Trump e a indústria do medo

As vezes é difícil acreditar que de todos os seres humanos que já pisaram sobre a terra os que vivem a vida mais segura. Sob todos os aspectos! Somos os menos expostos (com menor risco de morrer) a doenças contagiosas, pestes, desastres naturais, guerras, ataques terroristas, acidentes de carros ou aviões e até mesmo a […]
 (Antonio Scorza/Getty Images)
(Antonio Scorza/Getty Images)
E
Eduardo Moreira

Publicado em 03/02/2017 às 12:04.

Última atualização em 22/06/2017 às 18:04.

As vezes é difícil acreditar que de todos os seres humanos que já pisaram sobre a terra os que vivem a vida mais segura. Sob todos os aspectos! Somos os menos expostos (com menor risco de morrer) a doenças contagiosas, pestes, desastres naturais, guerras, ataques terroristas, acidentes de carros ou aviões e até mesmo a brigas rotineiras. Na maior parte dos exemplos citados, o número atual de sinistralidade é o menor verificado em todos os tempos. Mesmo nos casos onde este número apresentou aumento, quando levamos em conta que o contingente de pessoas sobre a terra gira hoje em torno de 8 bilhões de pessoas, a probabilidade de acontecerem despencou. Curiosamente, porém, somos a geração com maior medo que já viveu sobre a terra.

A indústria que se beneficia deste medo é a grande responsável por isso. Muito maior do que somente a mídia, esta indústria tem seus tentáculos espalhados em diversos setores econômicos. A indústria de medicamentos é um ótimo exemplo. Nunca se tomou tanto remédio para tão pouca doença como hoje em dia, em tempos que as pessoas (em sua maioria) são vacinadas, tem água limpa, saneamento básico e hábitos pessoais mais higiênicos.

Outra que deita em rola em cima do medo das pessoas é a do mercado financeiro. Os bancões pagam taxas absolutamente ridículas aos investimentos de seus clientes e taxas absurdamente altas nos empréstimos que concedem, mas os clientes não mudam de bancos porque têm medo do que pode acontecer com seu dinheiro em outro lugar. Advogados deitam e rolam em cima do medo que implantam em seus clientes, principalmente por causa do desconhecimento das leis por parte do cidadão comum. Mas há um lugar onde a cultura do medo é mais estimulada do que em todos os outros. Na política!

Políticos se elegem quase que exclusivamente em cima do medo dos eleitores. E não é de hoje. Maquiavel já falava que é melhor ser temido do que amado, ou respeitado. Napoleão falava coisas parecidas. No Brasil, Collor se elegeu assim. FHC não fez diferente. E Lula coroou a estratégia, elegendo a então inexpressiva e pouco simpática Dilma Roussef como sua sucessora em cima do medo implantado nos brasileiros de que os programas sociais de seu governo serem extintos. Ponto pra ele! Mas o político que realmente deu um show com essa estratégia foi Donald Trump!

Trump se elegeu quase que única e exclusivamente em cima do medo de seus eleitores. Verbo que já não se usa mais em sua forma transitiva direta em solo americano. O americano de hoje não teme “algo”. Ele simplesmente teme! E depois, já apavorado, deposita seu medo na primeira bóia que lhe jogam. Iranianos, norte coreanos, muçulmanos, ataques biológicos, conspirações internacionais, caos econômico…

O que não faltam são bóias. É claro que para a estratégia ser bem sucedida sempre há uma semente real por traz das ameaças. A Coreia do Norte realmente tem um governante louco, o Irã realmente domina a tecnologia nuclear, existem realmente grupos muçulmanos radicais. Só que se fôssemos olhar para os fatos e não para as histórias contadas veríamos que não havia motivo concreto algum para as medidas radicais propostas durante a campanha. Mas funcionou, como sempre funciona e Trump é o novo presidente dos Estados Unidos. O americano escolheu tomar um tarja preta para dor de cabeça. Só que agora vai ter que aturar os efeitos colaterais do remédio…

Fica a dica para o leitor, antes de ir no embalo da onda e se desesperar, visite os números e os fatos. Que, aliás, nunca foram tão fáceis de se conseguir como são hoje. Basta o google e um pouquinho de disposição. Ah, e coragem, é claro.

EDUARDO-MOREIRA-credito-coluna