desafio dos empreendedores nas regiões mais isoladas do país? E se eu criasse uma plataforma que ensinasse a empreender? Como eu não sabia fazer isso, nossos  primeiros cursos eram praticamente sessões de auto ajuda, de onde todos saíam um pouquinho melhores. Entendemos assim o poder das conexões, de estar próximo das pessoas e aprender um pouquinho com cada um.

É interessante que todo empreendedor tem histórias de aprendizado, de tentativa e erro, de fazer do jeito que sabia.

Essa lição vai justamente nesse caminho: se muita gente já desbravou o mercado, já experimentou um monte de coisas, não precisamos cometer os mesmos erros.  Queremos facilitar o caminho das pessoas, antecipar, criar movimentos para elas seguirem por caminhos mais seguros, se é que é possível para quem empreende, ajudar com soluções. A StartSe tenta entregar um pouco da  visão de quem chegou lá, quais foram os aprendizados da vida prática, da vida real  e, principalmente,  antecipar os sinais de para onde vai o mundo, que hoje é um grande desafio. O mundo está instável, complexo: se não conseguirmos descobrir os sinais que indiquem para onde as coisas estão caminhando, por mínimos que sejam, ficamos ainda mais perdidos.

Quem  conseguir antecipar o que vai acontecer daqui a cinco anos vai ficar milionário. Quem antecipar 10 anos vai ficar bilionário. Fica mais fácil quando sabemos por qual caminho seguir?

Depois que saímos de Minas, viemos para São Paulo e nos espalhamos por alguns lugares do mundo onde está acontecendo inovação, como o Vale do Silício, China, Israel, Portugal, porque entendemos que saber mais cedo das coisas é uma grande vantagem competitiva. E, hoje, inovação no aspecto presente/futuro depende também de posição geográfica, de onde você está. Quem trabalha com mercado de pagamentos, ou social Commerce, e vai para a China, conhece o futuro, porque os chineses estão cinco ou seis anos à nossa frente. Quando volta, já sabe o que vai acontecer, pode seguir esse caminho e antecipar os movimentos. Outro exemplo: aqui ainda não existem carros autônomos, mas no Vale do Silício semanalmente são feitas 25 mil corridas de carros autônomos.  Lá isso é presente, para nós é futuro.

A antecipação dos sinais e dos movimentos, que é chamada de ambidestria,  é o mais importante para quem empreende ou é líder de uma empresa.

Como não sabemos o que vem pela frente, temos que criar pela experimentação, imaginar um futuro que é muito mais plural do que era no passado. O Jorge Gerdau, que é professor na StartSe, diz que há 30 anos imaginava o mundo como seria dali a 15 anos e acertava,  porque era fácil prever. Hoje não conseguimos mais saber o que vai acontecer em três anos e por isso temos que elaborar hipóteses e testá-las. E se percebermos algo que será relevante no futuro, temos que fazer parte deste mercado. Por exemplo, a Shell, que é a quinta maior petrolífera do mundo, inaugurou a maior estação de recarga de veículos elétricos do mundo. É isso: não podemos ignorar os sinais dados pelo mercado, não dá para apostar numa coisa só, para cravar que o futuro irá naquela única direção. Por isso que nos últimos anos as startups ensinaram com experimentos, MVBs, movimentos rápidos, gestão ágil: tudo o que era “coisa de startup” virou um modelo de gestão. As empresas precisam ter gestão com movimentos rápidos, intensos, para aprender rapidamente e escolher em quais os caminhos irão seguir.

Antigamente uma empresa grande via uma startup interessante, inteligente ou com alguma proposta revolucionária, comprava essa startup. Mas muitas vezes essa startup acabava se destruindo dentro da corporação que,  ou não tinha inteligência para acompanhar aquilo, ou não tinha uma equipe que desse valor àquela proposta.  Hoje essas corporações têm mudado sua própria forma de gestão para que possam criar pequenas startups dentro das unidades internas de negócios.

Exato. Na primeira fase desse movimento, as grandes compravam as startups, traziam para dentro de casa para se proteger do risco que elas representavam ou se potencializavam com elas dentro de sua estrutura. Só que o choque cultural é muito grande e viram que não fazia sentido matar um ativo que tinham comprado. Na segunda fase, começaram a trazer as startups, dando mais liberdade para os empreendedores que as criaram para  tocar o projeto do jeito certo e até contaminar a cultura interna, geralmente engessada, cheia de compliances. Essas grandes também têm gente inteligente, gente boa, ideias inovadoras, mas é muito mais difícil mudar a rota de um barco enorme do que de um bote, um jet ski.

Nessa segunda fase a cultura das startups está sendo mais respeitada, para que não aconteça o que aconteceu com startups incríveis que foram “engolidas” e sumiram. Às vezes existem sinais, mas as pessoas estão tão ocupadas com o business atual que não conseguem olhar para fora e imaginar que aquilo poderia ser uma solução de até mesmo criar um novo ciclo de perpetuidades da própria empresa. Hoje as empresas precisam estar prontas, atentas: esse é um ciclo cultural  que precisa ser criado e para entender que todo mundo dentro da sua própria estrutura é uma antena de captura de sinais.

Isso é cultura: a inovação vem de baixo, vem de quem está operando no dia a dia,  só que às vezes a estrutura hierárquica é tão pesada em cima, são tantos cargos que, quando a inovação aparece, vai ter alguém nessa escala de poder que não aceita. A inovação acaba morrendo e as pessoas se desmotivam de apresentar novidades porque não conseguem chegar em quem realmente tem poder de decisão. Numa estrutura hierárquica enxuta, quem detém poder de decisão acaba tendo acesso a essas inovações.

Um consultor japonês criou em 1989 o termo “O Iceberg da Ignorância”. Ele diz que os líderes de uma corporação só enxergam 4% dos problemas ou  oportunidades, porque todo o resto está abaixo e, quanto mais profundo, menos pessoas conhecem. A informação não chega lá em cima porque as organizações ficaram verticais demais, têm muitas camadas. Nas startups não existe isso, tudo é mais fácil, mais rápido, mais ágil. Outra frase muito usada hoje é “fazer a coisa certa por muito tempo é um grande risco”. Você pode ser o melhor do mundo, mas se fizer a mesma coisa por muito tempo isso não vai mais funcionar, vai ter uma desconexão com o mercado, porque o valor já está em outra coisa.

É como dizer que em time que está ganhando não se mexe. Aí é que tem que mexer!

Tem um provérbio chinês que diz  “a hora de cavar o poço é quando ainda não sentimos sede”. Se deixar  para sentir sede antes, vai colocar a energia onde não deve, vai entrar em desespero, vai acelerar o nível de desidratação e não vai chegar a lugar nenhum. A hora de fazer uma mudança é quando se está ganhando, porque se der errado sempre existe margem de manobra, podem ser feitas experiências, não se depende de aquilo dar certo para continuar existido.  Persistir e insistir são coisas diferentes. Insistir é ficar empurrando uma coisa que não vai mais daquele jeito. Mas se der um jeitinho diferente pode ser que vá. Precisamos ter capacidade de saber mudar, até achar o caminho que funciona. Isso é persistir.

Nessa hora é importante fazer um curso, como os da StartSe, procurar um mentor, procurar ajuda, porque todo empreendedor  se apaixona de tal forma pela ideia, que não consegue encontrar outro caminho.

O que temos que fazer é nos  apaixonar pelo problema, por procurar formas de resolver o problema, exatamente o contrário de ter uma ideia e procurar um problema para essa ideia. Há uma distorção enorme nisso: uma insistência descabida não faz sentido.  O Steve Jobs dizia que  a diferença dele para outros empreendedores é que ele não desistiu até conseguir. Mas muita gente só vê esse pedaço de frase e esquece que há um contexto por trás: ele passou por muita coisa, perdeu emprego, criou vários  produtos até esse “persistir” funcionar. Persistir não é simplesmente seguir, encontrar uma parede na frente, achar que vai atravessar, muitas vezes sem enxergar que há uma porta ao lado que pode ser aberta. Sim, é preciso continuar, mas nem sempre do mesmo jeito. Precisamos ter essa capacidade de olhar, de parar um pouco e entender o contexto de aprendizado de que todo mundo vai errar muitas vezes e é errando que se encontra o caminho.

Quando eu tentava empreender e dava tudo errado, imaginava que cometeria vários erros até dar certo. Então comecei a encarar o processo de um jeito diferente: errei, mas não significa que estou mais longe do meu objetivo. Estou mais perto, porque é um erro a menos.  À medida em que você vai errando, vai acumulando aprendizado, ajustando a rota e a coisa tende a funcionar. É nas histórias difíceis que estão as maiores lições.

Muita gente se traumatiza quando erra e acha que não vai acertar mais. Mesmo quando tem conhecimento, fica mais assustado. Como superar?

Na StartSe fazemos algumas perguntas quando pensamos em um novo experimento: isso está alinhado com o meu propósito? Tenho dinheiro para financiar? Se der errado isso acaba comigo, mata a empresa? E se der certo, destrava  um novo horizonte de exploração que eu não tinha visto? Se eu conseguir responder sim a essas questões, eu sigo. Por exemplo, somos a única escola de negócios da América Latina que tem uma operação na China, com programas que levam executivos brasileiros para lá a cada 15 dias com o objetivo de descobrir o que está acontecendo naquele mundo. Quando fomos para lá, em 2018, já estávamos no Vale do Silício, mas era lá que estavam acontecendo as coisas. Para isso, teríamos  de  fazer um teste que custaria cerca de 600 mil reais em 6 meses. Perguntamos: temos dinheiro? Sim. Gostaríamos de perder? Não. Se perdermos, isso acaba conosco? Não. Faz parte do nosso propósito? Faz. Se der certo, destrava um novo espaço para explorarmos? Sim. Fomos para a China. Em 2019, um ano depois, a China já representava 20% do nosso faturamento. Aquelas perguntas nos ajudaram a decidir.

Singapura, por exemplo, é um ótimo lugar para se estar nos próximos cinco anos, pela posição geográfica, pela quantidade de dinheiro que movimenta, pelas empresas de tecnologia que estão indo para lá. Estamos recebendo bastante demanda por imersões em função disso. Já fizemos algumas, principalmente para o Agronegócio, que sempre busca outros lugares em que faça sentido ter uma operação comercial, um escritório, um centro de exportação.

Como funcionam essas viagens? Como participar?

Por exemplo, temos uma universidade de fato em Palo Alto, o coração do Vale do Silício, que ainda é o epicentro da inovação. Lá recebemos os executivos em imersões de cinco dias com programas em português e inglês com tradução simultânea, que são uma mescla de conteúdo teórico e prático, ministrado por executivos que estão fazendo inovação nas empresas locais. Depois vamos até essas empresas para entender a cultura in loco, para aprender com quem está fazendo. Por exemplo, o nosso foi o primeiro grupo da América Latina a conhecer o caminhão autônomo da Tesla, apresentado pelo próprio engenheiro que desenvolveu o software.

O foco é entender o modelo mental do Vale do Silício, quais as tecnologias que impactaram o mundo e vão impactar daqui para a frente e como podemos trazer para cada negócio. Não é turismo, é para quem quer aprender sobre modelo mental, como  se faz negócios, tecnologia e o que vem pela frente. Também fazemos imersões genéricas, como modelo mental, por exemplo, ou exclusiva sobre determinados temas. Temos missões segmentadas, que são melhores para quem tem um objetivo específico e sabe o que vai impactar seu negócio. Mas já sabemos o que acontece nas grandes empresas, todo mundo já sabe o que é Inteligência Artificial. Agora o interesse é saber o que está acontecendo por trás das portas das garagens, saber o que vem por aí.

Também levamos executivos a cada 15 dias para a China e temos turmas que vão a Portugal,  que já foi o país mais empreendedor do mundo no passado e agora descobriu que as caravelas modernas não são aquelas que saem para o mar, e sim incentivo ao empreendedorismo e inovação. Portugal virou o polo europeu de startups: é mais barato, tem incentivos, financiamentos do governo a fundo perdido. Setenta por cento das startups de lá não foram fundadas por portugueses: o país está usando a tecnologia e o incentivo ao empreendedorismo para expandir o seu “império” e atrair gente boa do mundo inteiro. É impressionante como o país está conseguindo se reinventar a partir o incentivo ao empreendedorismo. Hoje  Portugal é a grande referência na Europa para quem quer empreender. Também fazemos os grandes festivais como NRF, SXSW e exploramos outros polos, como por exemplo a Estônia, um país com 1 milhão de habitantes que é o país mais digital do mundo.

Como é a operação da StartSe no Brasil, além dos cursos?

Temos programas executivos de Educação com cursos que vão desde formação de líderes em Inteligência Artificial, até programas executivos para c-Level, CEOs, donos de empresa. Temos turmas abertas, in Compay, programas corporativos, uma área grande para treinar líderes e executivos de grandes empresas em nossa sede.  Também atendemos nichos específicos, como uma operação para treinar líderes do Agronegócio em função do que vem pela frente em termos de inovação e tecnologia, para poderem modernizar sua gestão e continuar evoluindo.

Meu propósito é transformar os mercados e a vida das pessoas e você faz isso com muitas e muitas pessoas. Imagino quantas  você impacta, que depois viram origenzinhas de transformação.

Nosso propósito, na StartSe, é provocar novos começos.  Isso é verdadeiro porque a StartSe foi um novo começo na minha vida e de um monte de gente que veio trabalhar conosco. Todas as vezes em que fazemos um conteúdo, um curso, um podcast, uma aula, uma palestra e alguém se reconhece,  tem o clique, nosso propósito se realiza. Quantas coisas acontecem, se movimentam, quantas pessoas se inspiraram por uma decisão individual de empreender? O impacto é enorme.  Esse movimento de empreender transformar a vida da pessoa, a coloca numa outra posição e quem está ao redor quer fazer também. A atitude, o mostrar que é possível fazer contamina as pessoas, por isso é importante mostrar essas realidades. O conhecimento está aí para todo mundo que tem persistência e resiliência para fazer mais e melhor. Sucesso é subjetivo, replicar tudo isso é importante para conseguir avançar.

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Este Papo de Tubarões traz uma pessoa que criou uma das mais transformadoras plataformas que o Brasil já viu: é Junior Borneli, fundador da StartSe, uma plataforma de Educação Empreendedora, com sede no Brasil e operações em várias partes do mundo, como o Vale do Silício e a China. Ele costuma dizer que trabalha todos os dias para “provocar novos começos” por meio do compartilhamento de conhecimento.

Para começar, quem é o Junior?

Nasci em Areado, uma cidadezinha de 13 mil habitantes no interior de Minas Gerais. Foi lá que fundei a StartSe, em 2015, por conta de desafios que tive em empreender. Me formei em Direito, mas nunca atuei na área, trabalhei  nas mais variadas coisas, tentei empreender com várias coisas,  desde fábrica  de camisetas, marmitas, mas nada funcionou. Foi então que fiz uma reflexão: se havia uma dificuldade tão grande em fazer do jeito certo no interior de Minas, qual seria o desafio dos empreendedores nas regiões mais isoladas do país? E se eu criasse uma plataforma que ensinasse a empreender? Como eu não sabia fazer isso, nossos  primeiros cursos eram praticamente sessões de auto ajuda, de onde todos saíam um pouquinho melhores. Entendemos assim o poder das conexões, de estar próximo das pessoas e aprender um pouquinho com cada um.

É interessante que todo empreendedor tem histórias de aprendizado, de tentativa e erro, de fazer do jeito que sabia.

Essa lição vai justamente nesse caminho: se muita gente já desbravou o mercado, já experimentou um monte de coisas, não precisamos cometer os mesmos erros.  Queremos facilitar o caminho das pessoas, antecipar, criar movimentos para elas seguirem por caminhos mais seguros, se é que é possível para quem empreende, ajudar com soluções. A StartSe tenta entregar um pouco da  visão de quem chegou lá, quais foram os aprendizados da vida prática, da vida real  e, principalmente,  antecipar os sinais de para onde vai o mundo, que hoje é um grande desafio. O mundo está instável, complexo: se não conseguirmos descobrir os sinais que indiquem para onde as coisas estão caminhando, por mínimos que sejam, ficamos ainda mais perdidos.

Quem  conseguir antecipar o que vai acontecer daqui a cinco anos vai ficar milionário. Quem antecipar 10 anos vai ficar bilionário. Fica mais fácil quando sabemos por qual caminho seguir?

Depois que saímos de Minas, viemos para São Paulo e nos espalhamos por alguns lugares do mundo onde está acontecendo inovação, como o Vale do Silício, China, Israel, Portugal, porque entendemos que saber mais cedo das coisas é uma grande vantagem competitiva. E, hoje, inovação no aspecto presente/futuro depende também de posição geográfica, de onde você está. Quem trabalha com mercado de pagamentos, ou social Commerce, e vai para a China, conhece o futuro, porque os chineses estão cinco ou seis anos à nossa frente. Quando volta, já sabe o que vai acontecer, pode seguir esse caminho e antecipar os movimentos. Outro exemplo: aqui ainda não existem carros autônomos, mas no Vale do Silício semanalmente são feitas 25 mil corridas de carros autônomos.  Lá isso é presente, para nós é futuro.

A antecipação dos sinais e dos movimentos, que é chamada de ambidestria,  é o mais importante para quem empreende ou é líder de uma empresa.

Como não sabemos o que vem pela frente, temos que criar pela experimentação, imaginar um futuro que é muito mais plural do que era no passado. O Jorge Gerdau, que é professor na StartSe, diz que há 30 anos imaginava o mundo como seria dali a 15 anos e acertava,  porque era fácil prever. Hoje não conseguimos mais saber o que vai acontecer em três anos e por isso temos que elaborar hipóteses e testá-las. E se percebermos algo que será relevante no futuro, temos que fazer parte deste mercado. Por exemplo, a Shell, que é a quinta maior petrolífera do mundo, inaugurou a maior estação de recarga de veículos elétricos do mundo. É isso: não podemos ignorar os sinais dados pelo mercado, não dá para apostar numa coisa só, para cravar que o futuro irá naquela única direção. Por isso que nos últimos anos as startups ensinaram com experimentos, MVBs, movimentos rápidos, gestão ágil: tudo o que era “coisa de startup” virou um modelo de gestão. As empresas precisam ter gestão com movimentos rápidos, intensos, para aprender rapidamente e escolher em quais os caminhos irão seguir.

Antigamente uma empresa grande via uma startup interessante, inteligente ou com alguma proposta revolucionária, comprava essa startup. Mas muitas vezes essa startup acabava se destruindo dentro da corporação que,  ou não tinha inteligência para acompanhar aquilo, ou não tinha uma equipe que desse valor àquela proposta.  Hoje essas corporações têm mudado sua própria forma de gestão para que possam criar pequenas startups dentro das unidades internas de negócios.

Exato. Na primeira fase desse movimento, as grandes compravam as startups, traziam para dentro de casa para se proteger do risco que elas representavam ou se potencializavam com elas dentro de sua estrutura. Só que o choque cultural é muito grande e viram que não fazia sentido matar um ativo que tinham comprado. Na segunda fase, começaram a trazer as startups, dando mais liberdade para os empreendedores que as criaram para  tocar o projeto do jeito certo e até contaminar a cultura interna, geralmente engessada, cheia de compliances. Essas grandes também têm gente inteligente, gente boa, ideias inovadoras, mas é muito mais difícil mudar a rota de um barco enorme do que de um bote, um jet ski.

Nessa segunda fase a cultura das startups está sendo mais respeitada, para que não aconteça o que aconteceu com startups incríveis que foram “engolidas” e sumiram. Às vezes existem sinais, mas as pessoas estão tão ocupadas com o business atual que não conseguem olhar para fora e imaginar que aquilo poderia ser uma solução de até mesmo criar um novo ciclo de perpetuidades da própria empresa. Hoje as empresas precisam estar prontas, atentas: esse é um ciclo cultural  que precisa ser criado e para entender que todo mundo dentro da sua própria estrutura é uma antena de captura de sinais.

Isso é cultura: a inovação vem de baixo, vem de quem está operando no dia a dia,  só que às vezes a estrutura hierárquica é tão pesada em cima, são tantos cargos que, quando a inovação aparece, vai ter alguém nessa escala de poder que não aceita. A inovação acaba morrendo e as pessoas se desmotivam de apresentar novidades porque não conseguem chegar em quem realmente tem poder de decisão. Numa estrutura hierárquica enxuta, quem detém poder de decisão acaba tendo acesso a essas inovações.

Um consultor japonês criou em 1989 o termo “O Iceberg da Ignorância”. Ele diz que os líderes de uma corporação só enxergam 4% dos problemas ou  oportunidades, porque todo o resto está abaixo e, quanto mais profundo, menos pessoas conhecem. A informação não chega lá em cima porque as organizações ficaram verticais demais, têm muitas camadas. Nas startups não existe isso, tudo é mais fácil, mais rápido, mais ágil. Outra frase muito usada hoje é “fazer a coisa certa por muito tempo é um grande risco”. Você pode ser o melhor do mundo, mas se fizer a mesma coisa por muito tempo isso não vai mais funcionar, vai ter uma desconexão com o mercado, porque o valor já está em outra coisa.

É como dizer que em time que está ganhando não se mexe. Aí é que tem que mexer!

Tem um provérbio chinês que diz  “a hora de cavar o poço é quando ainda não sentimos sede”. Se deixar  para sentir sede antes, vai colocar a energia onde não deve, vai entrar em desespero, vai acelerar o nível de desidratação e não vai chegar a lugar nenhum. A hora de fazer uma mudança é quando se está ganhando, porque se der errado sempre existe margem de manobra, podem ser feitas experiências, não se depende de aquilo dar certo para continuar existido.  Persistir e insistir são coisas diferentes. Insistir é ficar empurrando uma coisa que não vai mais daquele jeito. Mas se der um jeitinho diferente pode ser que vá. Precisamos ter capacidade de saber mudar, até achar o caminho que funciona. Isso é persistir.

Nessa hora é importante fazer um curso, como os da StartSe, procurar um mentor, procurar ajuda, porque todo empreendedor  se apaixona de tal forma pela ideia, que não consegue encontrar outro caminho.

O que temos que fazer é nos  apaixonar pelo problema, por procurar formas de resolver o problema, exatamente o contrário de ter uma ideia e procurar um problema para essa ideia. Há uma distorção enorme nisso: uma insistência descabida não faz sentido.  O Steve Jobs dizia que  a diferença dele para outros empreendedores é que ele não desistiu até conseguir. Mas muita gente só vê esse pedaço de frase e esquece que há um contexto por trás: ele passou por muita coisa, perdeu emprego, criou vários  produtos até esse “persistir” funcionar. Persistir não é simplesmente seguir, encontrar uma parede na frente, achar que vai atravessar, muitas vezes sem enxergar que há uma porta ao lado que pode ser aberta. Sim, é preciso continuar, mas nem sempre do mesmo jeito. Precisamos ter essa capacidade de olhar, de parar um pouco e entender o contexto de aprendizado de que todo mundo vai errar muitas vezes e é errando que se encontra o caminho.

Quando eu tentava empreender e dava tudo errado, imaginava que cometeria vários erros até dar certo. Então comecei a encarar o processo de um jeito diferente: errei, mas não significa que estou mais longe do meu objetivo. Estou mais perto, porque é um erro a menos.  À medida em que você vai errando, vai acumulando aprendizado, ajustando a rota e a coisa tende a funcionar. É nas histórias difíceis que estão as maiores lições.

Muita gente se traumatiza quando erra e acha que não vai acertar mais. Mesmo quando tem conhecimento, fica mais assustado. Como superar?

Na StartSe fazemos algumas perguntas quando pensamos em um novo experimento: isso está alinhado com o meu propósito? Tenho dinheiro para financiar? Se der errado isso acaba comigo, mata a empresa? E se der certo, destrava  um novo horizonte de exploração que eu não tinha visto? Se eu conseguir responder sim a essas questões, eu sigo. Por exemplo, somos a única escola de negócios da América Latina que tem uma operação na China, com programas que levam executivos brasileiros para lá a cada 15 dias com o objetivo de descobrir o que está acontecendo naquele mundo. Quando fomos para lá, em 2018, já estávamos no Vale do Silício, mas era lá que estavam acontecendo as coisas. Para isso, teríamos  de  fazer um teste que custaria cerca de 600 mil reais em 6 meses. Perguntamos: temos dinheiro? Sim. Gostaríamos de perder? Não. Se perdermos, isso acaba conosco? Não. Faz parte do nosso propósito? Faz. Se der certo, destrava um novo espaço para explorarmos? Sim. Fomos para a China. Em 2019, um ano depois, a China já representava 20% do nosso faturamento. Aquelas perguntas nos ajudaram a decidir.

Singapura, por exemplo, é um ótimo lugar para se estar nos próximos cinco anos, pela posição geográfica, pela quantidade de dinheiro que movimenta, pelas empresas de tecnologia que estão indo para lá. Estamos recebendo bastante demanda por imersões em função disso. Já fizemos algumas, principalmente para o Agronegócio, que sempre busca outros lugares em que faça sentido ter uma operação comercial, um escritório, um centro de exportação.

Como funcionam essas viagens? Como participar?

Por exemplo, temos uma universidade de fato em Palo Alto, o coração do Vale do Silício, que ainda é o epicentro da inovação. Lá recebemos os executivos em imersões de cinco dias com programas em português e inglês com tradução simultânea, que são uma mescla de conteúdo teórico e prático, ministrado por executivos que estão fazendo inovação nas empresas locais. Depois vamos até essas empresas para entender a cultura in loco, para aprender com quem está fazendo. Por exemplo, o nosso foi o primeiro grupo da América Latina a conhecer o caminhão autônomo da Tesla, apresentado pelo próprio engenheiro que desenvolveu o software.

O foco é entender o modelo mental do Vale do Silício, quais as tecnologias que impactaram o mundo e vão impactar daqui para a frente e como podemos trazer para cada negócio. Não é turismo, é para quem quer aprender sobre modelo mental, como  se faz negócios, tecnologia e o que vem pela frente. Também fazemos imersões genéricas, como modelo mental, por exemplo, ou exclusiva sobre determinados temas. Temos missões segmentadas, que são melhores para quem tem um objetivo específico e sabe o que vai impactar seu negócio. Mas já sabemos o que acontece nas grandes empresas, todo mundo já sabe o que é Inteligência Artificial. Agora o interesse é saber o que está acontecendo por trás das portas das garagens, saber o que vem por aí.

Também levamos executivos a cada 15 dias para a China e temos turmas que vão a Portugal,  que já foi o país mais empreendedor do mundo no passado e agora descobriu que as caravelas modernas não são aquelas que saem para o mar, e sim incentivo ao empreendedorismo e inovação. Portugal virou o polo europeu de startups: é mais barato, tem incentivos, financiamentos do governo a fundo perdido. Setenta por cento das startups de lá não foram fundadas por portugueses: o país está usando a tecnologia e o incentivo ao empreendedorismo para expandir o seu “império” e atrair gente boa do mundo inteiro. É impressionante como o país está conseguindo se reinventar a partir o incentivo ao empreendedorismo. Hoje  Portugal é a grande referência na Europa para quem quer empreender. Também fazemos os grandes festivais como NRF, SXSW e exploramos outros polos, como por exemplo a Estônia, um país com 1 milhão de habitantes que é o país mais digital do mundo.

Como é a operação da StartSe no Brasil, além dos cursos?

Temos programas executivos de Educação com cursos que vão desde formação de líderes em Inteligência Artificial, até programas executivos para c-Level, CEOs, donos de empresa. Temos turmas abertas, in Compay, programas corporativos, uma área grande para treinar líderes e executivos de grandes empresas em nossa sede.  Também atendemos nichos específicos, como uma operação para treinar líderes do Agronegócio em função do que vem pela frente em termos de inovação e tecnologia, para poderem modernizar sua gestão e continuar evoluindo.

Meu propósito é transformar os mercados e a vida das pessoas e você faz isso com muitas e muitas pessoas. Imagino quantas  você impacta, que depois viram origenzinhas de transformação.

Nosso propósito, na StartSe, é provocar novos começos.  Isso é verdadeiro porque a StartSe foi um novo começo na minha vida e de um monte de gente que veio trabalhar conosco. Todas as vezes em que fazemos um conteúdo, um curso, um podcast, uma aula, uma palestra e alguém se reconhece,  tem o clique, nosso propósito se realiza. Quantas coisas acontecem, se movimentam, quantas pessoas se inspiraram por uma decisão individual de empreender? O impacto é enorme.  Esse movimento de empreender transformar a vida da pessoa, a coloca numa outra posição e quem está ao redor quer fazer também. A atitude, o mostrar que é possível fazer contamina as pessoas, por isso é importante mostrar essas realidades. O conhecimento está aí para todo mundo que tem persistência e resiliência para fazer mais e melhor. Sucesso é subjetivo, replicar tudo isso é importante para conseguir avançar.

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