A formula infalível para se eleger

Uma série de eventos inéditos no combate à corrupção no país e a tão aclamada mobilização popular que resultou no impeachment da presidente Dilma  parecem ter contribuído pouco para a conscientização do eleitor brasileiro. As eleições para prefeito de 2016 foram emblemáticas ao mostrar como a boa e velha fórmula de se fazer política segue […]
 (Ueslei Marcelino/Reuters)
(Ueslei Marcelino/Reuters)
Por Eduardo MoreiraPublicado em 04/10/2016 12:30 | Última atualização em 22/06/2017 18:23Tempo de Leitura: 5 min de leitura

Uma série de eventos inéditos no combate à corrupção no país e a tão aclamada mobilização popular que resultou no impeachment da presidente Dilma  parecem ter contribuído pouco para a conscientização do eleitor brasileiro. As eleições para prefeito de 2016 foram emblemáticas ao mostrar como a boa e velha fórmula de se fazer política segue elegendo candidatos por todo o país. Claro, temos uma novidade aqui e outra acolá mas, no geral, seguimos, como povo, cegos e pouco informados.

É incrível ver como a antiga receita  para construir (ou destruir) reputações segue sendo a mais utilizada. E a que mais funciona. Aquela que atribuí ao adversário a radicalização de uma ideia, deturpando a mensagem original e gerando o medo no eleitorado. Tira-se votos do candidato acusado, e ganha-se votos apresentando-se como o antídoto contra a ideia malévola. 

As pessoas devem sempre ter a liberdade para criticar ideias e projetos, mas deveriam sempre criticar o que é real. Abaixo, algumas das críticas que mais são usadas para arregimentar votos e destruir candidatos de esquerda pelos candidatos de direita. E, logo abaixo de cada uma, a verdade sobre os fatos. Na próxima semana, trarei algumas das utilizadas pelos candidatos de esquerda para desmoralizar os de direita.

Os ataques que vêm da direita:

Ataque:  O candidato “X” é a favor do aborto! 

O fato: Ninguém em sã consciência é “a favor” do aborto. Do tipo: “as mulheres devem abortar ao invés de parir!”. Todos sabem que acabar com uma vida é algo que deve ser evitado a todo custo. O que se defende é a descriminalização do aborto para certas situações. Alguns candidatos têm uma lista mais ampla sobre quais são essas situações; outros candidatos, outra lista mais restrita. O argumento, de todos eles, é que existem situações que forçam a mãe a realizá-lo. Legalizar o aborto, daria proteção as mães, e controle sobre o que está acontecendo. E, ao se legalizar alguns casos, os outros feitos de maneira irresponsável e “criminosa” seriam mais fáceis de combater, e deveriam, no limite, diminuir ao invés de aumentar. É sobre este fato e argumentos que as pessoas deveriam se posicionar, sendo a favor ou contra.

Ataque: O candidato “X” defende o uso de drogas

O fato: O caso aqui é bem parecido com o do aborto. Não se trata de estimular o uso das drogas pelo cidadão. Não é uma plataforma que visa aumentar o numero de usuários de maconha, cocaína, crack e outros venenos. Trata-se de tirar este problema de saúde pública de trás das cortinas e trazê-lo para o palco aos olhos de todos, para que políticas públicas possam ser realizadas de forma monitorada e efetiva a fim de diminuí-lo. Um bom exemplo de que isso é possível, segundo os favoráveis a esta ideia, é o do cigarro. O número de fumantes é cada vez menor, devido a políticas públicas agressivas com esse intuito. E isso só é possível devido ao fato da industria do cigarro ser toda conhecida e legal. Já as drogas, que são proibidas, têm seu consumo aumentado todos os anos. A estratégia porém pode ser eficaz ou não, e é sobre isso que se deve opinar.

Ataque: O candidato “X” é contra a familia

O fato: Não há quem não compreenda a importância da família. Evolutivamente, nascemos todos programados para ser assim. Isso aumenta nossas chances de sobrevivência e perpetua nosso conhecimento e patrimônio. No entanto, existem famílias que fogem ao padrão bíblico de um pai, uma mãe, um casamento eterno e filhos. São pessoas que trabalham, pagam seus impostos, tem seus sonhos e seus medos, e também suas paixões. O que se defende é que os direitos e proteções que existem valham para todos os cidadãos que andam dentro da lei. Também defende-se que as pessoas sejam informadas a respeito das diferentes escolhas que existem em uma sociedade para evitar atitudes preconceituosas, o que é diferente de estimular estas diferenças. É importante frisar que existe um abismo entre não compartilhar de uma opção sexual ou religiosa e querer puni-la. 

Ataque: O candidato “X” defende bandido

O fato: Existem realmente certos candidatos eleitos por grupos que vivem a margem da lei, como as milícias, traficantes de drogas e outros grupos. Estes realmente são eleitos para defender uma classe marginal, e não devem ser tolerados. No entanto, normalmente usa-se este tipo de ataque verbal aos candidatos que defendem que se respeite a lei também com os bandidos, assim como é feito com todos os cidadãos. A verdade é que uma pessoa tem o direito de defender que assassinos sejam mortos. É algo legítimo. Mas a luta deve ser para modificar a lei e não a defesa para que se aja fora dela. No momento em que se age fora da lei com alguém que a infringiu, legitima-se agir desta forma. Uma coisa é ter o sentimento de que alguém que cometeu um ato malvado seja punido com uma severidade acima da lei. Raiva, ódio e o sentimento de vingança quando algo de natureza cruel acontece com alguém ou algo que amamos é humano e todos estamos sujeitos a isso. A outra é querer que as ações correspondam sempre aos sentimentos que temos. Exatamente para que isso não aconteça é que existe a lei. Se a lei é incorreta, deve-se buscar mudá-la e não infringi-la.

Provavelmente as pessoas já tenham sido tão expostas a este artifício que tenham parado de ler já no primeiro exemplo. É isso que a estratégia busca e consegue atingir. Tirar os assuntos da discussão, criar dogmas, medo e eleger salvadores. 

Semana que vem publicarei os ataques da esquerda para a direita. Ataques que também desinformam, geram ódio e inibem uma discussão de qualidade sobre assuntos importantes.

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